Brazzil O meu primeiro contato com essas simpáticas criaturinhas deu-se quando eu era muito
criança. O meu avô Rubem havia me prometido um cavalinho de sua fazenda do Chove-Chuva
se eu deixasse lancetarem o meu pé, arruinado com uma estrepada no brinquedo do pique.
Por duas vezes o farmacêutico Osmúsio estivera lá em casa com sua caixa de ferrinhos
para o serviço, mas eu fiz tamanho escarcéu que ele não chegou a passar da porta do
quarto. Da segunda vez meu pai pediu a seu Osmúsio que esperasse na varanda enquanto ele
ia ter uma conversa comigo. Eu sabia bem que espécie de conversa seria; e aproveitando a
vantagem da doença, mal ele caminhou para a cama eu comecei novamente a chorar e gritar,
esperando atrair a simpatia de minha mãe e, se possível, também a de algum vizinho para
reforçar. Por sorte vovô Rubem ia chegando justamente naquela hora. Quando vi a barba
dele apontar na porta, compreendi que estava salvo pelo menos por aquela vez; era uma
regra assentada lá em casa que ninguém devia contrariar vovô Rubem. Em todo caso chorei
um pouco mais para consolidar minha vitória, e só sosseguei quando ele intimou meu pai a
sair do quarto. Vovô sentou-se na beira da cama, pôs o chapéu e a bengala ao meu lado e perguntou
por que era que meu pai estava judiando comigo. Para impressioná-lo melhor eu disse que
era porque eu não queria deixar seu Osmúsio cortar o meu pé. Cortar fora? Não era exatamente isso o que eu tinha querido dizer, mas achei eficaz confirmar; e
por prudência não falei, apenas bati a cabeça. Mas que malvados! Então isso se faz? Deixa eu ver. Vovô tirou os óculos, assentou-os no nariz e começou a fazer um exame demorado de
meu pé. Olhou-o por cima, por baixo, de lado, apalpou-o e perguntou se doía.
Naturalmente eu não ia dizer que não, e até ainda dei uns gemidos calculados. Ele tirou
os óculos, fez uma cara muito séria e disse: É exagero deles. Não é preciso cortar. Basta lancetar. Ele deve ter notado o meu desapontamento, porque explicou depressa, fazendo cócega na
sola do meu pé: Mas nessas coisas, mesmo sendo preciso, quem resolve é o dono da doença. Se
você não disser que pode, eu não deixo ninguém mexer, nem o rei. Você não é mais
desses menininhos de cueiro, que não têm querer. Na festa do Divino você já vai vestir
um parelhinho de calça comprida que eu vou comprar, e vou lhe dar também um cavalinho
pra você acompanhar a folia. Com arreio mexicano? Com arreio mexicano. Já encomendei ao Felipe. Mas tem uma coisa. Se você não
ficar bom desse pé, não vai poder montar. Eu acho que o jeito é você mandar lancetar
logo. E se doer? Doer? É capaz de doer um pouco, mas não chega aos pés da dor de cortar. Essa
sim, é uma dor mantena. Uma vez no Chove-Chuva tivemos que cortar um dedosó um
dedode um vaqueiro que tinha apanhado panariz e ele urinou de dor. E era um homem
forçoso, acostumado a derrubar boi pelo rabo. Meu avô era um homem que sabia explicar tudo com clareza, sem ralhar e sem tirar a
razão da gente. Foi ele mesmo que chamou seu Osmúsio, mas deixou que eu desse a ordem.
Naturalmente eu chorei um pouco, não de dor, porque antes ele jogou bastante de
lança-perfume, mas de conveniência, porque se eu mostrasse que não estava sentindo nada
eles podiam rir de mim depois. Enquanto mamãe fazia os curativos eu só pensava no cavalinho que eu ia ganhar. Todos
os dias quando acordava, a primeira coisa que eu fazia era olhar se o pé estava
desinchado. Seria uma maçada se vovô chegasse com o cavalinho e eu ainda não pudesse
montar. Mamãe dizia que eu não precisava ficar impaciente, a folia ainda estava longe,
assim eu podia até atrasar a cura, mas eu queria tudo depressa. Mas quando a gente é menino parece que as coisas nunca saem como a gente quer. Por
isso é que eu acho que a gente nunca devia querer as coisas de frente por mais que
quisesse, e fazer de conta que só queria mais ou menos. Foi de tanto querer o cavalinho,
e querer com força, que eu nunca cheguei a tê-lo. Meu avô adoeceu e teve que ser levado para longe para se tratar, quem levou foi tio
Amâncio. Outro tio, o Torim, que sempre foi muito antipático, ficou tomando conta do
Chove-Chuva. Tio Torim disse que enquanto ele mandasse, de lá não saía cavalo nenhum
para mim. Eu quis escrever uma carta a vovô dando conta da ruindade, cheguei a rascunhar
uma no caderno, mas mamãe disse que de jeito nenhum eu devia fazer isso; vovô estava
muito doente e podia piorar com a notícia; quando ele voltasse bom ele mesmo me daria o
cavalo sem precisar eu contar nada. Quando eu voltava da escola e mamãe não precisava de mim, eu ficava sentado debaixo
de uma mangueira no quintal e pensava no cavalinho, nos passeios que eu ia fazer com ele,
e era tão bom que parecia que eu já era dono. Só faltava um nome bem assentado, mas era
difícil arranjar, eu só lembrava de nomes muito batidos, Rex, Corta-Vento, Penacho.
Padre Horácio quis ajudar, mas só vinha com nomes bonitos demais, tirados de livro, um
que me lembro foi Pégaso. Um dia eu fui no Jurupensem com meu pai e vi lá um menino alegrinho, com o cabelo
caído na testa, direitinho como o de um poldro. Perguntei o nome dele e ele disse que era
Zibisco. Estipulei logo que o meu cavalinho ia se chamar Zibisco. O tempo passava e vovô Rubem nada de voltar. De vez em quando chegava uma carta de tio
Amâncio, papai e mamãe ficavam tristes, conversavam coisas de doença que eu não
entendia, mamãe suspirava muito o dia inteiro. Um dia tio Torim foi visitar vovô e
voltou dizendo que.tinha comprado o Chove-Chuva. Papai ficou indignado, discutiu com ele,
disse que era maroteira, vovô Rubem não estava em condições de assinar papel, que ele
ia contar o caso ao juiz. Desde esse dia, tio Torim nunca mais foi lá em casa, quando
vinha à cidade passava por longe. Depois chegou outra carta, e eu vi mamãe chorando no quarto. Quando entrei lá com
desculpa de procurar um brinquedo ela me chamou e disse que eu não ficasse triste, mas
vovô não ia mais voltar. Perguntei se ele tinha morrido, ela disse que não, mas era
como se tivesse. Perguntei se então a gente não ia poder vê-lo nunca mais, ela disse
que podia, mas não convinha. Seu avô está muito mudado, meu filho... Nem parece o mesmo homeme caiu no
choro de novo. Eu não entendia por que uma pessoa como meu avô Rubem podia mudar, mas fiquei com
medo de perguntar mais; mas uma coisa eu entendi: o meu cavalinho, nunca mais. Foi a
única vez que eu chorei por causa dele, não havia consolo que me distraísse. Não sei se foi nesse dia mesmo, ou poucos dias depois, eu fui sozinho numa fazenda
nova e muito imponente, de um senhor que tratavam de major. A gente chegava lá indo por
uma ponte, mas não era ponte de atravessar, era de subir. Tinha uns homens trabalhando
nela, miudinhos lá no alto, no meio de uma porçoeira de vigas e tábuas soltas. Eu subi
até uma certa altura, mas desanimei quando olhei para cima e vi o tantão que faltava.
Comecei a descer devagarinho para não falsear o pé, mas um dos homens me viu e pediu-me
que o ajudasse. Era um serviço que eles precisavam acabar antes que o sol entrasse,
porque se os buracos ficassem abertos de noite muita gente ia chorar lágrimas de sangue,
não sei por que era assim, mas foi o que ele disse. Fiquei com medo que isso acontecesse, mas não vi jeito nenhum de ajudar. Eu era muito
pequeno, e só de olhar para cima perdia o fôlego. Eu disse isso ao homem, mas ele riu e
respondeu que eu não estava com medo nenhum, eu estava era imitando os outros. E antes
que eu falasse qualquer coisa ele pegou um balde cheio de pedrinhas e jogou para mim. Vai colocando essas pedrinhas nos lugares, uma depois da outra, sem olhar para
cima nem para baixo, de repente você vê que acabou. Fiz como ele mandou, só para mostrar que não era fácil como ele diziaera
verdade! Antes que eu começasse a me cansar o serviço estava acabado. Quando desci pelo outro lado e olhei a ponte enorme e firme, resistindo ao vento e à
chuva, senti uma alegria que até me arrepiou. Meu desejo foi voltar para casa e contar a
todo mundo e trazê-los para verem o que eu tinha feito; mas logo achei que seria perder
tempo, eles acabariam sabendo sem ser preciso eu dizer. Olhei a ponte mais uma vez e segui
o meu caminho, sentindo-me capaz de fazer tudo o que eu bem quisesse. Parece que eu estava com sorte naquele dia, senão eu não teria encontrado o menino
que tinha medo de tocar bandolim. Ele estava tristinho encostado numa lobeira olhando o
bandolim, parecia querer tocar mas nunca que começava. Por que você não toca?perguntei. Eu queria, mas tenho medo. Medo de que? Dos bichos-feras. Que bichos-feras? Aqueles que a gente vê quando toca. Eles vêm correndo, sopram um bafo quente na
gente, ninguém agüenta. E se você tocasse de olhos fechados? Via também? Ele prometeu experimentar, mas só se eu ficasse vigiando; eu disse que vigiava, mas
ele disse que só começava depois que eu jurasse. Não vi mal nenhum, jurei. Ele fechou
os olhinhos e começou a tocar uma toada tão bonita que parecia uma porção de estrelas
caindo dentro dágua e tingindo a água de todas as cores. Por minha vontade eu ficava ouvindo aquele menino a vida inteira; mas estava ficando
tarde e eu tinha ainda muito que andar. Expliquei isso a ele, disse adeus, e fui andando. Não vai a pé nãodisse ele.Eu vou tocar uma toada pra levar você. Colocou novamente o bandolim em posição, agora sem medo nenhum, e tirou uma música
diferente, vivazinha, que me ergueu do chão e num instante me levou para o outro lado do
morro. Quando a música parou eu baixei diante de uma cancela novinha, ainda cheirando a
oficina de carpinteiro. Estão esperando vocêdisse um moço fardado que abriu a cancela. O major
já está nervoso. O majorum senhor corado, de botas e chapéu grandeestava andando para lá e
para cá na varanda. Quando me viu chegando, jogou o cigarro fora e correu para
receber-me. Graças a Deus! disse ele.Como foi que você escapuliu deles? Vamos entrar. Ninguém estava me segurandorespondi. É o que você pensa. Então não sabe que os homens de Nestor Gurgel estão com
ordem de pegar você vivo ou morto? Meu tio Torim? O que é que ele quer comigo? É por causa dos cavalos que seu avô encomendou para você. São animais raros,
como não existe lá fora. Seu tio quer tomá-los. Se meu tio queria tomar os cavalos, era capaz de tomar mesmo. Meu pai dizia que tio
Torim era treteiro desde menino. Pensei nisso e comecei a chorar. O major riu e disse que não havia motivo para choro, os cavalos não podiam sair dali,
ninguém tinha poder para tirá-los. Se alguém algum dia conseguisse levar um para outro
lugar, ele virava mosquito e voltava voando. Sendo assim eu quis logo ver esses cavalos fora do comum, experimentar se eram bons de
sela. O major disse que eu não precisava me preocupar, eles faziam tudo o que o dono
quisesse, disso não havia dúvida. Aliás disse olhando o relógio está na hora do banho deles. Venha
pra você ver. Descemos uma calçadinha de pedra-sabão muito escorreguenta e chegamos a um
portãozinho enleado de trepadeiras. O major abriu o trinco e abaixou-se bem para passar.
Eu achei que ele devia fazer um portão mais alto, mas não disse nada, só pensei, porque
estava com pressa de ver os cavalos. Passamos o portão e entramos num pátio parecido com largo de cavalhada, até
arquibandacas tinha, só que no meio, em vez de gramado, tinha era uma piscina de
ladrilhos de água muito limpa. Quando chegamos o pátio estava deserto, não se via
cavalo nem gente. Escolhemos um lugar nas arquibancadas, o major olhou novamente o
relógio e disse: Agora escute o sinal. Um clarim tocou não sei onde e logo começou a aparecer gente saída de detrás de
umas árvores baixinhas que cercavam todo o pátio. Num instante as arquibancadas estavam
tomadas de mulheres com crianças no colo, damas de chapéus de pluma, senhores de cartola
e botina de pelica, meninos de golinhas de revirão, meninas de fita no cabelo e
vestidinhos engomados. Quando cessaram os gritos, empurrões, choros de meninos, e todos se aquietaram em seus
lugares, ouviu-se novo toque de clarim. A princípio nada aconteceu, e todo mundo ficou
olhando para todos os lados, fazendo gestos de quem não sabe, levantando-se para ver
melhor. De repente, a assistência inteira soltou uma exclamação de surpresa, como se tivesse
ensaiado antes. Meninos pulavam e gritavam, puxavam os braços de quem estivesse perto, as
meninas levantavam-se e sentavam batendo palminhas. Do meio das árvores iam aparecendo
cavalinhos de todas as cores, pouco maiores do que um bezerro pequeno, vinham empinadinhos
marchando, de vez em quando olhavam uns para os outros como para comentar a bonita figura
que estavam fazendo. Quando chegaram à beira da piscina estacaram todos ao mesmo tempo
como soldados na parada. Depois um deles, um vermelhinho, empinou-se, rinchou e começou
um trote dançado, que os outros imitaram, parando de vez em quando para fazer mesuras à
assistência. O trote foi aumentando de velocidade, aumentando, aumentando, e daí a pouco
a gente só via um risco colorido e ouvia um zumbido como de zorra. Isso durou algum
tempo, eu até pensei que os cavalinhos tinham se sumido no ar para sempre, quando então
o zumbido foi morrendo, as cores foram se separando, até os bichinhos aparecerem de novo. O banho foi outro espetáculo que ninguém enjoava de ver. Os cavalinhos pulavam
nágua de ponta, de costas, davam cambalhotas, mergulhavam, deitavam-se de costas e
esguichavam água pelas ventas fazendo repuxo. Todo o mundo ficou triste quando o clarim tocou mais uma vez e os cavalinhos cessaram
as brincadeiras. O vermelhinho novamente tomou a frente e subiu para o lajeado da beira da
piscina, seguido pelos outros, todos sacudiram os corpinhos para escorrer a água e
ficaram brincando no sol para acabar de se enxugar. Depois de tudo o que eu tinha visto achei que seria maldade escolher um deles só para
mim. Como é que ele ia viver separado dos outros? Com quem ia brincar aquelas
brincadeiras tão animadas? Eu disse isso ao major, e ele respondeu que eu não tinha que
escolher, todos eram meus. Todos eles?perguntei incrédulo. Todos. São ordens de seu avô. Meu avô Rubem, sempre bom e amigo! Mesmo doente, fazendo tudo para me agradar. Mas depois fiquei meio triste, porque me lembrei do que o major tinha dito que ninguém
podia tirá-los dali. É verdadedisse ele em confirmação, parece que adivinhando o meu
pensamento.Levar não pode. Eles só existem aqui em Platiplanto. Devo ter caído no sono em algum lugar e não vi quando me levaram para casa. Só sei
que de manhã acordei já na minha cama, não acreditei logo porque o meu pensamento ainda
estava longe, mas aos poucos fui chegando. Era mesmo o meu quartoa roupa da escola
no prego atrás da porta, o quadro da santa na parede, os livros na estante de caixote que
eu mesmo fiz, aliás precisava de pintura. Pensei muito se devia contar aos outros, e acabei achando que não. Podiam não
acreditar, e ainda rir de mim; e eu queria guardar aquele lugar perfeitinho como vi, para
poder voltar lá quando quisesse, nem que fosse em pensamento. The original title of this short story is Os Cavalinhos de
Platiplanto and was published in Os Cavalinhos de Platiplanto, 3r ed, Rio,
Civilização Brasileira, 1972 Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe
contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina
imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou não me lembro
quando, não sou muito bom em lembrar datas, quase não temos falado em outra coisa; e da
maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que
ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos. A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de
jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus
ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa
ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões,
os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam
propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas
de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que
saísse do caminho. Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os
homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta
mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa
intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na
direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as
tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo
na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e
viajado de madrugada. A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendara nem para que
servia. É claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto
outro. As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de
aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a
lona e foram subindo em bando pela máquina acima, até hoje ainda sobem, brincam de
esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um
berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos,
castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina. Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e
garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o
interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da
máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que
passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da
máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como
aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do
mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com
força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por
honra da firma, para manter fama de corajoso. Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz
que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação.
Mas mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando
designou um funcionário para zelar pela máquina. Devemos reconheceraliás todos reconhecemque esse funcionário tem dado boa
conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo
trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para
reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele
aplica caol nas partes de metal dourado, esfrega, esfrega, sua, descansa, esfrega de
novoe a máquina fica faiscando como jóia. Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela
desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que
tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e
não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior
importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e
de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada,
visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto
cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na
conversa macia. Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades.
Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de
futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os
candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível,
alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Mas felizmente a
máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja. A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você
sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou
nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um
direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou. Ate agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da
loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se
lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz
andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da
máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá,
caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a
cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas
para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina
nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na
conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas. Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipalpor
enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer saber a que seria dedicado o
monumento. Você já viu que homem mais azedo? Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas issoaqui para nóseu
acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto.
Eue creio que também a grande maioria dos munícipesnão espero dela nada em
particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos
consolando. O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses
despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e
comece a explicar a finalidade da máquina, e para mostrar que é habilidoso (eles são
sempre muito habilidosos) peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos
protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a
máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e nao existirá
mais máquina. The original title of this short story is A Máquina
Extraviada and was excerpted from A Máquina Extraviada, Rio, Ed. Prelo,
1968
September 1999
Literature Platiplanto's
Little Horses Suddenly, the audience let out a scream of surprise as it had
rehearsed it. Boys jumped and screamed pulling the arms of whoever was close, the girl
stood up and sat down clapping. From the middle of the trees little horses of all colors
started to appear. They were a little bigger than a small calf.
José J. Veiga
The Misplaced
Machine We are so used to the presence of the machine in the square, that if
one day it collapses or if someone from another city comes to take it, proving with
documents that he has the right, I don't know what would happen, I don't even want to
think about this. The machine is our pride and don't you think I'm exaggerating. We still
don't know how to use it, but this doesn't matter at all any more.
José J. Veiga