Brazil - BRAZZIL - Six Funny Cronicas (Newspaper Stories) by Luis Fernando Verissimo - In Portuguese - Brazilian Literature - Portuguese Language - Brazilian Books & Authors - September 1998


Brazzil
September 1998
Short Story

6
by
Luís Fernando Veríssimo

Human Rights

Budum Filho was an artist. Would the ladies like to listen to one of the sambas he composed? Sure they would. Budum sang a Martinho da Vila samba. Algemiro tried to unmask him but was scorned.

—Famous Ipanema Beach!

Dentro do ônibus, os turistas exclamavam "oh!" com entusiasmo. Ipanema Beach! O motorista, Algemiro, torcedor do Vasco, morador do Vidigal, sacudia a cabeça cada vez que ouvia a pronúncia da guia. Por que "Ipanima"? Era Ipanema com "e". "Ipanima" era frescura de gringo.

—Vieira Souto Avenue.

—Aveniu dos bacana—completou Algemiro. E, com um certo orgulho:—Caminho da minha casa.

—What?—quis saber uma velhinha americana de dentro do seu vestido gasoso.

—Rich people live here—explicou a guia.

Mais "ohs" entusiasmados.

—The girls from Ipanema—disse a guia, apontando as garotas da praia.

—Oh!—gritaram os turistas.

—In front of us, Pedra da Gávea, Gávea Stone—disse a guia.

—Oh!—gritaram os turistas.

—O Budum Filho!—gritou o motorista.

—Oh!—gritaram os turistas, com a freada do ônibus.

—O que foi isso?—quis saber a guia, ajeitando o chapeuzinho.

—O Budum Filho. Um pilantrão que me deve uma nota.

—Mas você não vai parar o ônibus agora para falar com...

—Ah, se não vou! Segura as pontas que eu já volto.

—Espera!

Mas o Algemiro já puxara o freio de mão e se precipitara para a rua atrás do Budum Filho, filho do Budum Pai, bicheiro e mau-caráter. Os turistas pularam dos bancos para acompanhar a perseguição. Em minutos o Algemiro voltava com o Budum Filho pela nuca.

—Por que aqui?—gritou a guia, sem saber o que dizer para as velhinhas.

—Quero ter uma conversa com este pilantra num particular.

—Mas aqui?!

—Calminha. É rápido.

O Budum Filho, aterrorizado, apelou para uma americana.

—Help, madame. É seqüestro.

—Help eu vou te mostrar, caloteiro.

—Who is he?—perguntou a americana, mais aterrorizada do que ele, apontando para o Budum Filho.

—Nothing, nothing—disse a guia.—A boy from Ipanema.

—Oh!

—O que foi que ele fez?—perguntou a guia para o Algemiro.

—Eu ganhei no bicho e ele não pagou. Enrustiu na marra.

—Rélpi!—repetiu o Budum Filho.

Com a revolta dos turistas, o Algemiro se viu constrangido a largar a nuca do mauca. Mas segurou a sua camiseta. Que tinha o nome de uma universidade americana na frente. As simpatias dos turistas estavam com o Budum Filho.

—E a minha grana, ó calota!

—Que grana?

—Vem com essa. Vem com essa!

—Ó Algemiro, tá me estranhando? Eu ia pagar.

—Ia, não. Vai.

—Vou.

—Dívida de bicho é sagrada.

—What is it?

—Jogo do bicho. Animal game. Gambling.

—Oh!

Um americano, calça quadriculada, se apresentou para mediar. Aquilo estava atrasando a excursão. Ele tinha pago bom dinheiro para ver as vistas do Rio. Não uma briga. Se bem que as velhinhas, depois do susto inicial, pareciam estar apreciando o incidente entre os nativos. O que iam ter para contar na volta!

Com a guia como intérprete, o americano propôs que procurassem uma autoridade para resolver o caso. A proposta foi vetada pelas partes. E, mesmo, seria difícil encontrar uma autoridade por perto.

—Autoridade neste ônibus—disse o Algemiro, sacudindo o Budum Filho com ênfase—sou eu.

—Rélpi, mister!

—Come on, let him go—disse o americano.

—Não tem camone.

—Algemiro—suplicou a guia—vamos primeiro terminar a excursão, depois você cuida desse assunto.

Algemiro estudou a questão. Depois concordou. O Budum Filho ficaria no ônibus, sob custódia dos turistas, até o fim da excursão. Depois acertariam as contas. E tocaram o ônibus.

Budum Filho sentou ao lado de uma velhinha da Minessota que lhe ofereceu um drops de hortelã. Foi fotografado por dezessete polaróides simultaneamente. Com a ajuda da guia, contou a história da sua vida. O seu sonho era conhecer os Estados Unidos.

—Lá não entra caloteiro!—gritou o Algemiro, mas foi silenciado pelos protestos gerais.

Ninguém olhava mais a paisagem. Todas as atenções estavam no Budum Filho. Ele era um artista. As madames queriam ouvir um samba da sua autoria? Claro que queriam. Budum cantou um samba do Martinho da Vila. O Algemiro tentou desmascará-lo mas foi desprezado. Quando o Budum Filho acabou de cantar todos gritaram "oh!" e aplaudiram muito. No fim da excursão alguns deram gorgetas para o Budum Filho (e nada para o Algemiro). A guia recomendou para o Algemiro que não fizesse nenhuma loucura. A companhia podia ficar sabendo e os dois se dariam mal. O Algemiro disse que só ia ter uma conversinha com o desgraçado. E ficou sozinho no ônibus com o Budum Filho.

—Canta um samba agora, garoto.

—Algemiro, se eu fosse você eu não me tocava.

—Ah, é?

—É.

—E por quê?

—Porque eu passei um bilhete para uma das madames, escondido.

—Que bilhete?

—Para o Carter.

—Que Carter?

—O Presidente. Se me acontecer qualquer coisa, ele vai ficar sabendo que foi você. Respeita os meus direitos humanos senão vai ter.

—Ah é?

—É.

—Pois quem é o presidente lá é o Reagan e sabe o que que o Reagan gosta de fazer com vagabundo?

—Não, Algemiro. Não!


The Wake

The television came. Magarra was interviewed. He talked about life's ingratitude. People forget too fast. The world is cruel. The camera closed in the teary eyes of Magarra.

Quis o destino, que é um gozador, que aqueles dois se encontrassem na morte, pois na vida jamais se encontrariam. De um lado Cardoso, na juventude conhecido como Dosão, depois Doso, finalmente—quando a vida e a bebida e as mulheres erradas o tinham reduzido à metade—Dozinho. Do outro lado Rodopião Farias Mello Nogueira Neto, nenhum apelido, comendador, empresário, um dos pró-homens da República, grande chato. Grande e gordo. O seu caixão teve que ser feito sob medida. Houve quem dissesse que seriam necessários dois caixões, um para o Rodopião, outro para o seu ego. Já Dozinho parecia uma criança no seu caixãozinho. Um anjo encardido e enrugado. De Dozinho no seu caixão, disseram:

—Coitadinho.

De Rodopião:

—Como ele está corado!

Ficaram em capelas vizinhas antes do enterro. Os dois velórios começaram quase ao mesmo tempo. O de Rodopião (Rotary, ex-ministro, benemérito do Jockey), concorridíssimo. O de Dozinho, em termos de público, um fracasso. Dozinho só tinha dois ao lado do seu caixão quando começaram os velórios. Por coincidência, dois garçons.

Tanto Dozinho quanto Rodopião tinham morrido por vaidade. Dozinho, apesar de magro ("esquálido" como o descrevia, carinhosamente, Dona Judite, professora, sua única mulher legítima), se convencera que estava ficando barrigudo e dera para usar um espartilho. Para não fazer má figura no Dança Brasíl, onde passava as noites. As mulheres do Dança Brasil, só por brincadeira, diziam sempre: "Você está engordando, Dozinho. Olhe essa barriga". E Dozinho apertava mais o espartilho. Um dia caiu na calçada com falta de ar. Não recuperou mais os sentidos. Claro que não morreu só disso. Bebia demais. Se metia em brigas. Arriscava a vida por um amigo. Deixava a vida por um amigo. Deixava de comer para ajudar os outros. Se não fosse o espartilho, seria uma navalha ou uma cirrose.

Rodopião tinha ido aos Estados Unidos fazer um implante de cabelo e na volta houve complicações, uma infecção e— suspeita-se—uma certa demora deliberada de sua mulher em procurar ajuda médica.

E ali estavam, Dozinho e Rodopião, sendo velados lado a lado. Dozinho, o bom amigo, por dois amigos. Rodopião, o chato, por uma multidão. O destino etc.

Perto da meia-noite chegaram Dona Judite, que recém-soubera da morte do ex-marido e se mandara de Del Castilho e Magarra, o maior amigo de Dozinho. Magarra chorava mais que Dona Judite. "Que perda, que perda", repetia, e Dona Judite sacudia a cabeça, sem muita convicção. A capela onde estava sendo velado Rodopião lotara e as pessoas começavam a invadir o velório de Dozinho, olhando com interesse para o morto desconhecido, mas sem tomar intimidades. Magarra quis saber quem era o figurão da capela ao lado. Estava ressentido com aquela afluência. Dozinho é que merecia uma despedida assim. Um homem grisalho explicou para Magarra quem era Rodopião. Deu todos os seus títulos. Magarra ficou ainda mais revoltado. Não era homem de aceitar o destino e as suas ironias sem uma briga. Apontou com o queixo para Dozinho e disse:

—Sabe quem é aquele ali?

—Quem?

—Cardoso. O ex-senador.

—Ah...—disse o homem grisalho, um pouco incerto.

—Sabe a Lei Cardoso? Autoria dele.

Em pouco tempo a notícia se espalhou. Estavam sendo velados ali não um, mas dois notáveis da nação. A freqüência na capela de Dozinho aumentou. Magarra circulava entre os grupos enriquecendo a biografia de Cardoso.

—Lembra a linha média do Fluminense? Década de 40. Tatu, Matinhos e Cardoso. O Cardoso é ele.

Também revelou que Cardoso fora um dos inventores do raio laser, só que um americano roubara a sua parte. E tivera um caso com a Maria Callas na Europa. Algumas pessoas até se lembravam.

—Ah, então é aquele Cardoso?

—Aquele.

A capela de Dozinho também ficou lotada. As pessoas passavam pelo caixão de Rodopião, comentavam: "Está com um ótimo aspecto", e passavam para a capela de Dozinho. Cumprimentavam Dona Judite, que nunca podia imaginar que Dozinho tivesse tanto prestígio (até um representante do governador!), os dois garçons e Magarra.

—Grande perda.

—Nem me fale—respondia Magarra.

Veio a televisão. Magarra foi entrevistado. Comentou a ingratidão da vida. Um homem como aquele—autor da Lei Cardoso, cientista, com sua fotografia no salão nobre do Fluminense, homem do mundo, um dos luminares do seu tempo— só era lembrado na hora da morte. As pessoas esquecem depressa. O mundo é cruel. A câmara fechou nos olhos lacrimejantes de Magarra. A esta altura tinha mais público para o Dozinho do que para o Rodopião. Pouco antes de fecharem os caixões chegou uma coroa, para Dozinho. Do Fluminense.

O acompanhamento dos dois caixões foi parelho, mas a televisão acompanhou o de Dozinho. O enterro de Rodopião foi mais rápido porque o acadêmico que ia fazer o discurso esqueceu o discurso em casa. Todos se dirigiram rapidamente para o enterro do Cardoso, para não perder o discurso de Magarra.

—Cardoso!—bradou Magarra, do alto de uma lápide.— Mais do que exéquias, aqui se faz um desagravo. A posteridade trará a justiça que a vida te negou! Teus amigos e concidadãos aqui reunidos não dizem adeus, dizem bem-vindo à glória eterna!

Naquela noite, no Dança Brasíl, antes de subir ao palco e anunciar o show de Rúbio Roberto, a voz romântica do Caribe, Magarra disse para Mariúza, a favorita do Dozinho, que estranhara a sua ausência no cemitério àquela manhã. Mariúza se defendeu:

—Como é que eu ia saber que ele era tão importante?

E chorou, sinceramente.


Mistress's Day

Father's Day also started in the United States... It was only in the 1920s that Americans established a relationship between sexual act and procreation. Until then they believed that mothers begot children by themselves and that sex, as drinking and playing cards, was just something men loved to do on Saturdays.

Já existe dia de quase tudo. Ou quase todos. Começou com o Dia das Mães. Um americano, cujo nome até hoje é reverenciado onde quer que diretores lojistas se reúnam, mas que no momento me escapa, foi o inventor do Dia das Mães. Fez isso pensando na própria mãe. Naquela mulher extraordinária que o carregara no ventre durante nove meses sem cobrar um tostão, que o amamentara, que o embalara em seu berço, costurara a sua roupa, forçara óleo de rícino pela sua goela abaixo e uma vez, quando o descobrira dando banho no cachorro no panelão de sopa, quebrara uma colher de pau na sua cabeça. Sim, aquela mulher que se sacrificara por ele sem pedir nada de volta, mas que agora exigia uma mesada maior porque estava perdendo demais nos cavalos. De nada adiantara o seu protesto.

—Não posso, mamãe. Os negócios não vão bem.

—Não interessa.

—Nós só ganhamos dinheiro mesmo no Natal. No resto do ano...

E então o rosto dele se iluminara. Tivera uma idéia. A mãe não entendeu e espalhou para os seus amigos no hipódromo que o filho finalmente perdera o juízo que tinha. Mas a idéia era brilhante. Ele a apresentou numa reunião de varejistas naquele mesmo dia.

—Precisamos criar dois, três, muitos natais!

—Espera aí—disse alguém.—Mas só houve um Jesus Cristo.

—E os apóstolos? São doze apóstolos. Cada um também não tinha o seu aniversário?

—Mas ninguém sabe o dia.

—Melhor ainda. Inventaremos, todo mês, o aniversário de um apóstolo. Teremos natais o ano inteiro!

Mas a idéia não agradou. Apóstolo não tinha o apelo de vendas de um Jesus Cristo. Mesmo assim, a idéia de criar outras datas para os fregueses se darem presentes era boa. Era preciso motivar as pessoas. Era preciso forçar as vendas. Era preciso ganhar mais dinheiro. Nem que fosse para a mãe perder nos cavalos.

—Aquela bruxa velha—murmurou ele.

—O que foi?

—Estava pensando na mãe.

—A mãe! É isso!

—O quê?

—A mãe! O Dia das Mães. Você é um gênio!

Foi um sucesso. Ninguém podia chamar aquilo de oportunismo comercial, pois ser contra o Dia das Mães equivaleria a ser contra a Mãe como instituição. Isto chocaria a todos, principalmente as mães. Que, como se sabe, formam uma irmandade fechada com ramificações internacionais. Como a Máfia. As mães também oferecem proteção e ameaçam os que se rebelam contra elas com punições terríveis que vão da castração simbólica à chantagem sentimental. Pior que a Máfia, que só joga as pessoas no rio com um pouco de cimento em volta.

*****

O Dia dos Pais também nasceu nos Estados Unidos, mas custou a aparecer devido ao puritanismo que, sabidamente, influenciou a história americana durante anos. Foi só na década de 20 deste século que os americanos estabeleceram uma relação entre o ato sexual e a procriação de filhos. Até então julgava-se que as mães geravam os filhos sozinhas e que o sexo, como a bebida e um joguinho de cartas, era apenas uma coisa que os homens gostavam de fazer aos sábados. Instituída a proibição do sexo em todo o território nacional—a chamada Lei Neca, uma corolária da Lei Seca—, notou-se uma acentuada queda no número de nascimentos. Concluiu-se então que o homem era importante. A nova importância atribuída ao homem foi veementemente combatida pelas mulheres da época e até hoje existem bolsões de resistência. Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador. Estabelecido o papel essencial do homem na constituição da família, no entanto, não tardou para que os varejistas lançassem o Dia dos Pais—também chamado, por alguns homens, de Dia do Papai Aqui e por algumas mulheres, com um sorriso secreto, de Dia do Pai Presumível. Outro sucesso de vendas.

*****

Dia da Secretária. Este também teve uma origem curiosa. Segundo algumas versões, ele começou no Brasil, quando uma mulher descobriu na agenda do marido a seguinte inscrição: "Flores e bombons para a Bete. Mandar entregar no motel."

—Quem é essa Bete?—perguntou a mulher com fingido desinteresse, sacudindo o marido pelo pescoço.

—Ora, quem é a Bete. É a Dona Elizabete, minha secretária. Você conhece ela!

Conheço e sei que o aniversário dela já passou. Por que as flores e os bombons?

—Onde é que você viu isso?

—Na sua agenda.

—E você viu a data na agenda?

—O que é que tem a data?

—É o Dia da Secretária.

—Nunca ouvi falar.

—Foi recém-inventado—disse o marido, que tinha inventado naquele minuto.

—E o motel? Por que entregar no motel?

—A dona Elizabete está morando no motel, provisoriamente; até que terminem os reparos na sua casa.

—O que houve com a casa dela?

—Você nao soube? Foi arrasada por uma manada de elefantes.

—Você espera que eu acredite nisso?!

—Meu bem, eu inventaria uma história destas?

—É, acho que não. Desculpe, querido.

—Está desculpada. Agora largue o meu pescoço.

*****

Por que não um Dia dos Amantes? Já existe o Dia dos Namorados e hoje em dia a diferença entre namorado e amante tornou-se um pouco vaga. Quando é que namorados se transformam em amantes? Segundo uma moça, experimentada na questão, que consultamos, se a mulher der para o mesmo homem mais de dezessete vezes seguidas ele deixa de ser seu namorado e, tecnicamente, passa a ser seu amante. Os critérios variam, no entanto. Em certas regiões, só depois de dormirem juntos dois anos é que namorados se tornam legalmente amantes. Alguns estabelecem um meio-termo razoável: dezessete vezes ou dois anos, o que vier primeiro. Outros afirmam que a diferença está no grau de intimidade dos dois tipos de relacionamento. Num caso, as pessoas vão para qualquer lugar onde haja camas—apartamento, hotel, ou motel, sendo desaconselháveis hospitais, quartéis e lojas de móveis—, tiram a roupa um do outro, às vezes usando só os dentes, atiram-se na cama, rolam de um lado para o outro, enfiam-se os dedos no orifício que estiver por perto, lambem-se, chupam-se, com ou sem canudinho, massageiam-se mutuamente com Chantibom, depois o homem penetra o corpo da mulher com o seu órgão entumescido e os dois corpos movem-se em sincronia até o orgasmo simultâneo entre gritos e arranhões. Então se separam, suados, e vão tomar um banho juntos antes de saírem para a rua. Quer dizer, uma coisa superficial e corriqueira. Já o namoro, não. No namoro, não apenas o órgão entumescido mas todo o corpo do namorado penetra na própria casa da namorada todas as quartas-feiras. Eles se sentam lado a lado num sofá quente, coxa a coxa, e chegam a entrelaçar os dedos das mãos. Muitas vezes comem a ambrosia preparada pela mãe da moça com a mesma colher, gemendo baixinho. Existe ainda o prazer indescritível de roçar com o braço o lado do seio da namorada, enquanto se conversa sobre futebol com o pai dela, um prazer que aumenta se, por sorte, estiver com um daqueles sutiãs pontudos usados pela última vez no Ocidente por Terry Moore, em 1953. A namorada, não o pai dela. Isto é que é intimidade.

Existem outros critérios para diferenciar namorado de amante. Amante é o namorado que leva pijama, por exemplo. Uma maneira certa de saber que o namorado já é amante é quando, pela primeira vez, em vez de dar um par de meias para ele no Dia dos Namorados, ela dá um par de cuecas. E você terá certeza de que ele é amante quando alguém sugerir que ela lhe dê um certo tipo de cuecas e ela responder, distraidamente: "Esse tipo ele já tem..."

*****

Mas estamos falando de namorados, ou amantes, solteiros. No caso do homem casado e com uma amante, a coisa se torna mais complicada e pouco invejável. No caso do homem casado e com várias amantes, se torna mais complicada ainda e mais invejável. Antes de lançar o Dia dos Amantes os lojistas teriam que fazer uma pesquisa de mercado. O que despertaria a desconfiança dos entrevistados.

—O Senhor tem amante?

—Foi a minha mulher que o mandou?

—Estamos fazendo uma pesquisa de mercado e...

—Onde é que está o microfone? É chantagem, é?

—Não, cavalheiro. Nós...

—Está bem, está bem. Tem uma moça que eu vejo. Mas nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora de três em três dias. E ela é bem baixinha. "Amante" seria um exagero. Mas eu prometo parar!

Uma vez decidido o lançamento do Dia dos Amantes as agências de propaganda teriam que escolher a estratégia de marketing, ou, como se diz em português, o approach.

O tom das peças publicitárias variariam, é claro, de acordo com o tipo de comércio. As lojas de eletrodomésticos poderiam anunciar: "Tudo para o seu segundo lar". Ou então: "Faça-a se sentir como a legítima. Dê a ela uma máquina de lavar roupa". As joalherias enfatizariam sutilmente o espírito de revanchismo do seu público-alvo, sugerindo: "Aquele diamante que sua mulher vive pedindo... dê para a sua amante". Ou, pateticamente: "Já que ela não pode ter uma aliança, dê um anel..." Perfume: "Para que você nunca confunda as duas, dê Furor só para a outra..."

Utilidades: "No dia dos amantes, dê a ela um despertador. Assim você nunca se arriscará a chegar tarde em casa".

Os comerciais para a televisão poderiam explorar alguns lugares-comuns. Por exemplo: homem entra no quarto e encontra amante na cama. Atira um presente no seu colo. Isso a faz se lembrar de uma coisa. Ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e tira um presente também. Ele vai pegar, mas o presente não é pra ele. Ela levanta da cama, abre o armário e dá o presente para o seu amante escondido lá dentro. Congela a imagem. Sobrepõe logotipo do anunciante e a frase: "Neste Dia dos Amantes, dê uma surpresa". Hein? Hein? Está bem, era só um exemplo.

*****

As confusões seriam inevitáveis. Marido e mulher se encontram numa loja de lingerie. Espanto da mulher:

—Você aqui?

Marido:

—Ahm, hum, hmmm, sim, ohm, ahm, ram.

—E escolhendo uma camisola!

—É que, ram, rom, ham, ahm, grum. Certo. Quer dizer..

—Você pode me explicar o que está havendo?

—Grem, grum rahm, rohm, ahn...

—Não vai me dizer que estava comprando pra mim. Há anos que não uso camisola. Ainda mais desse tipo, preta, transparente e com decote até o umbigo.

—Eu posso explicar.

Então explique.

—Ahm, rom, rum, rahm, grums.

—Explique melhor.

—Está bem! É para mim, está entendendo agora? Para mim!

—Você? Mas...

—Há anos que eu tento esconder isto de você. Agora você me pegou e eu vou revelar tudo. Adoro dormir de renda preta! Só me controlei até hoje por causa das crianças!

Ela compreende. Tenta acalmá-lo. Mas ele agora está agitado. Bate no balcão e grita:

—Também quero ligas vermelhas, um chapelão e chinelos de pompom grená!

Ela o leva para casa, cheia de resignada compreensão. A amante ficará sem o seu presente do Dia das Amantes mas pelo menos o marido terá evitado qualquer suspeita. O único inconveniente é que terá de dormir de camisola preta pelo resto da sua vida conjugal.

*****

Por que não um Dia dos Amantes? Você teria que tomar certas precauções, além de jamais entrar numa loja de lingerie. Como uma ausência sua em casa no Dia dos Amantes despertaria desconfiança, telefone para casa antes de ir festejar com a amante.

—Alô, a patroa está?

—Não, Senhor.

—Estranho. Ela costuma estar em casa a esta hora. Mas é melhor assim.—Diga para ela que eu vou me atrasar um pouco, Estou no hospital para curativos. Nada grave. Fui atropelado por uma manada de elefantes.

—Sim, Senhor.

Você se dirige para a casa da amante, com o embrulho do presente embaixo do braço. Começa a pensar na ausência da sua mulher em casa. Onde ela teria ido? Lembra-se então de que a viu mais de uma vez olhando com interesse uma vitrine cheia de cachimbos. Na certa pensando num presente para lhe dar. E súbito você pára na calçada como se tivesse batido num elefante. Você não fuma cachimbo!


The Analyst
from Bagé

As anyone knows, a psychoanalyst hour has 50 minutes and 50 minutes is not always time enough to get to the heart of the matter. Gaúcho with premature ejaculation is the one who takes half an hour. And I like to do it all according to the almanach. I take off even my johns. Only a priest or a turtle fucks in his clothes.

Coojornal—Qual é a sua escola? Segue os ensinamentos de Freud, Jung, Reich ou Honório Lemes?

Analista de Bagé—Pues, sou freudiano de carregar bandeirinha. Mas não desprezo os demás. No meu consultório tenho uma guampa esculpida com as cara de Adler e Jung. A Dona Melanie Klein também, era china de se apresentar pra mãe. Coisa mui especial. Já esse tal de Reich, nem pra catá bosta. Reich, pra mim, é prenúncio de cuspida.

Coojornal—Qual a importância do barranco na formação do psiquismo do gaúcho?

AB—É importante barbaridade. Lá na fronteira se diz que nem toda mulher é vaca mas toda vaca é mulher. Quando me vem paciente com histórias que o stress não deixa ele trepar, ou a mulher é dominadora ou ele acha sexo mais nojento que mocotó de ontem, eu diagnostico na paleta: "Esse não barranqueou". Não há coisa mais linda que uma barranqueada a céu aberto. Desenvolve o membro e o amor à natureza. E se o vivente me diz que na terra dele não tinha barranco, repico em cima: "E não tinha formigueiro?" Não tem desculpa. Quando eu era guri, ia pro campo de banquinho.

Coojornal —Se um paciente sonha freqüentemente que está correndo nu, com guirlandas de flores nos cabelos, as faces rosadas e um relatório da Farsul debaixo do braço, qual é a terapia indicada?

AB—O sonho é fácil de interpretar. O índio velho obviamente se identifica com as classes produtoras gaúchas, que não param de levá. Enquanto for só sonho está especial. No dia em que ele me aparecer assim no consultório dou-lhe um tranco de virá cadeira.

Coojornal—Ouve-se dizer que o senhor não cobra suas consultas em dinheiro. Prefere uma porquita no esplendor da adolescência, uma ovelhita buena de retoço ou até mesmo uma galinhazita experimentada. É verdade?

AB—Já vi que o amigo tem vocação de fresteiro, pos tá babando no meu tapete malhado. Já se viu? Recebo pagamento em espécie, inclusive animal. Mas não costumo me envolver emocionalmente com meus honorários. É verdade que uma ocasião um latifundiário esquizofrênico de Dom Pedrito—era metade PP, metade PDS e ainda tinha uma partezita PDT que atiçava as outras duas—me pagou a consulta com uma égua castanha buenacha. Cosa pra não fazer feio em exposição ou no Motel Ipanema. Quase não resisti mas finalmente me segurei nas bombachas. Mesmo porque a Hortência não compreenderia.

Coojornal—A Hortênsia é a sua senhora?

AB—Não. A Hortênsia é uma pata que mora comigo. Mais ciumenta que mulher de tenente.

Coojornal—Qual sua reação diante de uma paciente que chega cuspindo fumo nos seus pelegos, calçando 44 bico chato e dizendo que está disputando posição na zaga central do Guarany?

AB—Desabotôo as braguetas e boto o Careca pra fora. Se ela quer competição então vamos ao que interessa, tchê.

Coojornal—O senhor também vai para a cama, digo, para os pelegos, com suas pacientes?

AB—Se o caso da moça me parece ser simplesmente falta de bageense, vou. Mas também depende da china. Se apetece, se tomou banho e outros etecéteras, pos fiz o juramento de Hipócrates mas não sou hipócrita. E tem otra cosa. Como os amigos sabem, hora de psicanalista tem 50 minutos e 50 minutos nem sempre é o bastante para se chegar ao fundo da qüestão. Gaúcho com ejaculação precoce é o que leva meia-hora. E eu gosto de fazer tudo como manda o almanaque. Tiro até as ceroulas. Quem trepa vestido é padre e tartaruga.

Coojornal—É verdade que o analista-didata que o preparou foi o Paixão Cortes?

AB—Não. O Paixão não é analista e nem poderia ser. É um índio mui grosso. Este é negócio pra gente sensível. Empurra essa escarradeira pra cá que tá me subindo um daqueles de assustar buldogue. Reich! Slupt! Obrigado.

Coojornal—Qual sua explicação para o veadismo que campeia no Rio Grande?

AB—Não quero falar mal mas tem entrado muito uruguaio ultimamente... E é preciso entender que gaúcho marica sempre houve. Tem gaúcho aí sem bigode e de costeleta curta como estribo de anão que nem por isso é veado. Se bem que tá ALI. Marica é marica. Nem todo mundo corta unha com facão. Agora esse negócio de homossexualismo é frescura. Uma vez um índio velho que eu tava analisando disse que tinha se apaixonado por mim. A tal de transferência. O Freud disse que devia se deixar sempre um revólver carregado à mão para os casos extremos. E o índio velho era macho de três culhões, tchê. Seu perfume era francês: o Mitterrand depois do cuper. Disse que estava apaixonado por mim. Eu disse "Não tá". Ele disse "Tou". Eu disse "Te fecha". Ele disse "Mas é verdade". Eu disse "Quer parar de falar e prestar atenção na música? Tu tá pisando nos meus pés". Mas um mês depois tava curado. É verdade que insistiu em ficar com três cabelos do meu peito para guardar num livro do Vinícius. Mas hoje tá emprenhando até china de delegado. Não existe gaúcho homossexual. Existe bageense que não deu certo.

Coojornal—Dizem que a bomba de chimarrão é um tal de símbolo fálico.

AB—Símbolo fálico é o cacete.

Coojornal—O Senhor já descobriu a porção mulher do gaúcho?

AB—Já. Ela se chama Noemi. Todo gaúcho tem ego, superego, id e Noemi. Eu apresentei essa tese num congresso no México e fui vaiado, mas sustento. Inclusive, através da análise, já penetrei no inconsciente de muito guasca grosso e fiz contato com a Noemi. Uma vez, com o hipnotismo—fico balançando um rabo de terneiro na frente do paciente e dizendo "Dorme, filho da mãe!"—consegui um guasca do Alegrete que estava quase se perdendo. O causo era que a Noemi queria ir morar no Baixo Leblon e ir à vernissage de sandália e o vivente queria ficar na fazenda curando bicheira. Dei uns trancaço na Noemi dele e ela se aquietou. Nenhum gaúcho sai do Rio Grande do Sul por vontade própria. É sempre a Noemi que emigra e leva o pobre junto.

Coojornal—O senhor fez seu curso em Paris, Viena, Nova Iorque ou Passo Fundo?

AB—Em Paris, Viena e Nova Iorque, com especialização em Passo Fundo.

Coojornal—Antes quem tinha lenço branco no pescoço ia prum lado e os de encarnado pro outro, mas agora a gauchada tá praticando a tal de amizade colorida. Que mudança foi essa?

AB—Coisas da Noemi.

Coojornal—Por falar no assunto, o senhor é maragato ou chimango?

AB—Maragato, Guarani, Internacional, Iolanda Pereira, João XXIII, sal grosso em vez de salmoura, tango, mulher ancuda, pinga ardida, fumo de rama, filme de pirata e não sei cagá sem ler o Correio.

Coojornal—E o tal de feminismo, que tal lhe parece?

AB—Pos sou a favor. Acho que toda mulher deve lutar pela sua igualdade, desde que não interfira com o serviço da casa. Depois de pendurar as roupas ela pode fazer o que bem entender.

Coojornal—Falam da existência de uma nova mulher, uma nova moral, o tal de "novo pacto afetivo". O que é que o senhor acha?

AB—Uma vez veio um casal me consultar e trouxeram uma amiga junto. A moça era que nem casa de esquina, dava pros dois lado. Já fiquei aqui, massageando meu fumo e cuidando a trinca. Os três se acomodaram no divã e empeçaram a charlar. Bandalheira vai, bandalheira vem descobri que estavam com um problema. A tal de avulsa conhecera um sargento da brigada, Salustiano, vulgo Barril, e queria levar o bicho pra morar com os três porque ele era autêntico, entende? Os outros ficaram com ciúmes mas logo se deram conta que ciúmes era uma recaída burguesa e careta e estavam confusos. O que é que achava? Virei o divã com um pontapé e corri com os três a tapa. Sou a favor de uma nova moral mas poca vergonha, não!

Coojornal—E a tal de maconha? O senhor aprova a sua liberação?

AB—Aprovo, porque não hai como controlar. Ouvi falar que tem gente alimentando boi com cogumelo alucinógeno e depois fumando a bosta seca. É como dizem na minha terra: pra besteira e financiamento do Banco do Brasil, sempre se arranja um jeito.

Coojornal—Já se sabe que existe uma revolução de costumes. Ela só atinge a classe média ou o proletariado também entrou nesse reboliço?

AB—Pela minha clientela do INAMPS posso dizer que a peonada também foi atingida nos seus costumes. O costume de comer, por exemplo.

Coojornal—E a técnica do joelhaço, como foi descoberta?

AB —Aprendi com um médico dos meus tempos de piá. Quando a gente dizia que tava com dor de ouvido ele dava um beliscão no braço até a gente gritar: "Tô com saudade da dor de ouvido!" Também apresentei a tese do joelhaço num congresso de psiquiatria. Os bundinhas quase desmaiaram. Sou um pioneiro na sua aplicação na psicanálise.

Coojornal—O Império dos Sentidos bateu todos os recordes de permanência em cartaz aqui em Porto Alegre. Será que a gauchada já perdeu a vergonha?

AB —Fui ver o Império dos Sentidos. Sentou uma piguancha do meu lado e no meio do filme nós estávamos num roçado lindo no más. Na saída eu perguntei se ela não queria continuar o filme lá em casa. Ela disse "Querer eu quero, mas onde é que a gente vai conseguir os japonês"?

Coojornal—Como o senhor explica o fato do seu conterrâneo Milito, mais conhecido como general Garrastazu Médici, não tê-lo convidado para suas bodas de ouro?

AB—Não me importei. Nossas famílias não se davam. Quando anunciaram que um filho de Bagé era o mais novo presidente da Revolução, meu pai observou: "Bem feito, quem mandou sair daqui"?

Coojornal—E a tal história de poder e sexo? Dizem que quem tem o primeiro não faz o segundo. Qual é a sua opinião?

AB—Pelo contrário, tchê. O poder é estimulante. Quem tá no governo tem sempre tesão de seminarista. Só muda o objeto da paixão do homem. Em vez da mulher dele, é a nossa paciência.

Coojornal—Qual a sua opinião sobre Fernando Gabeira, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Eduardo Mascarenhas, o jornal Lampião, João Figueiredo e José Asmuz?

AB—O Fernando Gabeira me lembra um causo. Lá em Bagé tinha um bolicho chamado Bago's. Era onde a indiada se reunia pra coçar o saco, tomar cana com pólvora e contar história de pelotense. Se passasse homem bem barbeado pela porta, lá vinham os assobios e os gritos de "Ai, Rosinha" ou "Tá passando o Bambi". Mas voita e meia aparecia um moço no bolicho. Bota de salto alto, cabelo mechado, brincos e passinho de quem não quer peidá. Entrava, ia até o balcão e tomava uma Fanta uva com o dedinho levantado. E a indiada quieta. Aí o moço rodopiava e saía. E se alguém estranhasse aquele respeito com o veado, ouvia logo a explicação: para entrar ali daquele jeito, o cara tinha que ser macho. Muito macho. Quanto ao Gilberto Gil, o Caetano Veloso, o Eduardo Mascarenhas, o João Figueiredo e o José Asmuz, só posso dizer um troço, tchê. Pelo menos dois têm a desculpa de ser baiano.

Coojornal—Uma pergunta de analista: como foi a sua infância?

AB—Uma infância normal do interior. O que eu não aprendi dentro do galpão aprendi atrás do galpão.

Coojornal—O senhor já sentiu um bafo quente na nuca? Como reagiu?

AB—Já senti, sim. O bafo da tua mãe, que errou de lado. Tu só não leva um joelhaço porque é da imprensa nanica e eu não sou prevalecido.

Coojornal—Calma, calma. Qual a influência da bombacha no machismo gaúcho?

AB—A maior ameaça aos machos do Rio Grande, de bageense até marchand de tableau, são esses tais de gins. O gaúcho é o que é porque a bombacha dava espaço. Uso bombacha até no consultório. Quando a ocasião é social uso as de enfeite do lado. Mas nada que brilhe, senão já é bichice. Pra apertar meus fundilhos só mão de china.

Coojornal—E agora a última pergunta: o que a Sociedade Psicanalítica de Bagé vai achar desta entrevista?

AB— A sociedade Psicanalítica de Bagé se reúne semanalmente no CTG Rincão da Sublimação Consciente, o único lugar do Estado em que mancha de gordura na toalha de papel é interpretada na hora. Eles me consideram uma rês desgarrada porque sou muito radical. Só não me expulsaram ainda porque querem me capar antes.


The Wedding

Many youngster are doing this nowadays. The bride gets into the church dancing and at the end the couple leaves dancing. You know, the Church is different today. That's what's drawing the young people back to the Church. We have to change with the times.

—Eu quero ter um casamento tradicional, papai.

—Sim, minha filha.

—Exatamente como você!

—Ótimo.

—Que música tocaram no casamento de vocês?

—Não tenho certeza, mas acho que era Mendelssohn. Ou Mendelssohn é o da Marcha Fúnebre? Não, era Mendelssohn mesmo.

—Mendelssohn, Mendelssohn... Acho que não conheço. Canta alguma coisa dele aí.

—Ah, não posso, minha filha. Era o que o órgão tocava em todos os casamentos, no meu tempo.

—O nosso não vai ter órgão, é claro.

—Ah, não?

—Não. Um amigo do Varum tem um sintetizador eletrônico e ele vai tocar na cerimônia. O Padre Tuco já deixou. Só que esse Mendelssohn, não sei, não...

—É, acho que no sintetizador não fica bem...

—Quem sabe alguma coisa do Queen...

—Quem?

—O Queen.

—Não é a Queen?

—Não. O Queen. É o nome de um conjunto, papai.

—Ah, certo. O Queen. No sintetizador.

—Acho que vai ser o maior barato!

—Só o sintetizador ou...

—Não. Claro que precisa ter uma guitarra elétrica, um baixo elétrico...

—Claro. Quer dizer, tudo bem tradicional.

—Isso.

*****

—Eu sei que não é da minha conta. Afinal, eu sou só o pai da noiva. Um nada. Na recepção vão me confundir com um garçom. Se ainda me derem gorgeta, tudo bem. Mas alguém pode me dizer por que chamam o nosso futuro genro de Varum?

—Eu sabia...

—O quê?

—Que você já ia começar a implicar com ele.

—Eu não estou implicando. Eu gosto dele. Eu até o beijaria na testa se ele algum dia tirasse aquele capacete de motoqueiro.

—Eles nem casaram e você já está implicando.

—Mas que implicância? É um ótimo rapaz. Tem uma boa cabeça. Pelo menos eu imagino que seja cabeça o que ele tem debaixo do capacete.

—É um belo rapaz.

—E eu não sei? Há quase um ano que ele freqüenta a nossa casa diariamente. É como se fosse um filho. Eu às vezes fico esperando que ele me peça uma mesada. Um belo rapaz. Mas por que Varum?

—É o apelido e pronto.

—Ah, então é isso. Você explicou tudo. Obrigado.

—Quanto mais se aproxima o dia do casamento, mais intratável você fica.

—Desculpe. Eu sou apenas o pai. Um inseto. Me esmigalha. Eu mereço.

*****

—Aí, xará!

—Oi, Varum, como vai? A sua noiva está se arrumando.

Ela já desce. Senta aí um pouquinho. Tira o capacete...

—Essa noivinha...

—Vocês vão ao cinema?

—Ela não lhe disse? Nós vamos acampar.

—Acampar? Só vocês dois?

—É. Qual é o galho?

—Não. É que sei lá.

—Já sei o que você tá pensando, cara. Saquei.

—É! Você sabe como é...

—Saquei. Você está pensando que só nós dois, no meio do mato, pode pintar um lance.

—No mínimo isso. Um lance. Até dois.

—Mas qualé, xará. Não tem disso não. Está em falta. Oi, gatona!

—Oi, Varum. O que é que você e papai estão conversando?

—Não, o velho aí tá preocupado que nós dois, acampados sozinhos, pode pintar um lance. Eu já disse que não tem disso.

—Ô, papai. Não tem perigo nenhum. Nem cobra. E qualquer coisa o Varum me defende. Eu Jane, ele Tarzan.

—Só não dou o meu grito para proteger os cristais.

—Vamos?

—Vamlá?

—Mas... Vocês vão acampar de motocicleta?

—De motoca, cara. Vá-rum, vá-rum.

*****

—Descobri por que ele se chama Varum.

—O quê? Você quer alguma coisa?

—Disse que descobri por que ele se chama Varum.

—Você me acordou só para dizer isto?

—Você estava dormindo?

—É o que eu costumo fazer às três da manhã, todos os dias. Você não dormiu?

—Ainda não. Sabe como é que ele chama ela? Gatona. Por um estranho processo de degeneracão genética, eu sou pai de uma gatona. Varum e Gatona, a dupla dinâmica, está neste momento, sozinha, no meio do mato.

—Então é isso que está preocupando você?

—E não é para preocupar? Você também não devia estar dormindo. A gatona é sua também.

—Mas não tem perigo nenhum!

—Como, não tem perigo? Um homem e uma mulher, dentro de uma tenda, no meio do mato?

—O que é que pode acontecer?

—Se você já esqueceu, é melhor ir dormir mesmo.

—Não tem perigo nenhum. O máximo que pode acontecer é entrar um sapo na tenda.

—Ou você está falando em linguagem figurada ou eu é que estou ficando louco.

—Vai dormir.

—Gatona. Minha própria filha...

—Você também tinha um apelido pra mim, durante o nosso noivado.

—Eu prefiro não ouvir.

—Você me chamava de Formosura. Pensando bem, você também tinha um apelido.

—Por favor. Reminiscências não. Comi faz pouco.

—Kid Gordini. Você não se lembra? Você e o seu Gordini envenenado.

—Tão envenenado que morreu, nas minhas mãos. Um dia levei num mecânico e disse que a bateria estava ruim. Ele disse que a bateria estava boa, o resto do carro é que tinha que ser trocado.

—Viu só? E você se queixa do Varum. Kid Gordini!

—Mas eu nunca levei você para o mato no meu Gordini.

—Não levou porque meu pai mataria você.

—Hmmmm.

—"Hmmmm" o quê?

—Você me deu uma idéia. Assassinato...

—Não seja bobo.

—Um golpe bem aplicado... Na cabeça não porque ela está sempre bem protegida. Sim. Kid Gordini ataca outra vez...

—O que você tem é ciúme.

—Nisso tudo, tem uma coisa que me preocupa acima de tudo. Acho que é o que me tira o sono.

—O quê?

—Será que ele tira o capacete para dormir?

*****

—Bom dia.

—Bom dia.

—Eu sou o pai da noiva. Da Maria Helena.

—Maria Helena... Ah, a Gatona!

—Essa.

—Que prazer. Alguma dúvida sobre a cerimônia?

—Não, Padre Osni. É que...

—Pode me chamar de Tuco. É como me chamam.

—Não, Padre Tuco. É que a Ga... A Maria Helena me disse que ela pretende entrar dançando na igreja. O conjunto toca um rock e a noiva entra dançando é isso?

—É. Um rock suave. Não é rock pauleira.

—Ah, não é rock pauleira. Sei. Bom, isto muda tudo.

—Muitos jovens estão fazendo isto. A noiva entra dançando e na saída os dois saem dançando. O senhor sabe, a Igreja hoje está diferente. É isto que está atraindo os jovens de volta à Igreja. Temos que evoluir com os tempos.

—Claro. Mas, Padre Osni...

—Tuco.

—Padre Tuco, tem uma coisa. O pai da noiva também tem que dançar?

—Bom, isto depende do senhor. O senhor dança?

—Agora não, obrigado. Quer dizer, dançava. Até ganhei um concurso de chá-chá-chá. Acho que você ainda não era nascido. Mas estou meio fora de forma e...

—Ensaie, ensaie.

—Certo.

—Peça para a Gatona ensaiar com o senhor.

—Claro.

—Não é rock pauleira.

—Certo. Um roquezinho suave. Quem sabe um chá-chá-chá? Não. Esquece, esquece.

*****

—Você está nervoso, papai?

—Um pouco. E se a gente adiasse o casamento? Eu preciso de uma semana a mais de ensaio. Só uma semana.

—Eu estou bonita?

—Linda. Quando estiver pronta vai ficar uma beleza.

—Mas eu estou pronta.

—Você vai se casar assim?

—Você não gosta?

—É... diferente, né? Essa coroa de flores, os pés descalços...

—Não é um barato?

*****

—Um brinde, xará!

—Um brinde, Varum.

—Você estava um estouro entrando naquela igreja. Parecia um bailarino profissional.

—Pois é. Improvisei uns passos. Acho que me saí bem.

—Muito bem!

—Não sei se você sabe que eu fui o rei do chá-chá-chá.

—Do quê?

—Chá-chá-chá. Uma dança que havia. Você ainda não era nascido.

—Bota tempo nisso.

—Eu tinha um Gordini envenenado. Tão envenenado que morreu. Um dia levei no...

—Tinha um quê?

—Gordini. Você sabe. Um carro. Varum, varum.

—Ah.

—Esquece.

—Um brinde ao sogro bailarino.

—Um brinde. Eu sei que vocês vão ser muito felizes.

—O que é que você achou da minha beca, cara?

—Sensacional. Nunca tinha visto um noivo de macacão vermelho, antes. Gostei. Confesso que quando entrei na igreja e vi você lá no altar, de capacete...

—Vacilou.

—Vacilei. Mas aí vi que o Padre Tuco estava de boné e pensei, tudo bem. Temos que evoluir com os tempos. E ataquei meu rock suave.


The Robbery

This is not just to please. You are a victim of the system. I keep saying that crime is a social problem. Take this. That's all the money I've got home. We're not rich. With a little effort we could consider ourselves as being higher middle class. You are right. One of these days we will also start stealing in order to eat. Take this.

Quando a empregada entrou no elevador, o garoto entrou atrás. Devia ter uns dezesseis, dezessete anos. Preto. Desceram no mesmo andar. A empregada com o coração batendo. O corredor estava escuro e a empregada sentiu que o garoto a seguia. Botou a chave na fechadura da porta de serviço, já em pânico. Com a porta aberta, virou-se de repente e gritou para o garoto:

—Não me bate!

—Senhora?

—Faça o que quiser, mas não me bate!

—Não, senhora, eu...

A dona da casa veio ver o que estava havendo. Viu o garoto na porta e o rosto apavorado da empregada e recuou, até pressionar as costas contra a geladeira.

—Você está armado?

—Eu? Não.

A empregada, que ainda não largara o pacote de compras, aconselhou a patroa, sem tirar os olhos do garoto:

—É melhor não fazer nada, madame. O melhor é não gritar.

—Eu não vou fazer nada, juro!—disse a patroa, quase aos prantos.—Você pode entrar. Pode fazer o que quiser. Não precisa usar a violência.

O garoto olhou de uma mulher para outra. Apalermado. Perguntou:

—Aqui é o 712?

—O que você quiser. Entre. Ninguém vai reagir.

O garoto hesitou, depois deu um passo para dentro da cozinha. A empregada e a patroa recuaram ainda mais. A patroa esgueirou-se pela parede até chegar à porta que dava para a saleta de almoço. Disse:

—Eu não tenho dinheiro. Mas o meu marido deve ter. Ele está em casa. Vou chamá-lo. Ele lhe dará tudo.

O garoto também estava com os olhos arregalados. Perguntou de novo:

—Este é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas no 712.

A mulher chamou, com a voz trêmula:

—Henrique!

O marido apareceu na porta do gabinete.Viu o rosto da mulher, o rosto da empregada e o garoto e entendeu tudo. Chegou a hora, pensou. Sempre me indaguei como me comportaria no caso de um assalto. Chegou a hora de tirar a prova.

—O que você quer?—perguntou, dando-se conta em seguida do ridículo da pergunta. Mas sua voz estava firme.

—Eu disse que você tinha dinheiro—falou a mulher.

—Faço um trato com você—disse o marido para o garoto —dou tudo de valor que tem em casa, contanto que você não toque em ninguém.

E se as crianças chegarem de repente? pensou a mulher. Meu Deus, o que esse bandido vai fazer com as minhas crianças? O garoto gaguejou:

—Eu... Eu... É aqui que tem umas garrafas para pegar?

—Tenho um pouco de dinheiro. Minha mulher tem jóias. Não temos cofre em casa, acredite em mim. Não temos muita coisa. Você quer o carro? Eu dou a chave.

Errei, pensou o marido. Se sair com o carro, ele vai querer ter certeza de que ninguém chamará a polícia. Vai levar um de nós com ele. Ou vai nos deixar todos amarrados. Ou coisa pior...

—Vou pegar o dinheiro, está bem?—disse o marido.

O garoto só piscava.

—Não tenho arma em casa. É isso que você está pensando? Você pode vir comigo.

O garoto olhou para a dona da casa e para a empregada.

—Você está pensando que elas vão aproveitar para fugir, é isso?—continuou o marido.—Elas podem vir junto conosco. Ninguém vai fazer nada. Só não queremos violência. Vamos todos para o gabinete.

A patroa, a empregada e o Henrique entraram no gabinete. Depois de alguns segundos, o garoto foi atrás. Enquanto abria a gaveta chaveada da sua mesa, o marido falava:

—Não é para agradar, não, mas eu compreendo você. Você é uma vítima do sistema. Deve estar pensando, "esse burguês cheio da nota está querendo me conversar", mas não é isso não. Sempre me senti culpado por viver bem no meio de tanta miséria. Pode perguntar para minha mulher. Eu não vivo dizendo que o crime é um problema social? Vivo dizendo. Tome. É todo dinheiro que tenho em casa. Não somos ricos. Somos, com alguma boa vontade, da média alta. Você tem razão. Qualquer dia também começamos a assaltar para poder comer. Tem que mudar o sistema. Tome.

O garoto pegou o dinheiro, meio sem jeito.

—Olhe, eu só vim pegar as garrafas...

—Sônia busque as suas jóias. Ou melhor, vamos todos buscar as jóias.

Os quatro foram para a suíte do casal. O garoto atrás. No caminho, ele sussurrou para a empregada:

—Aqui é o 712?

—Por favor, não!—disse a empregada, encolhendo-se.

Deram todas as jóias para o garoto, que estava cada vez mais embaraçado. O marido falou:

—Não precisa nos trancar no banheiro. Olhe o que eu vou fazer.

Arrancou o fio do telefone da parede.

—Você pode trancar o apartamento por fora e deixar as chaves lá embaixo. Terá tempo de fugir. Não faremos nada. Só não queremos violência.

—Aqui não é o 712? Me disseram para pegar umas garrafas.

—Nós não temos mais nada, confie em mim. Também somos vítimas do sistema. Estamos do seu lado. Por favor, vá embora!

*****

A empregada espalhou a notícia do assalto por todo o prédio. Madame teve uma crise nervosa que durou dias. O marido comentou que não dava mais para viver nesta cidade. Mas achava que tinha se saído bem. Não entrara em pânico. Ganhara um pouco da simpatia do bandido. Protegera o seu lar da violência. E não revelara a existência do cofre com o grosso do dinheiro, inclusive dólares e marcos, atrás do quadro da odalisca.

These crônicas were excerpted from O Analista de Bagé by Luís Fernando Veríssimo, L & PM Editores Ltda, 1982, 136 pp. Their original names were respectively "Direitos Humanos," "Exéquias," "O Dia da Amante," "Entrevista com o Analista de Bagé," "O Casamento," and "O Assalto."


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