Brazil - Brasil - BRAZZIL - News from Brazil - Three short stories by Whisner Fraga -Short Story in Portuguese - Conto em Portugues - Portuguese Language - Brazilian Literature - September 2002


Brazzil
Politics
September 2002

half-city man

i know the impossibility of giving you what you wish, i know
however and also that there isn't much more to endure
besides the certainty that barks beside the anxiety that
i experience when thinking that i can give the whole show away

whisner fraga

"e uma tróia perdida no meio da cidade que eu inventei para circular, além do círculo de giz não passo, porque criei a cidade contra a cidade, a minha cidadela excluindo a minimetrópole envergonhada, ilhado, pavorosamente ilhado..."

(Ronaldo Cagiano)

traição, ela acusa quando eu, volteando um hemisfério novo, galgando traumas com a astúcia de minha cólera, irrompo num domínio de geometrias irregulares, bradando agitado como?, quando?, acirramos nossas discórdias, dois amantes luxuriosos, meu bem, grito, ajoelhado rente à linha, esse marco imaginário que me impus, margeando prédios como lambesse de longe a chaga de um ato consumado, sua ressurreição.

(nervosa)2 enfurecida vomitando agonias pelo carril denteado de suas entranhas férreas, eu: o seu depósito, lixão à mercê da própria decadência: eu: atalaia avistando emboscadas, paranóia no encalço da cabeça fraca, de tanto penar, vaguear, perder-se pelos labirínticos logradouros dessa meia cidade insana. digo meia porque é o que há, o resto perdi num átimo, embora os avisos da chegada desse instante fossem exaustivamente excessivos.

ela: ela: ela: é preciso repetir para que algo se estremeça, mesmo que memória, ou se funda, embargando a fissão iniciada, quando se deu não havia: preparação, danos assim, praticamente irreparáveis, não há cursos para eles, terapias, sempre a justa saia, cueca à mão: foi assim, ela se foi: helena.

quem ela?, quem de vestido, bruxuleante e ansiosa tez e alva, tons castanhos de cabelos longos, olhos de me perdoar, quem de você que nós arrogantes amamos se dois de um mesmo e ainda amenos quando eu, tremulando de dizer proibições a vejo amparada por uma dor que tudo redime.

perguntem-me de quê a morte, quais intrigas vitimaram suas células, que meandros ou nomenclaturas estavam por trás do estrago e posterior desintegração, não, sobre isso nada saberei responder, é assunto inútil. apreciaria falar de seu último penteado ou mesmo da palavra também derradeira ou dos passos sorriso sonhos e de coisas práticas saberei precisar apenas o cruzamento em que tudo se deu, claro a cor do semáforo no instante da perda ou.

posso ter hoje quarenta, cinqüenta, a tal ponto embrenhado nas insignificâncias da vida que seria inútil me explicar, tentar no rol das importâncias ordinárias uma resposta para os que me tomam por louco. por isso o menos falo, também porque ela me entende o bastante para que não haja necessidade de acrescer diálogos ao meu cotidiano. desde então os flashes, a fulguração mais ou menos tépida daquilo que entretanto jamais nomearia de alucinação. sei que é ela se insinuando, usando helena como subterfúgio, como se mostrando o que teria lá do outro lado, não, minha cara, eu já sei o que existe em todos os pontos das coordenadas euclidianas.

chegarei à margem como de costume, estancarei meus passos diante do cruzamento: pronto: para a revanche, para a sua fúria prestes a verter venenos ousados, serei a mais sólida vontade, de concreto e aço, não, desde aquele dia que tenho coragem, enfrentei heroicamente meu medo, travamos injusta batalha: não venci, não era para ter triunfos ou derrotas: mas tendo subjugado a mim mesmo, exigiu meu cérebro um preço e a ele sou fiel até o fim: e a cidade? a cidade? a cidade? confusa geografia a me cuspir...

há o cruzamento e dizem que de lá, do outro lado, existe um manancial de maravilhas, que tantas e tão grandes novidades brotam como fossem milagres, mas não me iludo, sei que não me posso vencer, estender o meu domínio além dessa banda de cá: venha com prêmios, recompensas, promessas, nada disso me corromperá.

daí a fúria, o engendramento de inúmeras artimanhas e sim, sei o que ela quer e o que quer sei também que somente eu posso lhe dar, por isso as novidades, uma vitrine nova, estampando meus livros preferidos em edições faustosas, mesmo lojas expondo sua lingerie preferida, esse o ardil que quase pôs tudo a perder, porque sei da impossibilidade de atravessar, mas saberá assim tão arraigadamente o meu raciocínio? que desconfio eu dessas coisas funcionais, da possibilidade do impossível?

desarranjo se em suas ruas, mesmo um terreno, endereço certo, erigiram um templo, lá onde vertem desesperos em pardos de prece, percebendo que essa imponente e pútrida árvore procria seus frutos robustos, e que as polpas podem nutrir o bom ou o mau e que aqui, curvo-me frente a uma presença incerta, auferindo os grãos de uma ceifa aleatória, o que lhe fiz?, concordando que praguejar não me trará de volta,

protelando golpes em um deus de cerâmica, ou o barro covarde com o qual me tramaram, ambos mesma matéria, puto, extravaso, por que helena?,

por fim os flashes. que perfídias rondam a sua vontade para descer a tanto? dos seus concretos ela expele um jato que em muito se assemelha àquela que se foi, helena, mesmo em poses sensuais num canto de muro, outrora implorando (sim, ela fala) que vá ao seu encontro: ela sempre do outro lado, da metade que já não conheço a não ser de uma visão breve, sem entretanto de pisar ou apalpar.

é verdade, todos os dias vou até lá, rotina que devo seguir à risca, outro resquício da minha luta, helena: a cidade percebe tudo, estou sujo até os ossos do seu encalço; e ela pode de mim tentar o que quiser: não vou ceder, sei da impossibilidade de lhe entregar o que deseja, sei contudo e também que não há muito mais o que suportar além da certeza que ladra ao lado da ânsia que experimento ao pensar que posso colocar tudo a perder e para isso basta um aceno seu, feito de segredo nosso, de modo que ninguém (?) mais compartilha, quem sabe o demônio?, ou o meu fim, não fosse o que se tornou agora a minha mente, um antro de impossibilidades arrasando o que antes era apenas vôo. todavia tornou-se mais: uma furna de novidades, onde talvez a sua reencarnação ou para ser mais exato, a sua literal concretização: ela, me diz que você, helena, tornou-se concreto, espalha-se por muros, prédios, lares e então devo ceder, ousar o passo a mais ou que cresçam novamente as asas e que elas sim, me conduzam.

ela que inerte em seu caixão implora uma visita que anseio por fazer, um assunto que retomaremos, resolvendo assim o que de fato, a não ser, sim, truque, quiçá um exército com armas precisas, cada soldado a ousar uma pontaria apurada, por que ela, compreendo, me quer a seu lado e então meu medo de retornar ao que de mais puro, não haveria temor se simples o final, e um encontro planejado descerraríamos os instintos de uma dura sobrevivência, amparados pelos vícios do amor canhestro, mas a dúvida, o que ela deseja, helena?, por que eu?, de fé abaulada que em rodopios me faz pensar o que de deus para a mágoa que retomo cada instante redobrada, servo revoltado com pagamento injusto, que tanto me dediquei que mereço semelhante recompensa?, tento o cérebro para uma guerra iníqua, a ferrugem tragando meus fuzis, o que de maldito naquele carro que desobedeceu um sinal correto, trafegando deliberadamente na linha de seu peito, quando ela para mim, o que de culpa, corria voluptuosa adensando sorrisos numa face que era minha remissão, percebi que jamais, palavra fundida, eu-jamais, o corvo a repetir, entoando cantos irônicos, eu-humilhado, eu-torpe, eu-tudo exceto você.

quem para atender ao chamado?, recorrer às garras que mesmo de unhas horrendas sabe acarinhar?

você é a cidade, helena?, e o que me resta?

o que desejam?

mesmo assim, tão rígido e frio, quereria-os (cimentos e tijolos) como colo para mim.

aí reside a minha fragilidade e então preciso de uma vontade tesa para não deliberar ultrapassado o querer anterior saindo em debandada contra a decisão que tomei: não ser o que sei, poderia me tornar hoje.

ela joga sabiamente comigo, maneja as peças com experiência secular: saberemos disso quando, helena, eu sair em disparada rumo ao seu regaço

(ou)

disfarçar com um grito o estampido rouco de um disparo à queima-roupa

(e)

aqui do quarto, bairro, cidade?, espírito engolfado, vejo-me confinar em suas vísceras, ingênuo, recluso em um lar que não passa de uma fração de seu território, o corpo metido num linho charmoso, tons cinza para (seu?) dia vermelho, linhas delimitando excluindo agregando passos certeiros moradia definitiva, helena, essa fatalidade que nos cingiu, agora compreendo o quão vigiado, e que há um vigor brotando desse fruto novo, empenhados na militância de uma ciência que me tem como cobaia, irei ao seu encontro, helena, o mais rápido que puder.

Hunger

I kissed my dad and my mouth got burned, I tried to wipe it out,
away from them, with all the cloths and waters that I had, I felt
the impossibility, I retreated, in despair, looking for shelter on my pillow.

Whisner Fraga

Que estava tudo acertado para o jantar, jamais saberia uma criança de dez anos, estranho talvez, ainda preocupada com os deveres da escola e com a data de entrega dos livros da biblioteca, eu, disse-me a mãe para descer às sete, respeitar a hora, não, não estava chorando, embora olhos embaçados, o que é isso, meu filho, deixe de besteira, mesmo um tapa de leve na cabeça, mas não provocasse muito, seja bonzinho, dizem elas, então o banho, primeiro eu, depois cuide de sua irmã, meu filho, ela menor, oito anos, teria que ajeitar a nossa roupa, mesmo banhá-la, vesti-la, queria-nos juntos, que descêssemos a escada em caracol, suntuoso adereço para satisfazer a megalomania de meu pai quando da construção do palacete, olhei o relógio na parede, ainda três horas, mas mamãe, ensaiei dizer, inquirindo sobre o saldo de horas que nos cabia para tarefas tão rápidas, e ninguém deixou transparecer uma pista, éramos assim protegidos, só que também, é, poderia ser uma surpresa, calculei os dias que restavam para alguma data importante, elas muito longe, aniversário, natal, páscoa, lembrei-me de que eles gostavam de surpresas e dessa forma já ganhara presentes em dias normais, outrora extraordinários para mim, podia ser que uma festa nos aguardasse, bolo, língua-de-sogra, bala de leite ninho, bom-bocado, uma outra loucura maior do que a do dia em que papai me trouxera um maverick, lindo carrinho com controle remoto e para minha irmã uma boneca que chorava e fechava os olhos para dormir, de novo coisa semelhante?, a incumbência seria uma espécie de preço a pagar, a obediência, se fizesse tudo direitinho receberia o prêmio, caso contrário, se descêssemos antes e assim descobrindo a farsa de ambos, seríamos punidos com o silêncio, talvez um tapa, uma bronca certamente, e poríamos a perder, sete horas: claro.

Prontos, arrumados, inventamos brincadeiras para que o tempo voasse, mesmo nós não conseguíamos pensar em outra coisa que não a surpresa, estariam enchendo os balões?, teriam chamado nossos amigos da escola para ajudarem?, de lá não sentíamos cheiro de guloseimas, nem indícios de qualquer preparativo na cozinha, claro, mamãe nunca trabalharia em dia de festa, teriam pedido à titia, ela sim, confeiteira de mão cheia, preparava em sua casa, traria à hora combinada com mamãe, também ela pontual, sete horas, certamente todos cantariam parabéns para você, fazendo-se de bobos, eles sabem que não é nosso aniversário, só que deviam nos preparar esse ambiente lúdico, sei hoje, para que crescêssemos felizes, acho que isso, felicidade, embora pouco a tivéssemos, afinal, sonho deles.

Descíamos, dois anjos de mãos dadas, quando avistei garçons, educadamente de preto, portando bandejas ainda cheias de salgados e algumas com refrigerantes, muitos parentes falavam com mamãe, embora tenha divisado também um caixão no meio da sala, um tanto distante da porta principal e antes que olhasse para o esquife, tentando descobrir quem o habitava, pressenti minha irmã horrorizada, embora até hoje não saiba se ela desconfiasse, mas meu pai, ele sim, estava morto.

Mamãe tentou nos acudir, mas graves, resolvemos completar a nossa missão, percebi que eles se dirigiram para nós, olhares de dó, culpa, mágoa, ficassem quietos, isso era pior do que a mantilha de morte que cobria o nosso lar.

Um sentimento intolerável de pavor nos aproximou, nada como o perigo e a dor para unir as pessoas, e abraçamos mamãe, tentamos em seu ventre um acordo, queríamos nos esconder daquilo, vão ver o seu pai, ela disse, e não queríamos dali arredar um pé, mas os costumes exigiam da gente uma despedida, homenagem, éramos filhos e aquela morte nos pertencia também, apesar de não nos atribuírem a ela fração de culpa, óbvio, Marília agarrada à minha cintura ordenava um caminho diferente, mas devia obedecer, a vida assim, de submissão sem justificativa, se eu fosse, ela me seguiria, apesar, e não cobrariam de uma criança de oito anos se ela resolvesse cobrir o rosto com minha camisa semi-enterrada na bermuda, contudo não eu, agora o homem da casa.

Dei um beijo em meu pai e minha boca queimou-se, tentei me limpar, já longe deles, com todos os panos e águas de que dispunha, senti a impossibilidade, recuei, desesperado, procurando refúgio em meu travesseiro, criança desamparada, em torno a divisei, chorosa demais para sua pouca idade, veio me abraçar e descobrimos nesses dois tormentos um fragmento de força, ficaríamos no quartinho, onde pedimos que nos deixassem.

Em breve ela, a pequena Marília, disse-me de uma fome que a afligia e notei um fundo de suplício em sua frase, eu teria que me levantar e ir à cozinha, trazer-lhe algo, tentei inicialmente convencê-la a se livrar desses pensamentos ruins, mas eu sabia de uma cabeça como a dela, eu já tivera a mesma idade, nem meu olhar desesperado a faria mudar de idéia, eu também em pânico porque para chegar à comida teria que passar pelo meu pai, a sala no caminho, inevitável.

A não ser que conseguisse a atenção de um dos garçons, apeguei-me a esta opção, jamais os olhos fechados e o nariz cheio de algodão, a pele macilenta, fria, horroroso meu pai, quando cuidadosamente, para que não visse mais do que desejava, entreabri a porta e chamei por um deles, que estava próximo ao nosso quarto, mas sem sucesso, tão concentrado estava em sua tarefa, Marília vendo seu irmão covarde, embora tanto quanto eu, nenhum dos dois querendo ousar, mas mamãe me dissera para protegê-la e ela com fome era um problema que me dizia respeito, reuni tudo de coragem que conhecia, tentei pensar em coisas boas, na festa que achei teríamos, desenho animado, em Virgilina, minha namoradinha: abri a porta e saí.

Mãos cobrindo os olhos, calculei serem necessários vinte e cinco passos para chegar à cozinha, enquanto eles anteviam algum vacilo, no entanto não ousaram influenciar no curso do destino, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco, tornei o corpo para a direita, um, dois, três, papai, deitado, o algodão manchando seu rosto pálido, à minha frente, calculara errado, passos pequenos demais, a minha educação reprimindo o grito, já forjado e no entanto encravado dentro de mim, corri para a cozinha, quem me deteria para uma palavra de consolo?, tanta comida que comecei a chorar e a juntar alguns salgados numa trouxinha para Marília, por que ela não saíra um tanto mais destemida?, ao mesmo tempo em que sentia uma raiva tremenda por me verem assim, vulnerável, o homem da casa, que será de nós amanhã, eu teria pensado, mas só via o caminho de volta e desesperado, ajoelhei-me, pai nosso que estais no céu, dai-me força e coragem, minha nossa senhora, apelando para todas as orações, descobri-me desamparado, encolhi-me num canto, apertava os salgados contra o peito, mesmo quentes não sentia, a não ser as pernas trêmulas, de quem não daria conta de correr sem escorregar, levar uns tombos, papai, sussurrei, só que senti ainda mais medo porque agora ele podia estar em toda a parte da casa, tão espírito, um fantasma e certamente, mesmo sendo seu filho, viria me assombrar, não que quisesse, almas não raciocinam e também não têm noção de que as tememos, mas por brincadeira, era assim papai, nos assustava por nada.

Ali perto, ela também em pânico por se descobrir sozinha, mamãe não nos acudiria, tão ocupada chorando ao lado do morto, meu pranto, inicialmente contido, foi tomando forma enquanto pensava que Marília tinha fome e que deveria cuidar de minha irmã.

Aquila's Spell

To believe in the mathematic that drew them apart, she
working the whole day, arriving dusk home, he the night
shift, more money, saving for the coming
baby, off-duty days that didn't match and
coincided, fatigue overcoming the longing

Whisner Fraga

Quando sexta-feira, noite, passou cabisbaixa pela vizinha atenta, sem cumprimentá-la apesar do oi mexeriqueiro, mecanicamente abriu a porta de casa, não esperava encontrar Nicanor e, de fato assim foi melhor, já no trabalho hora dessas, cansada muito para um desconsolo, banho, antevia a banheira cheia de uma água reconfortante, o dia duro, de telefonemas engraçadinhos, informações que podiam encontrar mesmo no catálogo e era obrigada a todas as delicadezas, ali sentia-se dona de algo, nem que o vislumbre de uma liberdade tardia porém essencial.

Se ele não estava, parecia tanto lhe fazer, idéia que a assustava porque uma espécie de obrigação para com esse amor que não podia se expirar por um motivo remediável, não se encontrarem há sete dias, dali a pouco as férias, a telefônica prometera, mas facilitar assim?, podiam não precisar dela, meio descartável a sua espécie de funcionário, arriscar, ao mesmo tempo uma felicidade tão fácil e legitimamente exposta, uma maçã madura ao alcance, uma força lhe agindo, quase impossível estender o braço.

Filhos? Era então que se sentia menos mulher, nunca lhe inchara a barriga, disposta às dós a que de direito, jamais que deixaria uma criatura sua entregue aos cuidados de outra, era assim que sabiam prorrogada a confecção de sua criatura, entretanto duradouro demais o adiamento, ela já beirando os quarenta, era uma desafortunada, por que não encontrara um homem melhor, com trabalho diferente, horário normal, como os demais?, punia-se por raciocinar desta maneira, temia-se capaz de egoísmos entranhados, resistiria um pouco mais. Se filhos, estaria gritando por eles, claro que a esta hora em casa, propensos a carinhos, espantando a solidão que já se adensava, sorrateira.

Acreditar na aritmética que os separava, ela trabalhando o dia todo, chegando crepúsculo em casa, ele o horário noturno, o dinheiro a mais, a poupança para o bebê que viria, folgas que se desencontravam e se coincidiam, o cansaço superando a saudade, as carícias minguadas apesar da paixão férrea, resistindo com subterfúgios ao enferrujar inevitável, dois heróis.

Acumular pequenas raivas, um dia a gota d'água, não era o que desejava para ambos, tão bonita de noiva, a delícia de promessas que não importa cumpridas, daí depara-se com a toalha ainda úmida, num toque sentindo a pele do marido, de novo tocada e portanto entregue, frio por dentro só de pensar em largá-lo, romantismo que lhe rendeu alguns instantes bregas, diziam as fofoqueiras, se fosse assim, que viessem as músicas do Amado Batista, receio do ridículo?, na sua condição?, também os bilhetes, quando exporia a paixão em clichês, uns maiores que os outros, era a medida do que a carcomia, se guardasse para si, explodir-se em contenções.

O perfume, um hálito rubro na nuca assim que fechou os olhos, restava-lhe respirar ofegante, desejo sofreado arrastando às mãos, percorrendo a pele obediente, um prazer que jamais solitário, pela presença dele, era o seu jeito de evitar o arrefecimento, ele compreendia quando falavam disso e até ria com o canto dos olhos, meio mordido de ciúme, depois percebendo que fazia por ele, era quando o corpo fatigado se renovava e então transavam na mesma cama em que agora ela apertava o travesseiro.

Banho lento, depois o café, encontraria xícaras sujas, com um pouco de culpa zombaria do desmazelo de Nicanor, também estaria contente por poder chegar a boca à borda e saber os lábios de seu homem, agora provável que preocupado apenas com o trabalho, maldito, por que só ela se desassossegar por ambos?, possível que ele nem se desse conta de suas inquietações.

Quando a campainha

Quem a essa hora?

Nicanor que sôfrego, embaralhava palavras, homem, o que é isso?, desse jeito você sofre um ataque do coração!, impaciente, mas mulher, teria que ter calma para ambos e assim esperou que se recuperasse, já pensando em desgraça, jamais saíra antes do fim do expediente, enfrentariam juntos, um modo de fortalecer o relacionamento, vencer desafios, o raciocínio ao estilo da empresa, somos uma equipe, pessoal!, montaria a sua também, de exímios jogadores, o quê, meu bem, fale, ele sem engasgar lhe disse dos cortes nos gastos, das demissões, de planos a e b, como se justificasse seus patrões, entendera logo, despedido, o que fariam?, quem se desesperava agora era ela, mexer na poupança, adiar o filho, suportaria mais esse baque?, quando ele acrescentou o que faremos?, ela inteira Piedade, deveria ser este seu nome não fosse Rosa, que também encerra uma ponta de lógica, sshhh, foi o que sussurrou, apertando-lhe a mão, vestindo a pele de mártir, regozijava-se, dali a pouco estaria de joelhos, fosse esta uma história católica, que esparge ritos assim, não sendo, conduziu seu homem ao quarto, onde sustiveram um abraço angustiado, embora tímidos, não pela educação rígida, que não eram das Minas Gerais, mas pelo tempo sem contato, perdidos em si, e então, mesmo amantes, não ousavam a liberdade dos toques, entreolhando-se entretanto silenciosos, mãos dadas inconscientes da prisão, não sabiam o que seria dali pra frente. Não sabiam mais.

In the original these short stories are called "o homem de meia cidade, " "A Fome," and "Feitiço de Áquila."

Whisner Fraga, from Ituitaba, state of Minas Gerais, is the author of Inventário do desassossego, a novel, and Coreografia dos danados and Concerto em dor menor, both short-story books. He can be contacted at whisner@zipmail.com.br


Send your
comments to
Brazzil

Brazil / Organic personal skin care wholesale / Brazil