Brazil - BRAZZIL - Zero by Ignacio de Loyola Brandao - In Portuguese - Brazilian Literature - Portuguese Language - Brazilian Books & Authors - Excerpt - November 1998


Brazzil
November 1998
Literature
In Portuguese

Zero

I had to miss work for a few days. When I went back there was somebody else killing the mice. You know something funny? They arrested a student at the boarding house. It wasn't even student, people think. They say the guy was taking part in some terrorist meetings. That's nonsense.

Ignácio de Loyola Brandão

José mata ratos num cinema poeira. É um homem comum, 28 anos, que come, dorme, mija, anda, corre, ri, chora, se diverte, se entristece, trepa, enxerga bem dos dois olhos, tem dor de cabeça de vez em quando, mas toma melhoral, lê regularmente livros e jornais, vai ao cinema sempre, não usa relógio nem sapato de amarrar, é solteiro e manca um pouco, quando tem emoção forte, boa ou ruim.

Atualmente, José está impressionado com uma declaração do Papa de que o Natal corre perigo de se tornar uma festa profana.

CADA RATO TEM

UM PREÇO

Nove horas, José veste o macacão, calça as botas de borracha e instala a aparelhagem de tambores e tubos plásticos. Aciona a manivela e produz uma fumaça amarela que vai para as tocas. Os ratos correm e logo caem. Mortos. Ele recolhe num saco e vai jogar nos terrenos baldios da Várzea do Glicério.

José tem uma cota diária de ratos. Ele sabe que no dia em que tiver exterminado todos os bichos, perde o emprego. Um dia, não tinha mais ratos. José foi à Várzea, pagou 50 centavos a dois moleques, cada um trouxe três ratos. Assim, José continuou trabalhando.

NOME: cosmo ou universo.

CARACTERÍSTICAS: contém os "corpos"celestes e o espaço em que eles se encontram. O seu conjunto contém 1076 (10 elevado a 76 potência) de prótons.

PESO: em gramas: 1056.

GRANDEZA: segundo Einstein, todo o universo deve ter um diâmetro de 8 milhões de anosluz.

IDADE: (presumível) 10 a 12 bilhões de anos.

FORMAÇÃO: os "corpos" celestes são principalmente as estrelas, os planetas que giram com seus satélites em volta das estrelas, os cometas e matérias que aparecem periodicamente entre as estrelas.

IDADE MÉDIA DE UMA ESTRELA: 10.000 milhões de anos.

QUANTIDADE DE ESTRELAS: cada galáxia contém em média 100.000 milhões de estrelas.

FORMA DE VIDA: 1 planeta em cada grupo de 1.000 parece oferecer condições favoráveis à vida.

GRANDEZA DA NOSSA GALÁXIA: comprimento de 100.000 anosluz; largura de 30.000 anos luz; espessura de 15.000 anosluz.

VELOCIDADE DA NOSSA GALÁXIA: 150 a 330 quilômetros por segundo.

O SOL: pesa 330.000 vezes mais que a Terra.

A TERRA: pesa: 6.000.000.000.000.000.000.000 de toneladas.

JOSÉ: pesa 70 quilos ou quilogramas.

MEMÓRIA AFETIVA

Tinha dez anos, era noite de festa, foi à casa do Chola, fogueira no quintal, tempo de bombas, buscapés, rodinhas, fósforos de cor, traques, caramurus, mas nenhum menino tinha dinheiro, só faziam fogueiras. Na casa do Chola, todos em frente ao fogo, e Chola segurava um barbante, tinha um rato amarrado nele, e o Chola jogava o rato no fogo, o bichinho chiava, queimando, o Chola dava barbante, o rato fugia das brasas.

LIVRE ASSOCIAÇÃO

O pai defendendo putas pobres e a mãe de escovão na mão com sapólio e limpando as obscenidades escritas nos muros da cidade ela e todo um grupo que colecionava selos para as missões católicas na África e em casa José lia Família Cristã e Pequeno Missionário e as boas famílias da cidade não entravam no escritório do pai nem você meu filho pode ir lá nunca foi.

MEXICANOS DA FÁBRICA DE SABÃO

Fazia seis meses que os mexicanos estavam chegando ao bairro. Eram mais de quarenta e dormiam no depósito vazio. José tinha ido ao depósito. Antiga fábrica de sabão, os tachos estavam lá, imensos, massa preta pela metade. Cheiro de gordura. Os primeiros mexicanos tinham aberto uma loja de restauração de poltronas e um conserto de transistores. Conversavam num espanhol entendível e a meninada, pele escura, oleosa, corria pelas ruas pedindo esmolas, comida e doces. Tinha uma menina de 13 anos que vivia dando (gostava de trepar com as pernas fechadas). Ela ia até a pensão e dava no quarto, mesmo com os outros olhando (eram cinco no quarto da pensão). José tinha pedido para ir no cinema, para treparem lá. Ela não foi. José queria no cinema porque, na pensão, dormia no beliche de cima e tinha medo de cair.

OLHOS NEGROS

Ao virar a esquina, José viu a preta. Olhava fixamente para ele. Era muito velha, podiase ver pelas rugas que rodeavam os olhos, formando bolsões. O olhar era vivo e deu malestar em José. A rua ficou amarela um segundo (É o meu estômago vazio, a falta de uma cachaça.)

APRESENTAÇÃO DE ÁTILA, AMIGO DE JOSÉ

Átila fez o normal na mesma cidade onde nasceu José. Não conseguiu cadeira de professor. Um inspetor pediu a ele uma taxa, assim seria mais fácil passar. Átila cagou no diploma e jogou na porta do departamento de educação (1) (1) Depois se arrependeu. Foi trabalhar como borracheiro. Conheceu Carola no dia em que colocaram um outdoor em frente à borracharia. Ela era o modelo do anúncio. O apelido de Átila vem do costume que ele tem de quebrar tudo, arrasar os lugares quando fica bêbado.

OPERÁRIOS ESQUENTAM MARMITAS

Na pensão, ele se lava no tanque (de manhã, a dona tranca o banheiro para não usarem o chuveiro quente), com sabão de pedra. Café é no bar da esquina. Operários esquentam marmitas num fogão coletivo. Eles têm o olhar parado. Construções: a cidade vedada com tapumes. Linhas telefônicas, água, esgoto, luz. Buracos ao comprido das ruas. Ônibus devagar no trânsito congestionado. A dor de cabeça que José tem todas as manhãs começa a passar. O cinema abria às dez e meia. Os mesmos espectadores, todos os dias. Eles não iam ver o filme. Iam dormir. Tinham passado a noite pelos bares. Gente que vinha dos cortiços, bancos de jardim, parque Dom Pedro, cadeia, bordéis. Cheiro de álcool, maconha, sujeira, desocupação, desprezo. Começavam a dormir, dois filmes seguidos, acordavam três horas depois para o intervalo de cinco minutos. Voltavam a dormir e iam assim até o fim do dia. Átila tem cadeira cativa.

YOU CAME, I WAS ALONE

José sempre quis ser cantor. Americano. Como Ray Charles, Nat King Cole, Paul Anka, Frankie Laine, Billy Eckistine. Desde os quinze anos tinha vontade de ir para os Estados Unidos, cantar, ser famoso, dar autógrafos, ter roupas extravagantes. Ele vive cantando Temptation, you came, I was alone.

PARA TIRAR EU DE EU

Átila só fuma maconha quando está na fossa. "Para tirar eu de eu." Ele e a namorada, uma morena chamada Carola, magra demais para o gosto de José. Átila gostava das mulheres magras. Era gamadíssimo em Carola. Ela: tímida, quieta. Tinha um bar deixado pelo exmarido, morto de tétano. Barzinho pequeno, no pátio de uma escola. Vivia de guaranás, cocas, café com leite, goiabada com queijo, balas, mariasmoles, bonsbocados, doce de abóbora, coco e leite, sanduíches. Carola passava lá o dia inteiro. Átila contou para José porque era tão gamado em Carola. Não faziam pela frente, nunca (1) (1) Carola só existe em fotos de publicidade. Átila inventa tudo.

A VIDA DOS SERMONEIROS (Avanttreiler)

—Vamos lá, vai. Ele lê mão que é uma beleza.

—Amanhã.

—É que a polícia está dando em cima, amanhã ele pode ter ido embora.

—Mentira.

—Vamos lá, vai.

? Por que você não vai sozinho.

—Porra, você sabe que não faço nada sozinho.

? (A polícia vai expulsar os sermoneiros.)

O ANEL DE SANTA BÁRBARA

Rosa tinha sete anos. Estava brincando num terreno. No bairro Salinas. Pisou numa pedra preta, cortou fundo o pé. A pedra era transparente. O pai de Rosa mandou fazer um anel. Assim que colocou o anel e saiu à rua, Rosa achou dinheiro na calçada. "Nunca mais tira do dedo, isso dá sorte", disse a mãe dela. Todo mundo passou a procurar pedras no terreno. Ali, há 50 anos, tinha sido senzala.

TOQUE DE RECOLHER

Com a repressão que anda por aí, ninguém quer sair de casa, as ruas são vazias, cassaram as licenças para circular depois de 21:34 horas.

O POÇO DA SOLIDÃO

José foi intimado a depor. O dono da pensão se atirara ao poço, alegando miséria. Tinha convidado a mulher, mas ela não quis, disse: Vai sozinho. A polícia suspeitava. Numa só semana, três pessoas tinham se atirado em poços, alegando miséria. Um psicólogo declarou: "Psicose. Normal. Não deve haver crime, afinal os que morreram eram miseráveis mesmo."

O MIRACULOSO

Frankil, o maior faquir do País, tentará trazer para nós o título de campeão mundial do jejum, ficando sem comer 111 dias. Venham incentivar Frankil a nos dar mais um título mundial.

Folheto amarelo

Pagou 1 cruzeiro (filhodamãe um cruzeiro prele comer depois), atravessou uma cortina de plástico verde. A urna estava num saguão caiado. Cartazes, fotografias, recortes de jornais, bandeirolas de papel crepom. Um cinegrafista de televisão estava acompanhando o recorde; um fotógrafo gordo, terno surradíssimo.

DIAS SEM COMER: 55

FALTAM AINDA: 56

Discos fanhosos de tango, bolero. O faquir, deitado nos pregos. Faixas azulamarelo, uma bandeirinha num canto, cobras passeando pelo corpo macerado, a figura imitando Cristo. José raspou as unhas no vidro. O faquir parecia dormir, não se perturbou.

Um sujeito magro, careca, sorriso grande, entrou com o fotógrafo e mais dois que traziam blocos de anotações. Frankil abriu os olhos, pareceu reconhecer o magrinho, deu um sorriso esfomeado, fez ok com o polegar. O magrinho veio conversar com José.

. Olha, eu vou fazer um filme sobre faquir e fome. Gostava de saber o que você acha disso aqui. Eu vou gravar, hein.

. Pode gravar.

Gilda Valença cantava Coimbra. José se arrumou, o fotógrafo estava fotografando.

. Pode começar.

? Como o senhor se chama.

. José Gonçalves.

? Sua profissão.

. Limpo o cinema.

? Por que o senhor vem aqui.

. Queria ver o homem.

? O senhor vem sempre nestas coisas.

. Sempre. Venho todo dia.

? Todo dia.

. Todo.

? Gosta.

. Acho este sujeito uma besta.

? Então, para que vem.

O faquir olhava. O magrinho pediu para filmarem a entrevista. José torceu a boca para o lado, como se fosse cuspir. Tinha uma afta que incomodava. Era crônica, ninguém descobrira remédio. Filmavam, e o alto-falante tocava Ave Maria Lola. Chegou um baixinho, de óculos e olhos azuis, junto com uma menina magrinha, também de olhos azuis: Glora, a rainha do striptease do Teatro Santana.

José viu que o faquir observava. Tirou um sanduíche do bolso. Mastigava e olhava, o faquir olhava para ele. José comia, torcia a boca. O diretor foi filmando. Glora reclamou: "Isso não, Fernando, não deixa ele fazer isso." José mostrava o sanduíche ao faquir. Engoliu o último pedaço. Olhou firme para a câmara. E ia virando quando reparou no sinal. No alto da urna havia dois riscos amarelos, formando um triângulo incompleto, com um meio círculo dentro. O sinal ficou gravado. Mesmo lá fora, ao sol, José continuava vendo os riscos amarelos. Na rua, de um lado para outro, escondidos atrás de janelas, dois homens atiravam com fuzis telescópicos, enquanto o povo passava.

CCCRRRREEEEEUUUUUUUUUU, plam

Olha a velha

GRrrrraaaaaammmmmmmmm (o cara tentava acelerar o motor para fugir)

Pega, pega

VRRRROUUUUUUMMMMMMMMMM

Leva a velha pro hospital. Desgraçado.

? Alguém anotou a chapa.

Ah, aaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

IgeSha gemia. Demo, capeta, não quer mesmo que eu tenha o Itá de Xangô. Aaaaaaaaaaaa.

Ela se levantou, não sentia nada. Era assim mesmo, os demônios batiam nela, surravam, ela não podia vir à cidade, saía moída de cada vez. Era o medo deles, aaaaaaaaaaaa, como dói. As filhas tinham proibido, mas sou mais forte que eles, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

ADEUS, ADEUS

Depois de ter sua biblioteca inteiramente confiscada e queimada pelo Govemo 1, o sociólogo e pesquisador das origens do subdesenvolvimento nacional, Carlos Antunes, aceitou o convite de Yale para lecionar na famosa Universidade NorteAmericana. Deve embarcar dentro de 10 dias, se os advogados liberarem o seu passaporte.

AS PORTAS

Jag, jag, jii, loooco, rorrocola, baby, baby, love me baby, tak, tag, tak, buzina, buzina, meu amor, eu te amo, eu sou um negro gato, senhor juiz, pare, meu bem, la, luuuun, aí, eu, ôoooo, pílulas de vida, do doutor ross, fazem bem ao fígado e a todos nós, xiquitan, bum, bum, I want hold your hand, beatles, porra, esqueci de falar com Átila sobre as ciganas, me dá um quibe frito, limão, uma Caçula, prato do dia: sopa de grão de bico, chinês foi preso porque fritava pastel com óleo diesel, grande liquidação de discos, e que tudo o mais vá pro inferno, amor, guarda bem este amor, novelas cada dia mais sensacionais no 9, pô, cada comerciária boa tem esta loja, deixa eu voltar, fingir que compro, que pernas a moreninha de sapatos vermelhos (Odete, professora de português, no ginásio, usava sapatos vermelhos, era boa paca, onde será? que ela anda neste mundo, a gente corria atrás dela na escada, e todo mundo ficou com inveja do Quebradinho que dançou com ela num baile do Municipal), larali, grofrgst hgtfyuj, 7869504, bum, bum, vai te. As pernas. A microssaia e as pernas compridas, redondas. No meio do povo. Ela caminhava, os homens se viravam, ela andava em ziguezague. José, seguindo. Ela dobrou a esquina, ele parou. (Ela volta, tenho certeza que volta, é que eu quero, quero muito grande aqui em mim, e ela vai voltar.) Acontecera outras vezes. Ele via uma vez e ficava com a certeza de que veria de novo. E via, sempre. Como agora, com a menina de microssaia de couro e sandálias vermelhas. Ela voltava, olhando distraída, ou pensando porque é que estava voltando E enquanto ele observava a moça, a velha riu perto dele. A velha riu (como ela deve ser antiga, poa!) e disse Num, Num, ainda num é a tua! (Que minha? Minha o quê? Velha doida, nem me conhece.) (Engraçado.) Ele continuava pensando (Este sol, tão amarelo de repente). (Como tem doente nesta cidade!) Aleijados, cegos, sem braço, sem mão, sem pés, pés para dentro, pés para fora, caolhos, bocas tortas, sem nariz, corcundas—sempre com um monte de crianças correndo para passar a mão nas costas, a fim de ter sorte—anões, sem orelhas, pescoços tortos, mulheres com elefantíase, pernas imensas, seios que pareciam sacos, fazendo com que andassem curvadas para a frente, leprosos, gente cheia de pústulas, de crostas, rostos que eram uma ferida só, rostos manchados, cabeças em carne viva. José correu pela calçada, trombando nas pessoas (Eu não quero ficar aqui, vai me deixar louco!). Terminou num beco de oficinas mecânicas, vazio de gente, cheio de carcaças de automóveis. As carcaças brilhavam ao sol (amarelo). Faltavam párabrisas, os vidros arrebentados, sobravam buracos negros, como bocas desdentadas, ou com todos os dentes, faróis arrancados (olhos), laterais, frente e traseiras amassadas, arrancadas, cofres de motor vazios. Velhos automóveis amontoados uns sobre os outros, formando um edifício de lataria descascada, de várias cores. José entrou num vestíbulo iluminado por lâmpadas de vapor de mercúrio. Havia no vestíbulo portas e portas—portas de carro. Ele foi experimentando uma a uma. Ele abria e fechava. Até a última. (Eu fechava o livro, eu nunca li o final da história, eu não queria que a moça entrasse, não era para ela entrar. Então escrevi outra história em que ela ficava parada na frente da última e morria ali, cheia de vontade, desesperada, mas com medo.) Com a mão no trinco, José se decidia.

ELE ABRIRÁ A ÚLTIMA PORTA?

O QUE EXISTE DENTRO DELA?

Mais um banco assaltado em Vila Clemência.

Feridos: 1

Roubados: 14.000 dólares

Total de bancos assaltados até agora: 64

Total de dinheiro roubado: 12.546.786

Total de feridos nas ações: 56

Total de assaltantes presos: 4

Total de mortos: 13

SETE ITENS

1—José não foi ver se o seu emprego de mataratos no cinema ainda está de pé. Não tem vontade. Não tem vontade de nada.

2—Ele acha que não dá pé. Não vale a pena. Tem um pouco de dinheiro para ir vivendo. Amanhã ou depois, talvez ele vá ao cinema.

3—Se for o caso, pede desculpas ao gerente, diz que estava doente.

4—Pode descontar (chefes adoram descontar) meus dias. Não falto mais, juro que não, pelo amor de Deus.

5—E só rastejar um pouco. Eles acham que é rastejar. Mas não é. É mentir em cima deles. Ficam babados quando alguém rasteja.

6 O bom é ficar na cama, pensando. Eu não quero é ter a mínima preocupação por nada em minha vida.

7—Hoje de manhã veio a polícia e prendeu o sujeito do quarto da frente. Não era criminoso, nem nada. Estudante. Negócio de política. Estragaram o quarto dele inteirinho, rasgaram roupa, livros, farejaram armários.

O TEMPORA, O MORES

"Ou nos unimos, ou o mundo explode numa onda de desregramento, pecado, imoralidade." O Presidente falava numa praça da capital. Diante dele, milhares de pessoas, atentas. Cada uma trazia na mão uma tocha acesa e o Presidente tinha uma visão fantástica: um fogo que iluminava / mas para ele, o fogo consumia; naquela noite devia começar uma reforma nos costumes e nas leis/. Os microfones levavam a palavra do Presidente a todas as praças do país, a todas as casas. Abaixo do palanque havia um estrado, onde se sentavam os altos dignitários da Igreja, Ministros, Juízes dos Tribunais Superiores, ProcuradoresGerais, o Chefe Supremo das Milícias Repressivas, os Encarregados da Ordem e Moral, os Cruzados, os Templários, os Defensores das Famílias, os Vingadores. Cada um representava centenas de associações e ligas e organizações que estavam sendo formadas no país, em defesa dos bons costumes, da família, da boa conduta, da liberdade, da propriedade. Estas centenas representavam milhões de pessoas. "Vamos nos lançar numa grande campanha, num movimento monstro, para que a moda seja mais sóbria, para que as saias desçam aos tornozelos, para que as revistas licenciosas sejam queimadas, para que o palavrão deixe de existir em nossa amada e tão bonita língua, para que os jovens levem uma vida decente e recatada, para que o termo prostituição seja abolido de uma vez de nossa Pátria bemaventurada, para que não haja pílulas e todos procriemos muito para a grandeza futura. Para isso estamos mudando tudo, mudando nossas leis para proteger a sociedade, e portanto, proteger vocês. Nossos sábios jurisconsultos acabam de redigir uma nova constituição, baseada toda ela em probos documentos de tempos antigos, os grandes tempos da humanidade. Nossas leis repousam nos Espelhos de Saxe e de Suábia, um grande repositório legislativo da humanidade. Vamos aplicálos, para que também os nossos tempos fiquem na história como a dignificação do homem e não como o seu fim, o apodrecimento total, a sua negação." O povo aplaudiu e ergueu os braços.

FOLHEANDO MEU CADERNO DE NOTAS

E com José—segundo suas próprias palavras—vai acontecendo que: Hoje, quando fui cagar, a bosta estava clara, bem clara. Você sabe o que isto significa? Quer dizer que estou ficando limpo por dentro. No dia em que ela estiver branca, estarei em estado de graça total. Fui atravessar a rua para pegar o ônibus. Tive que parar na ilha. Jogada no chão, uma rosa amarela, caule comprido. Era bonita, fiquei olhando para ela. Não sei porque, era só uma rosa jogada na ilha da Avenida, às seis e meia da tarde, trânsito congestionado, cartazes de bancas anunciando que esta revista dará grátis uma operação plástica, ganhe uma casa, um guardaroupa completo, veja quem são as mais elegantes, milionário se atira do décimo andar. O caule da rosa terminava em duas hastezinhas, formando uma forquilha. Perdi o ônibus por causa da rosa. A rosa, rosa, rosa na ilha (fiquei pensando). A gente pensa bobagens, o tempo todo. Eu gosto de pensar, coisas sem sentido. Porque as coisas com sentido, não fazem sentido. Cem metros à frente, o ônibus cruzou mal a esquina, foi pego por uma jamanta, capotou. Parecia um elefante rolando. Morreu gente. Não sei se eu morreria, porque não sei onde é que eu ia me sentar. Acho que me salvei. Galáxias, astronautas, astronarta, atronarta. Povo olhando o céu: ? aquilo é estrela, ou é esputinique, aquela será a apolo oito ou nove. Os ônibus chegando e levando, às sete da noite; levando para a mesa de arroz e feijão, tomate e cebola; levando para a novela de televisão. O povo se esquecendo do céu, dos satélites, dos foguetes, dos astronautas (só as mulheres, deles pensando neles, num certo momento). Agora, eu tenho sempre esta dor de cabeça. Tomara fosse um aneurisma. Outro dia li uma reportagem sobre aneurismas; dizem que a gente pode ter e não sabe, ele estoura de repente, a gente embarca. Quem sabe eu tenho, mas não vou consultar o médico, deixa ele estourar, assim não me enche o saco. A mexicaninha não quis me dar. Outra vez. Faz dois meses que não quer, me dar. Disse que é por causa da mãe que anda, doente. Ela não pode fazer nada enquanto a mãe estiver doente. É um costume, deles. Deve ser. Os mexicanos são muito engraçados, a gente fica olhando eles, aqui no bairro. São uns nordestinos que falam espanhol. Estão começando a arranjar empregos nas construções. Eu vou promover no armazém uma reunião do pessoal que comia a menina. Cada um dá um pouco de dinheiro, vem o médico, cura a mãe dela, todo mundo volta a se divertir, novamente. ? Digo. Não digo. É chato. Algo mais... algo maisss... a gente ouve isso o dia inteiro por aí. Algo mais. Digo: desculpem, nunca comi a mexicaninha. Só sozinho. Penso nela, e como. Do jeito que eu quero. Ela me disse:

Se fico grávida, não tiro o filho. E não quero ficar grávida de um cara manco.

Falou tudo na língua dela. Que filhadaputa! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19. Fico contando, contando, pensando porque 1 e 1 são dois. O cara que inventou isso! ? Por que o 1 não se chama 2 e o 2 não se chama 9. Assim eu somava: 2 e 2 são 9. Mas agora não dá, mais. O mundo inteiro pensa igual, aceitou, tem de ser assim. Se vier um cara, como eu por exemplo, e provar que o 1 não é 1, mas sim 3, dá um bode danado. São capazes de me prender, andam prendendo tanta gente. E só ler os jornais para ver. Eu fico puto da gente ir aceitando assim, por aceitar, porque está pronto, não precisa mexer. Na verdade, não é bem puto, eu fico confuso, me atrapalha. Às vezes para mim, uma coisa é quatro e não sete, como eles estão dizendo, mas eles não podem ver como eu posso, que ela é quatro. Eu sinto dentro de mim a linguagem das coisas me dizendo: eu não sou isso, sou aquilo. E tenho que acreditar nas coisas, sejam pedras, paus, plásticos, ferros, papel, flores, o que for.

E aqui me despeço esperando ter a sua atenção nas próximas páginas. Espero tê-lo agradado. Recomendeme a sua família e a todos os seus.

O GIRATÓRIO

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá"/

(? Será que a mexicaninha vem aqui. ? Será que vem dar pra alguém. Já está na hora. Eu precisava comer uma menina assim, bacaninha, gordinha, bem gostosa. Como ela é gostosa!)

Em nossa cidade, pontualmente, sete horas.

Puratek anuncia: dentro de trinta segundos nossa próxima atração: Noticiário.

(Pra que saber o que acontece por aí. Só acontece besteira. A gente fica de saco cheio. Cheio até as tampas. ? Por que eles não falaram da minha prisão. Fui reclamar no rádio, os caras nem ligaram. Ficaram me olhando, acharam que eu era louco. Mas já sei o que vou fazer.)

Água fria no banheiro, ele se enfiou debaixo do chuveiro, se esfregou com o sabão de cinza que a tia mandava do interior. Esfregava de arder a pele. No dia em que se rastejou para não perder o emprego, teve necessidade de tomar o maior banho. Ficou horas no banheiro, a viúva foi saber se ele tinha morrido. Quando viu que estava vivo, reclamou da água que gastava. Ela gritou muito. Não adiantava, ele não podia sair, precisava deixar a água no corpo. Dava vontade de viver como o Marat, dentro da banheira, refrescando. Mas o Marat tinha mulher para tomar conta. Ao menos, no filme tinha. Pão, média escura. Os mexicanos bebem pinga e contam casos do México. Um deles jura que é o neto do Pancho Vila. Um dia, vai voltar para sua terra e tomar o poder. É banguela, não se entende o que ele fala, conserta rádio e televisão, entende de transistores, tem freguesia no bairro inteiro. O mexicano passa o dia inteiro sentado num saco de batatas, fumando cigarro (o dono do empório garante que é maconha, pelo cheiro) e mascando folhas, sem cuspir. Nunca falou com José, mas tem um jeito de quem gosta dele. José tem medo. Se não fosse o único lugar da redondeza para tomar café, de manhã, José não entraria ali. (As pessoas, me fazem medo. Penso que alguém vai me agredir. Vivo preparado para me defender. Se alguém levanta o braço, bruscamente, perto de mim, me assusto. Trato bem os outros, mesmo quando não quero tratar, porque acho: ? e se o outro não gosta do meu jeito e parte para cima de mim. Quando chego de noite em casa, espero alguém no corredor, atrás da porta ou alguém deitado na minha cama dizendo que ela não é mais minha.)

José ouvia um pregador. Não tinha ninguém ouvindo, mas ele pregava. Às onze da manhã. Livro na mão, o terno preto sebento, baba na boca, óculos de aros dourados presos com esparadrapo.

? Como é. ? Largou o emprego.

A 400 quilômetros daqui, dona Osvaldina está aos berros, dizendo ao marido que qualquer dia chama a polícia, aqueles vizinhos são insuportáveis. Agora andam jogando água suja no seu quintal, formando poças que dão mosquitos e mau cheiro. Dona Osvaldina mora num sítio de dois alqueires. O sítio do vizinho tem três alqueires e é cheio de árvores.

Átila chegando.

. Largaram por mim.

? Por quê.

. Tive que faltar uns dias. Quando voltei, tinha outro cara matando os ratos. ? Sabe de uma coisa engraçada. Prenderam um estudante na pensão. Nem era estudante, a gente desconfia. Dizem que o cara fazia umas reuniões de terroristas. ? Besteira, sabe. ? Que terroristas. E ainda mais, lá. Vê se um cara ia querer derrubar o governo com reunião numa pensão de bosta daquelas.

Sei lá! Hoje, tá fogo. Tão tacando bomba em tudo quanto é lugar. Qualquer dia a cidade explode. Eu já nem chuto latinhas. Acho que debaixo pode ter meio quilo de pólvora. Vá, vamos embora. Você precisa ver o que é de gente indo pra lá. E se a gente não for, eles vão embora. Tá em tempo deles levantarem as barracas.

? Quando é tempo.

? Eu é que sei. Eles têm lá umas leis deles. Ficam um tempo, depois vão.

A mesa ia girando e Átila achou que sua cadeira girava mais devagar, porque o prato estava sempre mais para a frente. O bacalhau tinha cheiro forte de óleo e de louro.

? Será que dá para acabar, antes da volta acabar.

Ninguém olhava para o companheiro ao lado. Comiam, observando a curva da parede, comparavam com o tanto de comida no prato. Um preto, antes da chegada, puxou um plástico. Jogou dentro o resto do prato.

Refeição comercial

Pratos do dia:

Bacalhau à Portuguesa

Bacalhau ao forno

Bacalhau alho e óleo

Filé com fritas

Omelete de verduras

Picado

Frutas

Sorvete

Café

Entrem — Limpeza e Rapidez — O mais popular restaurante da cidade — Ninguém resiste aos nossos preços.

José chegava ao fundo. Havia um buraco triangular nos azulejos. Ele viu a cozinheira, ou ajudante de cozinha. Ou quem fosse. Menina redonda, braços fortes, apertados na manga do vestido. Era morena e tinha um lenço amarelo amarrado na cabeça. José perdeu a fome. Era uma cara comum, o nariz até feio, uma espinha no queixo. Ela se movimentava de um lado para outro e o banco de José passou, ela se recortou no meio do triângulo, José ficou olhando o lenço amarelo, não percebeu nada mais, só aquele amarelo. O banco entrou na reta final.

COME OU NÃO COME

Eu tive lá no faquir. Ele me deu uma idéia. Das boas. Pra se ganhar dinheiro. Lá, perto da urna, tem uma placa. Sabe, o faquir é muito orgulhoso da sua honestidade. E daí, ele promete um dinheirão pra quem provar que ele come. Taí, a gente vai lá e prova.

. Prova. ? Como, velhão.

. A gente forja um troço fajuto qualquer.

? É. ? E os amigos dele. ? Tão lá pra quê.

. Passei lá de noite. Só fica um guardacivil. Toda noite é o mesmo. Porra velho. Já gastei dez contos numa semana, só pra observar o cara. Esse dinheiro é nosso, você vai ver.

. Quer ver, que nada. Você anda maluco. O cara num come.

. Come.

. Come nada.

. Olha que come.

? E o guarda.

. Dá um dinheiro pro guarda, só pra ver. Ele topa.

A VINDA DOS SERMONEIROS

Na Água Baixa, atrás do Zoológico, por trás da mata, há nas colinas, uma série da patamares, como se fosse uma escada gigante, com degraus de dez metros de altura. Cada degrau tem uma superfície enorme e ninguém sabe por que foram feitos. Um dia, tratores amanheceram trabalhando, ficaram meses, depois se foram, não ficou nem uma placa indicando se era obra do governo, uma nova indústria (há metalúrgicas para aqueles lados ) ou um loteamento.

A terra, naquelas colinas, é constituída por faixas de várias cores, de modo que cada um dos degraus é vermelho claro, marrom escuro, amarelo ou acinzentado. Para chegar lá, vaise pela estrada do Zoológico e, na altura de uma venda em que o nome Moraes está escrito com o S ao contrário, entrase à direita por uma estrada de terra.

Nos primeiros dias dos Sermoneiros era preciso descer na venda e subir a pé. Depois, com o movimento, uma empresa aproveitou carros velhos e fez uma linha clandestina até o acampamento. Átila estava dirigindo um desses ônibus e ganhava por viagem e pelo número de passageiros, enchendo o carro como vagão de gado. Ele e o cobrador faziam dupla e cobravam preço acima da tabela. Para a companhia tanto fazia, as jardineiras gastavam pouco, não precisavam conservação, não pagavam impostos. Átila pegava o serviço ao meiodia e ia até o fim da noite. Os motoristas dos quatro carros faziam guerras entre eles, tentando sabotar o carro do outro, arrancando velas, puxando fios, roubando gasolina, murchando os pneus. O ônibus sobe. Não há bancos. As janelas não têm vidros, a pintura desapareceu. O ônibus é uma carcaça, levada por um motor semipifado. Mesmo assim, não tem carro que suba sem estar cheio.

O acampamento se divide nos patamares. Nove barracas em cada um, no primeiro de uma cor, no segundo de outra. Até chegar ao último, a grande barraca marrom (cor de terra—a que pretendemos—de dentro da qual viemos (sementes)—única verdade, mãe terra: dizia o folheto explicando; folheto que chamava o povo para a verdade do futuro). As filas são compridas. De um patamar para o outro há escadas de madeira.

A grande barraca marrom tinha um letreiro de lata pintada. Colocaram neon por cima. As palavras tinham vinhetas dentro; as vinhetas eram sinais (Cada sinal tem um significado para nosso povo: disse um cigano falando.)

Olhando cada letra, José tem a impressão de escritos egípcios, hieróglifos, os sinais pequeninos, às dezenas, uns juntos aos outros, formando no seu amontoado, um outro sinal maior. Imagens acrescentadas a outras imagens para conseguir uma definição. Como se fosse uma escrita chinesa, trabalhada. Ou uma carta enigmática.

? Nosso povo. A origem do nosso povo perdese nos tempos. ? Africana. ? Chinesa. ? Hindu. ? Russa. ? Quem sabe. Talvez uma mistura de tudo. Nosso povo é errante. Disse o chefe do clã na televisão. Era um homem alto, não muito velho, moreno escuro, cabelo liso, dentes de ouro, roupas coloridas, colares, flores, botas, chicote (a imagem tradicional, normal, do cigano de cinema, da Carmem, das fitas de Hollywood). Ele tinha comparecido a todos os programas de entrevista, gostava de fotografias, cinegrafistas, jornais.

"A gente tem muita coisa dos negros, guardamos um pouco de sua pele, da sabedoria, recebemos ensinamentos e dons e preparação, temos contacto."

Fatias de melancia e abacaxi, docinhos de abóbora, coco, leite, gomas, geléia de mocotó, cachorro quente, tudo em barraquinhas, em carrinhos ao sol, em cima de caixotes, jornais estendidos no chão, tabuleiros suspensos nos pescoços. Churrascos de carne cheia de sebo, de vaca e de gato e de qualquer outro bicho pego na redondeza do mato.

. Gosto paca dessas coisas, disse José.

? De saber a sorte.

. Da sorte, do futuro, dessas coisas esquisitas que a gente nem entende

. Olha cada bacana que tem aí! Dá uma olhada, nos carros que tão parados. Me disseram outro dia que a mulher do governador veio aqui. De noite, escondida. Eu ia levar o último ônibus, estava esperando encher. Veio um guarda da Força, recolheu os que estavam espalhados por aí. Enfiou no ônibus e me mandou descer o morro. Num desvio da estrada, tinha um carro chapa oficial, esperando. No dia seguinte, disseram que foi a mulher do governador. Queria saber se ele andava traindo ela. Sabe, a mulher vigia ele que nem tarada. Também, dinheiro é tudo dela, ele era pronto, boa pinta, mandou uma de casamento. Ela fez a carreira dele. Só que, exige fidelidade. ? E sabe, ele é apavorado. E por isso é fiel. ? Sabe o que mais. Me contaram que cada vez que eles vão trepar, ele corre ao banheiro e vomita. Vomita até bílis, de tanto que está de saco cheio.

A placa, na barraca onde Átila tinha levado José:

LÊ- SE:

Mãos—Coração—Olhos—Mensagens no azeite—Planta dos pés—Manchas de café—Folhas de chá—Decifrase algodão queimado—O futuro pela marca dos pés na areia e no gesso e na lama e na farinha de trigo

Lêse todas as linhas do corpo

Decifrase a Voz—

Leitura Cifrada dos sinais particulares: cicatrizes, manchas, verrugas, rugas, espinhas e pintas.

Análise da segunda urina para indicação de doenças presentes e futuras, com retrospecto das passadas e suas influências atuais.

. Esse cara aí vale mais que um checkup, disse Átila.

. Desconfio, heim.

. Esse cara é o maior. Só que, é humilde. Esse aí, não é como o chefe que vive se promovendo. Ele nunca sai dessa barraca. Nunca, dia ou noite. Ele estuda, medita, conversa. O mundo vem até aí. ? Praque sair. Ele conhece o mundo, através das pessoas. Precisava ver a aula de anatomia que ele deu pruns estudantes de medicina, outro dia! Os caras saíram de queixo caído. Até o catedrático.

? Ele cura.

. Ele não cura. Ele só diz, as coisas. Depois, as pessoas que se curem, ou procurem os médicos para curar. ? Sabe por que as pessoas não se curam. Porque os médicos não acreditam nisto e dizem tudo ao contrário. Só porque, são médicos.

. Eu queria que ele falasse do meu pé. ? Será que tem jeito.

. Sei lá! ? Ah, sabe quem meditou junto com o cara aqui. Os Beatles!

. Conversa, seu!

. Nada, tem fotografia e recorte de jornal. Do maior jornal de Londres. Este cara num mente não (1) (1) Átila, apesar de ser um sujeito que cria as namoradas apenas na imaginação, parece ter certa razão quando fala no encontro entre o Homem e os Beatles. Foi pouco antes da morte de Epstein, durante três dias, durante os quais os Beatles desapareceram e ninguém ouviu falar deles. O curioso é que os quatro teriam recebido do Homem o conselho de separarem para sobreviverem. Depois do encontro, os Beatles perderam a memória todos os traços do que sucedeu, porque essa é a característica do Homem: o que diz, fala, aconselha, fica diluído no subconsciente, fica atuando, mas a pessoa não se lembra mais com lucidez. Sente apenas uma espécie de angústia quando contraria os preceitos recebidos.

? Então, por que tem pouca gente aqui procurando ele.

. São só os que ele aceitou. É preciso mandar a carteira de identidade antes. Aí ele escolhe, quem recebe. Me dá, a sua.

Havia bandeiras de papel crepom panos coloridos altofalantes irradiando boleros tangos twist entre anúncios dos que tiravam sorte liam cartas mãos e descobriam o futuro de mil maneiras.

Depois do almoço ficou difícil andar pelos patamares era como se fosse uma quermesse e o povo todo da cidade tivesse sido convidado porque as estradas e o mato abaixo e acima dos patamares estava cheio de gente gente que andava comia esperava em filas se reunia em grupos conversava se excitava com o saber que ia conhecer.

Às três, José entrou: a barraca, simples e clara, de pano branco, cheia de luz. Sacos de farinha, emendados, cobriam a terra. José sentiu vontade de tirar o sapato; tirou. O homem, de pé, tinha o olhar tranqüilo e bom. O barulho não atravessava o pano da barraca. Dentro da cabeça de José é que havia ruídos: caixotes sendo abertos, tábuas sendo retiradas, pregos arrancados a martelo e todas as divisões transformadas num salão devassado, onde se podia ver com limpidez quase tudo. O homem estava com a mão em sua cabeça.

. Meu afeiçoado. Precisase, usar por completo, sua cabeça. É uma cabeça boa, pronta a receber, muito. Você não faz nada, afeiçoado. Nada por você, nada pelos outros.

O ruído começando.

. Nada, por nada, o útil é inútil, o bom é desperdício. Você deve ser você. Há um chamado e você não atende.

Aquele ruído que José conhecia. O ruído mais forte. Dentes.

. Afeiçoado. ? Lembrase. Naquele salão havia muitas portas cerradas. Você podia entrar em todas, menos uma.

. Ninguém tinha proibido.

. Mas, afeiçoado, você sabia que não podia abrir aquela. Não devia.

? Como podia saber.

. No portaluvas de um dos carros tinha o comunicado.

. Mas eram tantos carros.

Os dentes batendo uns contra os outros.

? E,o sinal.

? Que sinal.

. Afeiçoado, sua cabeça funciona dez por cento. Há sinais, por toda parte e ninguém percebe. Em tudo. Abra a vista, com largueza, para o presente. E você tem o futuro pregado, grudado. Não olhe baixo, como todo mundo. Ao menos, não você.

? Que sinal.

. Quando o carro avançou para você, no meio da rua, os números do centro, na placa, eram de cor diferente. Ele tinha pintado a chapa. Era uma brincadeira de rapaz? Aparentemente. Era o número, que era o primeiro número, do carro onde, dentro do portaluvas, havia o comunicado para você não abrir a porta que abriu entrando onde devia sair.

. Eu não me lembro, depois que, entrei.

. Na hora precisa, se lembrará, afeiçoado.

? Quem mandou o sinal.

? Quem.

O homem retirou as mãos da cabeça de José. No fundo do cérebro dele, ficaram compartimentos lacrados, com letreiros luminosos, cujas letras José não conseguia ler.

A CRIAÇÃO DE JOSÉ SEGUNDO O HOMEM

Dez dias se passaram.

Dez dias José passou com o homem.

No primeiro, aprendeu que o corpo deve ser livre e satisfeito.

No segundo, que a mente deve dominar e que o pensamento cheio de vontade consegue.

No terceiro, conheceu cada músculo do corpo.

No quarto, conheceu o céu e as estrelas, o nome de cada uma, as visíveis, e as não, o poder delas, como elas influenciam o homem; conheceu o sol e a lua, os planetas, as etapas, os signos, os ciclos.

No quinto, o homem reproduziuo gigante, projetandoo no teto da barraca branca, transformado em tela infinita. José se viu: o homem abrindo seu corpo, como um professor de anatomia, e mostrandoo por dentro. Ele era constituído de corredores dando para outros corredores, um dentro do outro, um quarto dentro do corredor, claro, límpido, iluminado. Labirintos em ziguezague, salas, salinhas, salões. (Como é monótono um homem por dentro, não tem nada). A reprodução tomava toda a barraca e era como se ele estivesse por dentro dele (mas eu não me sinto dentro de mim, não sinto mesmo, estou sempre fora). E o homem apontava a lanterna e mostrava seu corpo, as passagens, artérias (mesentéricas, hipogástricas, carótidas), veias (cavas, porta, pulmonares), aortas, vielas, ossos, alçapões, sistema linfático, clarabóia, vísceras, escotilhas, ventrículos, sistema nervoso. José sentiu vontade de correr nele mesmo, livre por campos que partiam do estômago, subindo em colinas de rins, recebendo dentro dos olhos aquela luz branca (relâmpago branco, aquele relâmpago branco que me bateu nos olhos). Então, olhando, ele viu uma abertura triangular, vazia por trás e sentiu um prazer tão grande que teve um orgasmo. Sentiu fome mas não tinha vontade de comer: fome, mas ficava enjoado ao se lembrar de comer. Às vinte e quatro horas do quinto dia se viu por dentro. Era o prazo que tinha. Sem proibições. À meianoite precisava sair (não perca o sapato, ao sair. Ninguém irá te procurar). Mas faltavam coisas a percorrer; coisas que ele precisava. (Como posso contar ao homem que não me vi todo?) Ficou quieto, nada disse ao sair.

No sexto, conheceu as sensações do tato e suas explorações, o paladar, o olfato, a vista, a audição e os efeitos a se tirar de todos.

Toquese.

Ouçase.

Vejase.

Provese.

Cheirese.

E saiba quem você é, disse o homem.

E José, agradecido, beijou o homem na boca. Não sensualmente, não apaixonadamente, não emocionalmente. Agradecidamente, apenas. E o homem agradeceu o beijo com um murro na orelha de José, que o tornou surdo.

No sétimo, ficou nu enquanto o homem fazia entrar as pessoas: homens, mulheres, crianças. José não sentiu vergonha. As pessoas não se importaram.

No oitavo, José ficou de pé vinte e quatro horas. Ora num pé, ora noutro. Três vezes, ergueuse meiahora, apoiandose na ponta do calcanhar. Foi picado com agulhas, batido com palmatória, andou em brasas, mergulhou em água quente. Dominouse. Tinha aprendido.

No nono, José foi erguido por uma corda pelos braços, com a cabeça para cima, a fim de ouvir o diabo; depois amarrado pelos pés, com a cabeça para baixo, a fim de falar com Deus; depois pela cintura, com a cabeça no meio a fim de ouvir as divindades medianas. Ele não ouviu nada. ? Será que não tinham nada a dizer para ele, ou será que não existem.

No décimo dia, o homem descansou.

E então, na manhã seguinte, chamou José e tirou a roupa. Amou José e se deixou amar por ele, odiou José e se deixou odiar por ele, desejou José e se deixou desprezar por ele, desprezou José e se fez desejar por ele. Rolaram pelo chão / se bateram e gritaram / como animais / urraram/ e uivaram, querendo se encontrar.

JACULATÓRIA: "Jesus, Maria, José, expire em paz entre voz a minha alma."

INSCRIÇÃO DE PRIVADA

(Grafiti)

cagar é lei deste mundo

cagar é lei do universo

cagou dom jorge segundo

cagou quem fez este verso

No seu sítio, dona Osvaldina quer que o marido vá tomar satisfações com os vizinhos. Tem certeza de que andam roubando os ovos da galinha legorne.

ARAME FARPADO NA GARGANTA

José andava com Átila pelos patamares. Os sermoneiros iam. Faltava desmontar apenas uma barraca. O povo não vinha, mais. Alguns churrasqueiros /de gato/ insistiam em vender. José ficou parado no lugar da barraca branca.

(Sei quem sou e o que posso. Só queria que ele tivesse levado essa raiva. Que ele tirasse o arame farpado que tenho na garganta. Me ajudou, mas o arame continua)

Era um dia de nuvens baixas e ele percebeu que atrás das nuvens o céu era amarelo/ ovo/. Sentiu que estava sendo olhado e enfiou as mãos no bolso, sem jeito.

Didu

O passarinho piou no mato. Duas vezes.

Didu

Era um pássaro amarelo parecido com papagaio. Numa árvore, muito perto.

. Pera aí, que pego ele! disse Átila.

Didu

O pássaro voou, voltou, chegou até José, soltou o seu grito, voou de novo.

Naquele dia, às quatro da tarde, Átila levou o último ônibus. Dos sermoneiros, ou o que quer que aquele povo fosse, sobraram a marca das barracas e todo o tipo de detritos. Nas proximidades do mato, havia um terrível mau cheiro onde o povo tinha excrementado. Começavam a chegar crianças que remexiam a sujeirada. Cachorros sarnentos acompanhavam seus donos, ou agiam isoladamente. Brigavam as crianças, os cachorros e também as mulheres que tinham vindo buscar papel. Os aproveitadores do lixo estavam pondo fogo nos montes e a fumaça era fedida.

? E agora, Átila. Eu sem emprego, você também.

. A gente se vira. Calma, que se vira. O negócio é esse, hoje em dia. Emprego, emprego, nem tem, nem eu quero.

Mas eu quero. Fico nervoso, sem emprego. Me dá uma coisa, esquisita.

PERIGO

No dia seguinte, na pensão, José acordou com o barulho de dois companheiros que comiam a mexicaninha. Ela gemia alto, um tentava tapar a boca, enquanto o outro estava dentro. Depois que ela terminou, José perguntou se tinha vez.

. No, no tiene, no.

? Por causa do filho.

. Si, lo hijo, no lo quiero como tu.

. Você é uma filhadaputa. Se o filho nascer como o pai nasce manco. ? E se nascer como a mãe.

. La madre es bela!

. La madre es puta. ? Não é pior nascer puta.

. No es mejor. Mucho mejor. Hoy es mejor ser puta.

Foi o que respondeu, ela que desaprendia o espanhol, sem aprender o português.

(Essa mulher, eu matava. O Homem me ensinou a não ter ódio, mas ainda não aprendi. Sem ódio, não faço nada. Ninguém, faz nada. Com essa mulher, eu me sinto manco. E eu não sou, mais)

A luz amarela na bandeira da porta, incomodava. Ele saltou da cama, correu para a mexicaninha, começou a bater. Ela apanhou sem dar um gemido, mordendo o travesseiro. José parou, quando os companheiros de quarto voltaram do banheiro. Pularam em cima dele. Caído na cama, seguro, ele viu a mexicaninha jogar o travesseiro em seu rosto, apertando. Para sufocar. Apertando e o ar faltando.

? JOSÉ VAI MORRER

PS: José continuou na pensão, porque tendo sido sempre pontual nos pagamentos, tinha a consideração do dono. ("Ainda há gente boa no mundo")

? Alguém duvida

. Não, ninguém.

. Se duvidassem, ia porrada.

DRAMA,

QUASE DRAMALHÃO

(Para ser lido ao som do bolero "Angustia")

O pai de Rosa Maria Lopes, morena, cabelos pretos, era fanático pelo Taquariti Esporte Clube. Levava Rosa Maria ao jogo, todos os domingos. A mãe tinha feito para ela um vestido especial, com as cores do clube e dois distintivos no peito. No campo, Rosa Maria gritava, quando o pai gritava. Ria quando o pai ria. Xingava, quando o pai xingava. Ela gostava dele, do colo, do cheiro: suor, cigarro, pinga. Grama, quando ele voltava do estádio, em dias de treino. Naquela época, o TEC disputava a segunda divisão, sustentado por fazendeiros. Na finalíssima, contra o Catandu, o time da casa não podia perder. O Catandu começou a distribuir pancada, o pessoal do Taquariti fechou os portões, passou ao massacre. Rosa Maria guardou um vestidinho manchado com o sangue do pai, trinchado com cacos de garrafa de cerveja. Ela tinha sete anos. E não ficou traumatizada.

Excerpted from the initial pages of Zero by Ignácio de Loyola Brandão, Global Editora, São Paulo, 1975, 286pp


Send your
comments to
Brazzil


BUY THIS BOOK
DIRECTLY FROM BRAZIL:

booknet.gif (5626 bytes)



CDs or Books
by Keyword, Title or Author

Keyword search

Books Music

Full search: Books or Music

Brazil / Organic personal skin care wholesale / Brazil