Party
It is a pretty scene. Too pretty. Violent, the desire
comes back. I jump from bed, grasp her from behind. I kiss her neck, suck
the lobe of her ear, lick her face, the eyelids that she closes, I suck
one by one the fingers on her hand. And again I start to undress her.
Rubem Mauro Machado
Você nao pode comer todas
as mulheres do mundo.
Mas você pode tentar.
(Ditado russo)
Espingarda engatilhada, saio à caça. Sexta-feira, fim de tarde: leve da carga da semana, que deixo atrás.
Caça, este errar angustiado pelas ruas cheias do Centro? Uma colega me atrai; tentei marcar encontro com ela, disse que gosta do namorado. Caminho à toa, o coração cheio de desespero e de uma vaga esperança.
Alguma inocente rolinha de carne branca e macia? Lanço o anzol neste remanso de gente: fisgarei descuidado peixinho? O fim de semana é sombrio.
Separado da mulher com quem vivi ano e meio, curto preta solidão. Dono de meu espaço e silêncio, no começo gostei de ficar só, monge em sua cela forrada de livros e discos, dócil sobre a mesa a máquina de escrever esperando a hora em que me desse na veneta batucá-la, eu próprio fazendo meu macarrão e o café preto forte, que tomo com pouco açúcar. Egocêntrico, certamente, não tenho o problema das pessoas incapazes de ficar só consigo mesmas—lastimo-as—incapazes de momentos de reflexão e autoconhecimento—a não ser no divã do psiquiatra. Após 18 meses, era quase uma dádiva o direito de não conversar sem vontade. Sentia-me livre, livre. Um monstro.
Mas, agora, entrara na fase em que estar só era castigo; não desejava na vida mais que o privilégio de poder botar uma moça no colo (saboreava a palavra moça como a um doce) e, durante horas, alisar-lhe o cabelo, beijar-lhe a boca. Se o mundo me concedesse isso, eu me dizia naquele momento, eu lhe perdoava todo o resto.
A cidade ronca, pessoas revoam, com a energia típica do lusco-fusco. Carros desbaratinados querem fugir por artérias entupidas, aceleram antes de o sinal abrir.
Rios e lagos de rostos desconhecidos, vagamente conhecidos alguns. Aquele senhor alto, de pasta 007, foi famoso jogador de basquete, cheguei a vê-lo jogar, sempre o encontro por estas redondezas, envolto na aura de seu passado.
Há alegria na cara das pessoas que pensam despedir-se da rotina, ainda mais que se trata de um fim de semana prolongado por um feriado qualquer, um 15 de Novembro ou uma Assunção de Nossa Senhora, algo assim, não procurei saber, só sei que serão três ou quatro dias para bom uso e gozo—é isso que me assusta—e, como sempre, as pessoas se iluminam com uma perspectiva de plenitude que suas vidas não conhecem, na asfixia do cotidiano.
O fim de tarde é para mim um momento de disposição física, de vontade de caminhar, e eu enveredo pela São Luís em direção à Galeria Metrópole, sentindo-me inteiro, capacitado a participar de uma rústica, o que não seria má idéia para queimar um pouco da energia deste corpo ainda jovem.
É surpreendente, esta energia física convive com o abatimento moral: a coleguinha, depois de algum flerte, escapara-se-me, peixe escorregadio, por entre as mãos—com a pouca sensibilidade das mulheres para escolher o melhor—apavora-me a idéia de passar os próximos três ou quatro dias sozinho, no meu mosteiro de quarto e sala. Algo tem de acontecer; mas o quê?
O esfomeado caçador, em todo caso, é dono de uma teoria que se baseia no fortuito, nos acasos da vida: ao dobrar a esquina, você pode tropeçar num grande amor; o bom—assim como o mau—está sempre emboscado no caminho; e é esta dose de inesperado que dá algum sabor à existência.
Eta teoriazinha filha da puta de fatalista e comodista; mas às vezes ele acredita nela. De qualquer forma, nela tem de se apegar neste momento—para não enlouquecer. Exagero? É porque vocês não conhecem a fome de nosso caçador—exacerbada pela visão de apetitosas presas—doendo no baixo ventre como uma ferida de faca. Jogador sem cacife, o acaso é sua última chance.
Caminha, tomado de uma espécie de diabolismo; mas este deriva todo do sentimento de urgência, não da frieza. Como personagem de Fellini, tem ímpetos de trepar numa árvore (ao menos estaria trepando alguma coisa) e gritar para a cidade: "Io voglio una donna!"
Se alguma vez conheceram a violência da fome vocês entenderão a pouca piedade com que caminha este troglodita. Ele se lamenta por ter deixado as coisas chegarem a este ponto, recrimina sua esquizoidia, sua falta de previsibilidade: por que jogara fora o telefone da morena do Som de Cristal, que algumas vezes comera?
As mulheres sentem o olhar feroz e se afastam assustadas: elas não querem ser devoradas. Mas é um caçador tão tímido, tão piedoso na hora da execução!
O caçador se compara a um marinheiro e se justifica: vocês acham que um marinheiro, depois de três meses no mar, está preocupado com achar alguma mulher específica? O caçador é culto—pelo menos bem-informado—e sorri ao lembrar um verso de Quintana, que diz mais ou menos assim: "Não, eu não estou saudoso do teu calor humano; eu sinto falta é do teu calor animal."
Diante de uma banca, observo com desfastio as fotos das revistas e as manchetes dos jornais que já li: dor, ridículo, miséria. Minha carência é tão insignificante! E no entanto ocupa, neste momento, o centro da minha vida e dos meus pensamentos. Presuntos olham com órbitas vazias o céu de urubus da Baixada. Sou um derrotado.
Esta noite hei de ir a um baile ou gafieira (é preciso criar as oportunidades possíveis para a manifestação do acaso) mas, não arrebanhando mulher, sei como se processará meu mecanismo de compensação: na volta, deprimido, com auxílio de sujas fantasias, me masturbarei deitado. Me lavarei no banheiro e depois, não estando podre de cansado, pronto para o esquecimento do sono, porei Chopin ou Mozart e mais uma dose de uísque.
Entrando no estado de exaltação alcoólica que é uma das boas coisas da vida (embora beba menos do que gostaria), haverei de sonhar malucas viagens, farei planos para o futuro. No dia seguinte, acordar tarde. Almoçar bem, num restaurante mais caro, depois ver um filme escolhido, um filme de arte, que mexa comigo e me ponha num outro tipo de exaltação. Mas discuti-lo com quem, meu Deus! Não posso contar com os amigos, têm suas vidas, saem em casais—na nossa sociedade o solteiro é um marginal—vão dedicar os dias de folga aos filhos. E, aparentemente, sou o único em oito milhões que não se dispõe a deixar São Paulo. Existe a tentação de também pegar meu carro, sair sem rumo; mas estou quase sem dinheiro, pouco disposto ao congestionamento das estradas, o acotovelamento das praias apinhadas.
Na esquina da Galeria Metrópole me baixa uma tristeza grande demais, ao pensamento de que sou um desajustado. Desvio os olhos de um casal que se abraça e beija: o amor alheio é uma agressão ao carente. Avalio o que deve doer ser um pé-de-chinelo.
Sim, acharás maneiras de te compensar; mas em tudo que faças, por melhor que seja, haverá sempre uma borra, um resíduo de desespero, no fundo do copo, no prato do restaurante.
Decido se beberei uma caipirinha, vodka com suco de laranja ou o nosso péssimo uísque nacional e penso que sempre haverá um último recurso: as profissionais. Mas será apenas somar um outro tipo de frustração: a ânsia é por sexo autêntico, por carinho. E me paralisam não considerações morais, a idéia da violência contra a mulher—o medo de uma doença venérea. A gonorréia, para mim, é mais uma prova da não existência de Deus.
Do outro lado da rua existe, numa galeria, livraria que costumo freqüentar: resolvo dar um pulo lá, antes de beber. O uísque vai me arrebentar mesmo, nada custa conceder uns minutos de trégua a meu pobre fígado.
Cego e bondoso destino, guiaste meus passos: folheio ocioso revistas estrangeiras quando, no outro lado da sala, a vejo: linda e graciosa coisinha.
O vestido solto, até o joelho, acho que de seda, lhe cai muito bem. Sapato de salto alto (o dela é preto, de tiras!) é, depois da roda, a maior invenção de todos os tempos: o corpo da mulher, projetado para a frente, para achar seu equilíbrio empina-se, numa elegância muito peculiar. E o pé! O pé é arco pronto a disparar. Os músculos da parte inferior da perna ficam tensos, o tornozelo salienta-se: maravilha. É esguia, morena, estatura média, cabelos soltos. Usa várias pulseiras, o que dá um charme desgraçado.
Não tiro os olhos dela. Ela notou meu interesse e, ao tirar livro da prateleira, curva-se mais que o necessário, de modo que o vestido adere ao corpo, mostrando como tem a bundinha bem feita—eu já tinha adivinhado, amor.
Trato de me aproximar, este simples movimento desencadeia minha maldita timidez. O primeiro contato me é muito difícil, momento da maior inibição. O coração dispara, suo nas mãos; a voz sai estranhamente estrangulada, sem cor. Odeio-me nestas horas, a impressão que devo causar. Pobre caçador! Admiro os machos que abordam com tranqüilidade as mulheres, sorriso cativante, achando frase espirituosa para dizer. Neste terrível momento, eu só tenho a consciência de quanto sou gauche: meu ídolo é Woody Allen.
Se o diálogo prospera, vencido o bloqueio inicial, acalmo-me e dali a pouco sou até capaz, modéstia à parte, de alguns brilharecos de impressionar. Na cama, sou o tal, muito tranqüilo.
No caso, a situação fica mais difícil na medida em que eu a acho um diabo de bonita. Mulher bonita dá muito medo. Olho em redor, certifico-me: está mesmo só. Raios, o contra da coleguinha, depois de tanta bola, não me reforça o ego.
Acima do medo, da timidez, paira o desespero. Em meu socorro, relembro rapidamente as lições de machismo que me inculcaram desde a infância e me pergunto: afinal, você é homem ou não é?
É fogo esta minha geração, que chamo "do meio", que ficou prensada entre a repressão da anterior e o liberalismo da nova; a que trepa tendo aprendido que trepar é feio, coisa nojenta, feita muito escondida. Que se dividia em escolas para meninos e escolas para meninas. Que se iniciava, os rapazes, nos bordéis. Que ensinava, às moças, a serem a um só tempo sedutoras e recatadas (na sala dos analistas elas tentam hoje resolver a dualidade).
Eu sabia que a pergunta teria efeito decisivo: ferido nos brios, reajo e me digo que, afinal de contas, mulher nenhuma, por bonita que seja, é superior ao homem. O que é que estão pensando, tenho o meu charme e um pau entre as pernas.
Por que não nos ensinaram a naturalidade da relação entre os sexos? Com a decisão com que Lee Marvin partiria, num filme policial, em direção a um grupo de gangsters, me vou a ela.
Minto. Achego-me sorrateiro, como quem não quer nada. Atávico instinto de luta (de caça?) desabrocha, rude flor vermelha.
Ela folheia livros de arte, tem um álbum de Bosch nas mãos. Isto facilita tudo, sou vidrado em Bosch. Comento qualquer coisa a respeito da maluca gravura que ela admira. Tenho consciência que a voz, pela emoção, sai um pouco mais rouca que o habitual. Ela responde com naturalidade e simpatia—até o fim dos meus dias ser-te-ei grato, Sandra, por isso. Relaxo: a ponte está lançada.
Folheamos agora o álbum juntos, falamos de Bosch, da (inconsciente?) simbologia sexual disseminada pela sua fantasia pictórica; de Bruegel; a conversa acaba vindo parar no surrealismo. Quer saber se desenho ou pinto, digo-lhe que sou incapaz de traçar um círculo com um compasso. Não, ela não faz arte, embora goste muito; quem sabe um dia faça.
Aceitou uma Coca-Cola. Em pé, lado a lado na lanchonete, sinto o leve roçar do seu vestido, ouço o tilintar de suas pulseiras: tenho ímpetos de beijá-la. Amanhã vai com a família para um sítio no Interior, passarão o resto da semana lá: ai de mim, ai de mim. Deu de olhar no relógio; não pode demorar, está quase na hora de ir para a faculdade. Geografia? Não teria imaginado! Escuta aqui, Sandra, falando sério, por que você não mata a aula hoje e vamos jantar juntos e continuar o nosso papo? Talvez você possa me ensinar qual é a capital do Pasquitão.
Ri (se um homem faz uma mulher rir, tem meia parada ganha).
Não pode; imagine só, vêm aí vários dias de folga e ela ainda vai matar aula?
O que é que tem, Sandra? Você ganha mais um dia, quer coisa melhor? E garanto que nem metade dos professores e de seus colegas aparece lá hoje, no Brasil é assim, as pessoas esticam os feriados por conta própria. Não, não me condene a jantar só nesta árida noite paulistana; o que você perder em ciência geográfica—conhecimento de resto recuperável— ganhará em enriquecimento pessoal, no contato com fulgurante personalidade.
Ri. Hesita. Insisto, até que diga, está bem, você é terrível. E acrescenta, sacudindo a cabeça: é um absurdo, matar aula.
Desencadeia-se em mim uma máquina de inspiração quase automática, diabolismo de campeão de xadrez que acumula lances quase sem pensar, até o xeque-mate, sem compaixão pela desprevenida inocência.
Decidi que preciso seduzi-la, no menor tempo possível. Domina-me um tipo de paixão e no seu núcleo, duro caroço, virulência que muitos dirão nada ter a ver com a palavra amor. Não me resta tempo para um namoro, uma conquista—o que me possui é a urgência de comer a moça. E novamente saboreio a palavra moça, fruta madura, sapoti, manga rosa. Sou criança esfomeada ante a vitrine da confeitaria; o cachorro e o osso. Mas esta virulência vem embrulhada em ternura, uma ternura que me faz querer apertá-la em silêncio contra mim, durante muito tempo.
Entramos no carro, introduzo a chave no contato. A gorjeta para o guarda do estacionamento é gorda. Antes de dar partida, volto-me para ela, sorrio agradecido e contente. Afasto-lhe delicadamente uma pequena mecha do rosto e este primeiro contato físico me eletriza, o pau dá uma empinada e quer furar a sunga apertada e a calça. Não imagina como fico grato pela tua companhia. E na posse do meu diabolismo, acrescento, com o ar mais casual do mundo: moro perto. Gostaria de tomar um banho e trocar de roupa. Você se importaria? Você pode me esperar no carro. Demoro no máximo vinte minutos.
Não, claro que ela não se importa. Você é um anjo, digo, aproveitando o pretexto para beijar-lhe a mão macia, engato a primeira, depois do banho vou me sentir muito melhor.
Estaciono na frente do prédio e repito: não demoro. Abro a porta e, ao botar o pé na calçada, retrocedo, digo, como se me ocorresse na hora, com a maior simplicidade: escute, Sandra, por que você não sobe um pouco? Enquanto tomo o chuveiro, ponho um disco para você. A sua espera será menos chata; e eu fico muito mais tranqüilo do que sabendo que você está aqui embaixo, sozinha.
Nítida, a dúvida cruza em seu olhar; mas minha sinceridade é acima de qualquer suspeita. Além do mais, tenho uma incrível cara de sério e honesto, sou o tipo do rapaz bonzinho. Está bem, ela diz, abrindo a porta. Ao trancar o carro, aproveito para ajeitar o pau dentro da calça.
Vagaroso, o elevador do prédio. A proximidade dela me excita. Falo, mas não sei o que digo, quero é preencher este espaço (este silêncio) que é o de uma zona morta, de um intervalo, de uma trégua. Ela parece sentir o mesmo, responde alheadamente. Seguro a bolsa capanga com as mãos cruzadas à frente, 7º, 8º, 9º, tudo para que ela não perceba que estou de barraca armada; tesão às vezes é uma puta mão-de-obra.
Giro a chave um tanto nervosamente, entramos, eu apresentando, este é o meu château, avalio minhas vitórias. Incrível, senhores, o que já consegui: há pouco mais de uma hora não a conhecia e já consegui trazê-la a meu apartamento. Expresso um desejo mudo mas não ouso pensar que poderá dar certo, temo a decepção, o melhor é pensar que não, não vai ser ainda desta vez. Devo beijá-la durante o jantar: talvez depois do jantar...
Sandra se interessa por meus livros. Mostro-lhe o que tenho, colocando-me a um palmo, por trás dela. Aspiro sua adorável proximidade, seu cheiro bom de saúde. Captará ela minha camuflada perturbação?
Sandra acaba atraída por "Gente", álbum do fotógrafo português Gageiro. Diz que vai vê-lo, enquanto eu tomo banho.
A faxineira esteve de manhã, o apartamento está arrumadinho, isto aumenta de alguma maneira minha segurança. Estou preso à minha classe—obrigado, Drummond.
Sentada no sofá, cruza suas maravilhosas pernas. Engulo em seco, trato de escolher uns discos. Opto por Duke Ellington, sobre ele Oscar Peterson, temos música para mais de meia hora. Não estou com nenhuma pressa.
Sem consulta, sirvo-lhe boa talagada do scotch que guardo para visitas especiais, sirvo-me de outro tanto. É para aguçar o apetite antes do jantar. Um brinde: ao nosso encontro. Bebida, começo de noite, música apropriada: é clima de romance.
Enquanto Sandra beberica do uísque, elogia a música e folheia o álbum, eu, apenas uma toalha enrolada na cintura, inicio um trânsito intenso pela sala entre o quarto e o banheiro. Em cada passada, detenho-me, tomo um gole de uísque, estico a conversa. Parece-me que minha seminudez a afeta: em dado momento, julgo vislumbrar brilho lascivo em seu olhar.
Chamo-a para ver a cozinha e a paisagem da janela, 15º andar. O apartamento tem apenas quatro peças e uma área de serviço, mas são amplas e estão arrumadas com certo capricho. O teu apartamento é simpático, diz Sandra.
Vou deixar uma fresta da porta do banheiro aberta, aviso, para que a gente possa continuar a conversa. Conto que isso será fator de maior intimidade: ela a ouvir o barulho da água e imaginando-a escorrer pelo meu corpo.
Entro no boxe, abro o chuveiro. O pensamento de Sandra na peça ao lado me causa uma forte ereção. Enquanto o jato de água morna me escorre pelo corpo, ensabôo carinhosamente o rijo membro, as coxas, a barriga, o peito, as axilas, vendo a espuma redemoinhar entre meus pés: banho assim é um dos poucos prazeres desta porca vida.
Saio, me enxugo na toalha felpuda. A orquestra de Duke Ellington calou-se, o piano de Oscar Peterson desliza gostoso.
Entro na sala, a toalha úmida enrolada na cintura, uma toalha de rosto em torno do pescoço. Vou até a mesa, a pretexto de bebericar meu já aguado uísque. Copo na mão, coloco-me em pé ao lado da poltrona de Sandra, a um palmo de encostar nela, comento as fotos de Gageiro. Sandra mantém os olhos baixos, fingindo estar muito absorvida pelo álbum. Evita todo o tempo de me olhar.
Estou consciente da sedução que emana de meu corpo, próximo, fresco, recém-lavado, cheirando a sabonete de pinho, seminu, me pergunto se ela percebe ou intui como está duro meu pau por baixo da toalha.
Sandra deteve-se na foto intitulada "Nazaré", a impressionante figura de uma velha de negro que, contra um céu borrascoso, ajuda pescadores a puxar a rede para a praia. A própria morte, comenta ela. Eu me arrepio cada vez que vejo, digo. E saiba que esta foto não tem nenhum corte. E então ela ergue os olhos para mim. Nos fitamos um segundo, antes que eu me curve sobre ela e nossas bocas se procurem com desespero. O pobre Gageiro tomba de seu colo e no chão fica. Bebemos na boca do outro com a sofreguidão de beduínos que encontrassem um poço no Saara. Com a mão direita, aperto-lhe os seios.
Minha boca escorrega da sua, para correr ao longo do pescoço e retornar esfaimada àqueles lábios, dentes e língua. Boto o lóbulo de sua orelha—tão fino que é transparente contra a luz—dentro da boca, exploro com a língua suas reentrâncias. Ela ainda tenta esboçar uma reação, diz chega, por favor—mas é tarde, não tem mais forças.
Ficamos os dois em pé e, enquanto aperto sua bundinha, como sem querer deixo cair a toalha.
É uma sensação nova, extremamente excitante: eu, inteiramente nu, abraçado a uma mulher, totalmente vestida. Isto também a põe fora de si. Sua mão desliza pelo meu corpo, agarra e aperta meu pau.
Abro os botões de pressão da parte superior do vestido, enfio a mão por dentro mas não consigo soltar o sutiã. Desabotoa na frente, ela geme. Diabos, não conhecia aquele modelo.
Faço o vestido deslizar ao longo do corpo, ele cai a seus pés como uma poça de musgo. Sabedor agora do truque, solto o sutiã sem problemas: ela fica só de calcinha e nos sapatos de salto alto.
Sou capaz de mamar o resto da vida nestes peitinhos maravilhosos. Sugo um até cansar (força de expressão), empinadinho, duro, mudo para o outro, enquanto ela geme, cabeça jogada para trás, dedos enterrados no meu cabelo molhado.
Ajoelho-me devoto, baixo a calcinha, com jeito, vagar. Esfrego o rosto na barriga macia, na sua bunda tão perfeita. Puxo-a pela mão para o quarto. Nunca fui tão feliz.
É incrível que tenha tudo dado tão certo, eu tão cheio de temores, crente de que ela me acabaria escapulindo.
Deposito-a sobre a cama como num altar. Acendo a lâmpada de cabeceira e ela, num assomo de pudor, geme apaga a luz. Não, não, eu quero te examinar toda.
Afasto suas coxas, com cuidados de entomólogo examino a boceta: parece-me a mais bonita que já vi. Este meu vagaroso exame a leva ao êxtase, é como se meu olhar de apropriação seja capaz de penetrá-la como nenhum falo, terno como a mais sutil das carícias. Penso que vai ter um orgasmo em seco.
Beijo suas coxas, esfrego o rosto em sua maciez interna. Depois, com a ponta da língua, começo a lamber o clitóris. Sandra se contorce, agarrada à cabeceira da cama, quando minha língua entra na sua boceta ela não agüenta e começa a gozar. Eu a enxugo com a ponta do lençol, recomeço a lamber o seu mel. É tão doce que eu pergunto, o que é que você põe na boceta, está doce, e ela responde, não ponho nada, é assim mesmo, meu amor.
Viro-a de bruços. Minha língua corre ao longo do ramal da espinha, lambendo suave penugem, do cóccis ao pescoço. Afasto suas nádegas firmes, querendo conhecer todas as suas reentrâncias: não posso admitir que seu corpo me guarde algum segredo.
Ponho-me a dar pequenas mordidas na sua bunda, ela reclama, ai bandido, está doendo. Agüenta firme não vou te machucar. Quero comê-la no sentido literal.
Ajoelhados sobre a cama, nos unimos num longo beijo, ela segurando meu pau, enquanto penetro-a com o dedo, exploro o veludo quente com que é forrada.
Eu quero te chupar, ela diz. Fico em pé, ao lado da cama, o pé esquerdo sobre o colchão. Sandra, de joelhos no leito, me chupa o pau com uma concentração e compunção quase religiosas—como se rezasse —enquanto lhe acaricio os cabelos, com as duas mãos. Uma onda de luz e calor vai subindo e por fim eu grito, chega, eu não agüento mais, e tenho de empurrá-la de costas, porque ela quer continuar.
Ela deita, abre as pernas, grita vem, vem querido. Eu a penetro num assomo de fúria, quase em lágrimas, querida como é bom entrar em você! ai como você é gostosa! e ela grita me come, me come toda meu macho, sou tua fêmea, faço tudo que você mandar, tudinho, e é maravilhoso que palavras—simples palavras—tenham tanto poder, o poder das carícias mais sutis.
Os finos tecidos do meu pênis roçam a úmida seda das paredes que o envolvem como pequena boca a sugar língua alheia; quero segurar, prolongar o gozo, mas é impossível e dou um grito e ela grita também e despencamos no abismo.
Durante certo tempo boiamos sobre a cama, leves, leves, a cabeça dela descansando em meu peito. Estico-me, pego a toalha de sobre a madeira, ajoelho-me na cama: peço que abra as pernas e a enxugo com carinho e cuidado; ela cerra os olhos.
Você é maravilhoso—e sussurra todas essas palavras que as mulheres bem-comidas ofertam, em reconhecimento, a seus homens.
Me senti à vontade, solta com você. O ato do amor costuma ser carregado de tensão. Mas você é calmo, tranqüilo. E teu corpo é tão bonito! Gosto muito do teu braço, diz, com esta paixão das mulheres pelos detalhes. Ele está a teu serviço—é claro, não perderia a deixa para uma frase de efeito. Ambos rimos.
Sandra me olha terna, diz palavras que me inflamam o ego, me deixam presumido, vaidoso, achando que sou o tal. Alerto-a para este perigo. Ela sorri: às vezes um pouquinho de vaidade não faz mal a ninguém. Sou obrigado a concordar.
Gabo com sinceridade a maravilha que ela é. Meu Deus, é incrível, é fantástico que nossos corpos encerrem este potencial de prazer, de dar prazer. Você, de repente, iluminou minha vida com uma alegria imensa, transformou toda uma perspectiva de solidão e desespero. Avalia este poder? Mesmo que você não esteja aqui nos feriados, a recordação desta trepada maravilhosa me fará companhia.
É uma loucura, há duas horas nem te conhecia e já estou aqui deitada contigo—ela começa a se preocupar com a idéia de ter sido "muito fácil", de ter se desvalorizado a meus olhos. Digo-lhe palavras de reafirmação. Acabo por confessar-lhe o quanto fora insidioso ao atraí-la a meu apartamento, com toda uma inocência simulada e hipócrita, pretextando a necessidade de um banho; a distraída deixa para que subisse um pouco. Tudo arquitetado, embora numa inspiração de momento, eu dominado, desde que a vira, pela necessidade urgente de possuí-la, não dentro de uma semana talvez, mas já, agora. E ao lado da poltrona, em pé, pretensamente olhando as fotos do álbum, estava consciente da perturbação que meu corpo, fresco e seminu, lhe infligia. Em suma, minha querida, eu me comportei como um canalha com você; e sofrendo o tempo todo, incerto se conseguiria alcançar meus propósitos. E agora que os atingi, minha alegria é grande demais, como a de um esfomeado que compra um bilhete de loteria com os últimos níqueis e tira a sorte grande. Coisa de acontecer uma vez na vida. O pior: não estou nem um pouquinho arrependido de tanto cinismo.
Ela ri, diz que agi muito bem; saíra ganhando tanto quanto eu. Eu a pegara de jeito, também muito carente: talvez não acreditasse, há mais de seis meses não dormia com um homem.
Agradecida a tudo que lhe dei, não só gaba meu maquiavelismo como pede que a deixe ser minha amante. Despertei chama que estava apagada ou mortiça nela. Obedecerá a todas as ordens que lhe der na cama, como chupar meu pau todo dia meia hora sem parar. Quando a examinei, daquela maneira meticulosa, quase gozou. Eu não acho boceta uma coisa feia? Nunca,querida, jamais, é a mais linda paisagem que os olhos de um homem podem contemplar.
Beijo-a com ternura, sinto o cheiro de sua pele. Não entendo por que a juventude procura os baratos das drogas. Não há barato maior do que esse, de um corpo rijo e quente a teu lado; odor melhor do que o que emana da pele; curtição maior do que curtir o outro—por que trocá-la pela Química? Acho que são coisas muito diferentes, diz Sandra, e esta resposta sintética me desconcerta, faz-me sentir repressor. Minha embriaguez é esta.
Costas apoiadas na cabeceira da cama, observo sentado Sandra terminar de se arrumar. Pôs o vestido verde musgo que lhe cai tão bem, em frente ao espelho passa com graça a escova no cabelo, que adquire um brilho azul-metálico. É uma cena bonita demais. Violento, o desejo me volta.
Salto da cama, agarro-a por trás. Beijo-lhe o pescoço, chupo o lóbulo das orelhas, lambo o rosto, as pálpebras que ela fecha, chupo-lhe um a um os dedos da mão. Começo a despi-la outra vez.
Você é doido, doidinho de pedra. Sou, sou doido por você. E não reclame, você disse que se submetia a todos os meus caprichos, que era minha escrava na cama. E ela sorrindo, olhos fechados: amor, não estou reclamando.
Ajoelhado no chão, depois de lhe baixar as calcinhas, abraço suas coxas, colo o rosto no ventre macio e exclamo, como se aquilo me doesse: meu Deus, que tesão maravilhosa, quero que não termine nunca. Espero que não termine jamais!
The Portuguese title of this short story is "Festa". It was originally published by magazine Status Literatura issue No. 76A.