Os dois estavam tomando um cafezinho no boteco da esquina, antes de partirem para as
suas respectivas repartições. Um tinha um nome fácil: era o Zé. O outro tinha um nome
desses de dar cãibra em língua de crioulo: era o Flaudemíglio. Acabado o café o Zé perguntou: Vais pra cidade? Vou respondeu Flaudemíglio, acrescentando: Mas vou pegar o 434,
que vai pela Lapa. Eu tenho que entregar uma urinazinha de minha mulher no laboratório da
Associação, que é ali na Mem de Sá. Zé acendeu um cigarro e olhou para a fila do 474, que ia direto pro centro e, por
isso, era a fila mais piruada. Tinha gente às pampas. Vens comigo? quis saber Flaudemíglio. Não disse o Zé: Eu estou atrasado e vou pegar um direto ao
centro. Então tá concordou Flaudemíglio, olhando para a outra esquina e, vendo
que já vinha o que passava pela Lapa: Chi! Lá vem o meu... e correu para o
ponto de parada, fazendo sinal para o ônibus parar. Foi aí que, segurando o guarda-chuva, um embrulho e mais o vidrinho da urinazinha
(como ele carinhosamente chamava o material recolhido pela mulher na véspera para o exame
de laboratório...), foi aí que o Flaudemíglio se atrapalhou e deixou cair algo no
chão. O motorista, com aquela delicadeza peculiar à classe, já ia botando o carro em
movimento, não dando tempo ao passageiro para apanhar o que caíra. Flaudemíglio só
teve tempo de berrar para o amigo: Zé, caiu minha carteira de identidade. Apanha e
me entrega logo mais. O 434 seguiu e Zé atravessou a rua, para apanhar a carteira do outro. Já estava
chegando perto quando um cidadão magrela e antipático e, ainda por cima, com sorriso de
Juraci Magalhães, apanhou a carteira de Flaudemíglio. Por favor, cavalheiro, esta carteira é de um amigo meu disse o Zé
estendendo a mão. Mas o que tinha sorriso de Juraci não entregou. Examinou a carteira e depois
perguntou: Como é o nome do seu amigo? Flaudemíglio respondeu o Zé. Flaudemíglio de quê? insistiu o chato. Mas o Zé deu-lhe um safanão e tomou-lhe a carteira, dizendo: Ora, seu cretino,
quem acerta Flaudemíglio não precisa acertar mais nada! Seu Irineu Boaventura não era tão bem-aventurado assim, pois sua saúde não era lá
para que se diga. Pelo contrário, seu Irineu ultimamente já tava até curvando a
espinha, tendo merecido, por parte de vizinhos mais irreverentes, o significativo apelido
de "Pé-na-Cova". Se digo significativo é porque seu Irineu Boaventura
realmente já dava a impressão de que, muito brevemente, iria comer capim pela raiz, isto
é, iam plantar ele e botar um jardinzinho por cima. Se havia expectativa em torno do passamento do seu Irineu? Havia sim. O velho tinha os
seus guardados. Não eram bens imóveis, pois seu Irineu conhecia de sobra Altamirando,
seu sobrinho, e sabia que, se comprasse terreno, o nefando parente se instalaria nele sem
a menor cerimônia. De mais a mais, o velho era antigão: não comprava o que não
precisava e nem dava dinheiro por papel pintado. Dessa forma, não possuía bens imóveis,
nem ações, debêntures e outras bossas. A erva dele era viva. Tudo guardado em
pacotinhos, num cofrão verde que ele tinha no escritório. Nessa erva é que a parentada botava olho grande, com os mais afoitos entregando-se ao
feio vício do puxa-saquismo, principalmente depois que o velho começou a ficar com
aquela cor de uma bonita tonalidade cadavérica. O sobrinho, embora mais mau-caráter do
que o resto da família, foi o que teve a atitude mais leal, porque, numa tarde em que seu
Irineu tossia muito, perguntou assim de supetão: Titio, se o senhor puser o bloco na rua, pra quem é que fica o seu dinheiro,
hem? O velho, engasgado de ódio, chegou a perder a tonalidade cadavérica e ficar levemente
ruborizado, respondendo com voz rouca: Na hora em que eu morrer, você vai ver, seu cretino. Alguns dias depois, deu-se o evento. Seu Irineu pisou no prego e esvaziou. Apanhou um
resfriado, do resfriado passou à pneumonia, da pneumonia passou ao estado de coma e do
estado de coma não passou mais. Levou pau e foi reprovado. Um médico do SAMDU, muito a
contragosto, compareceu ao local e deu o atestado de óbito. Bota titio na mesa da sala de visitas aconselhou Altamirando; e começou o velório. Tudo que era parente com razoáveis esperanças de herança foi velar o morto. Mesmo parentes
desesperançados compareceram ao ato fúnebre, porque estas coisas vocês sabem como são:
velho rico, solteirão, rende sempre um dinheirão. Horas antes do enterro, abriram o
cofrão verde onde havia sessenta milhões em cruzeiros, vinte em pacotinhos de
"Tiradentes" e quarenta em pacotinhos de "Santos Dumont": O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava disse alto o sobrinho. E logo adiante acrescentava baixinho: Vai ver, gastava com mulher. Se gastava ou não, nunca se soube. Tomou-se isto sim conhecimento de uma carta que estava cuidadosamente colocada dentro do
cofre, sobre o dinheiro. E na carta o velho dizia: "Quero ser enterrado junto com a
quantia existente nesse cofre, que é tudo o que eu possuo e que foi ganho com o suor do
meu rosto, sem a ajuda de parente vagabundo nenhum." E, por baixo, a assinatura com
firma reconhecida para não haver dúvida: Irineu de Carvalho Pinto Boaventura. Pra quê! Nunca se chorou tanto num velório sem se ligar pro morto. A parentada
chorava às pampas, mas não apareceu ninguém com peito para desrespeitar a vontade do
falecido. Estava todo o mundo vigiando todo o mundo, e lá foram aquelas notas novinhas
arrumadas ao lado do corpo, dentro do caixão. Foi quase na hora do corpo sair. Desde o momento em que se tomou conhecimento do que a carta dizia, que Altamirando imaginava um jeito de
passar o morto pra trás. Era muita sopa deixar aquele dinheiro ali pro velho gastar com
minhoca. Pensou, pensou e, na hora que iam fechar o caixão, ele deu o grito de "pera
aí". Tirou os sessenta milhões de dentro do caixão, fez um cheque da mesma
importância, jogou lá dentro e disse "fecha". Se ele precisar, mais tarde desconta o cheque no Banco. A historinha abaixo transcrita surgiu no folclore de Belo Horizonte e foi contada lá,
numa versão política. Não é o nosso caso. Vai contada aqui no seu mais puro estilo
folclórico, sem maiores rodeios. Diz que era uma vez um camarada que abotoou o paletó. Em vida o falecido foi muito
dado à falcatrua, chegou a ser candidato a vereador pelo PTB, foi diretor de instituto de
previdência, foi amigo do Tenório, enfim... ao morrer nem conversou: foi direto para o
Inferno. Em lá chegando, pediu audiência a Satanás e perguntou: Qual é o lance aqui? Satanás explicou que o Inferno estava dividido em diversos departamentos, cada um
administrado por um país, mas o falecido não precisava ficar no departamento
administrado pelo seu país de origem. Podia ficar no departamento do país que
escolhesse. Ele agradeceu muito e disse a Satanás que ia dar uma voltinha para escolher o
seu departamento. Está claro que saiu do gabinete do Diabo e foi logo para o departamento dos Estados
Unidos, achando que lá devia ser mais organizado o inferninho que lhe caberia para toda a
eternidade. Entrou no departamento dos Estados Unidos e perguntou como era o regime ali. Quinhentas chibatadas pela manhã, depois passar duas horas num forno de
duzentos graus. Na parte da tarde: ficar numa geladeira de cem graus abaixo de zero até
as três horas, e voltar ao forno de duzentos graus. O falecido ficou besta e tratou de cair fora, em busca de um departamento menos
rigoroso. Esteve no da Rússia, no do Japão, no da França, mas era tudo a mesma coisa.
Foi aí que lhe informaram que tudo era igual: a divisão em departamento era apenas para
facilitar o serviço no Inferno, mas em todo lugar o regime era o mesmo: quinhentas
chibatadas pela manhã, forno de duzentos graus durante o dia e geladeira de cem graus
abaixo de zero pela tarde. O falecido já caminhava desconsolado por uma rua infernal, quando viu um departamento
escrito na porta: Brasil. E notou que a fila à entrada era maior do que a dos outros
departamentos. Pensou com suas chaminhas: "Aqui tem peixe por debaixo do angu".
Entrou na fila e começou a chatear o camarada da frente, perguntando por que a fila era
maior e os enfileirados menos tristes. O camarada da frente fingia que não ouvia, mas ele
tanto insistiu que o outro, com medo de chamarem a atenção, disse baixinho: Fica na moita, e não espalha não. O forno daqui está quebrado e a geladeira
anda meio enguiçada. Não dá mais de trinta e cinco graus por dia. E as quinhentas chibatadas? perguntou o falecido. Ah... O sujeito encarregado desse serviço vem aqui de manhã, assina o ponto e
cai fora. Estávamos fazendo hora para ir pra nossa aula de agogô, ouvindo o Concerto em ré
maior Opus 77, de Johannes Brahms, executado por Fritz Kreisler com a Orquestra da
Ópera de Berlim, sob a direção do maestro Leo Blech (queiram perdoar), quando surgiu em
nossa modesta mansão conhecida dama do mundanismo (e aqui somos obrigados a abrir mais um
parêntese para pedir encarecidamente a vocês que não confundam dama do mundanismo com
mundana simples, pois, embora seus processos sejam semelhantes, há uma diferença sutil
entre elas). Onde estávamos mesmo? Ah, sim... com a dama do mundanismo. Ela chegou e começou a
conversar muito animada e nós, na impossibilidade de desligá-la, desligamos Johannes
Brahms, ficamos a escutá-la. Vanja vai, Vanja vem, o assunto passou a ser imprensa. A
elegante senhora é com o perdão da palavra tarada por noticiário
policial. Quis saber se já fomos repórter policial, coisa que confirmamos com um leve
rubor a assomar na face, como são escolhidas as notícias sangrentas da imprensa idem,
quais os cobras dessa imprensa e outros blablablás. Da conversa que tivemos acho interessante passar aos distintos leitores, que me honram
com a sua preferência, alguns aspectos da história desses jornais que são impressos com
sangue e onde abundam os repórteres amásios do escândalo. E, se dizemos amásios e não
amantes, é para estar ao gosto deles. O repórter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que fala uma língua
especial, imposta pela contingência: quanto mais cocoroca, melhor. Assim como o locutor
esportivo jamais chamou nada pelo nome comum, assim tambem o repórter policial é um
entortado literário. Nessa classe, os que se prezam nunca chamariam um hospital de
hospital. De jeito nenhum. É nosocômio. Nunca, em tempo algum, qualquer vítima de
atropelamento, tentativa de morte, conflito, briga ou simples indisposição intestinal
foi parar num hospital. Só vai pra nosocômio. E assim sucessivamente. Qualquer cidadão que vai à policia prestar declarações que
possam ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar), é logo
apelidado de testemunha-chave. Suspeito é "Mister X", advogado é causídico,
soldado é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada
a vítima de um crime de costas ou de barriga pra baixo fica numa destas
duas incômodas posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral. Num crime descrito pela imprensa sangrenta a vítima nunca se vestiu. A vítima
trajava. Todo mundo se veste, tirante a Luz del Fuego, mas basta virar vítima de crime,
que a rapaziada sadia ignora o verbo comum e mete lá: "A vítima trajava terno azul
e gravata do mesmo tom". Eis, portanto, que é preciso estar acostumado ao métier
para morar no noticiário policial. Como os locutores esportivos, a Delegacia do Imposto
de Renda, os guardas de trânsito, as mulheres dos outros, os repórteres policiais
nasceram para complicar a vida da gente. Se um porco morde a perna de um caixeiro de uma
dessas casas da banha, por exemplo, é batata... a manchete no dia seguinte tá lá:
"Suíno atacou comerciário. Outro detalhezinho interessante: se a vítima de uma agressão morre, tá legal, mas se
ao contrário em vez de morrer fica estendida no asfalto, está
indefectivelmente prostrada. Podia estar caída, derrubada ou mesmo derribada, mas um
repórter de crime não vai trair a classe assim à toa. E castiga na página: "Naval
prostrou desafeto com certeira facada." Desafeto para os que são novos na
turma devemos explicar que é inimigo, adversário, etc. E mais: se morre na hora,
tá certo; do contrário, morrerá invariavelmente ao dar entrada na sala de operações. De como vive a imprensa sangrenta, é fácil explicar. Vive da desgraça alheia, em
fotos ampliadas. Um repórter de polícia, quando está sem notícia, fica na redação,
telefonando pras delegacias distritais ou para os hospitais, perdão, para os nosocômios,
onde sempre tem um cumpincha de plantão. O cumpincha atende lá, e ele fala: "Alô,
é do Quinto? Fala Fulano. Alguma novidade? O quê? Estupro? Oba! Vou já para aí".
Ou então é pro pronto-socorro: Alô. É Fulano, da Luta. Sim. Atropelamento? Ah... mas
sem fratura exposta não interessa". E há também a concorrência entre os coleguinhas da crônica sangrenta. Primo
Altamirando, quando trabalhou nesse setor, se fez notar pela sua indiscutível capacidade
profissional para o posto. Um dia, ele telefonou para o secretário do jornal: Alô, quem está falando é Mirinho. Olha, manda um fotógrafo aqui na estação
de Cordovil, pra fotografar um cara. Que é que houve? Foi atropelado pelo trem, está todo esmigalhado. Vai dar uma fotografia linda
para a primeira página. O cadáver está sem cabeça? Não. Então não vale a pena. Não diga isso, chefe. Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de
arrancar a cabeça do falecido. Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava na fronteira
montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da alfândega
tudo malandro velho começo a desconfiar da velhinha. Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou
ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela: Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí
atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco? A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela
adquirira no odontólogo, e respondeu: É areia! Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha
saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e
dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela
montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás. Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no
outro com moamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na
lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela
levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante
um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no
saco era areia. Diz que foi aí que o fiscal se chateou: Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço.
Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é
contrabandista. Mas no saco só tem areia! insistiu a velhinha. E já ia tocar a
lambreta, quando o fiscal propôs: Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo,
não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a
senhora está passando por aqui todos os dias? O senhor promete que não "espáia"? quis saber a velhinha. Juro respondeu o fiscal. É lambreta. Tinha um linguajar difícil, o Latricério. Já de nome era ruinzinho, que Latricério
não é lá nomenclatura muito desejada. E era aí que começavam os seus erros. Foi porteiro lá do prédio durante muito tempo. Era prestativo e bom sujeito, mas
sempre com o grave defeito de pensar que sabia e entendia de tudo. Aliás, acabou
despedido por isso mesmo. Um dia enguiçou a descarga do vaso sanitário de um apartamento
e ele achou que sabia endireitar. O síndico do prédio já ia chamar um bombeiro, quando
Latricério apareceu dizendo que deixassem por sua conta. Dizem que o dono do banheiro
protestou, na lembrança talvez de outros malfadados consertos feitos pelo serviçal
porteiro. Mas o síndico acalmou-o com esta desculpa excelente: Deixe ele consertar, afinal são quase xarás e lá se entendem. Dono da permissão, o nosso amigo até hoje ninguém sabe explicar por quê
fez um rápido exame no aparelho em pane e desceu aos fundos do edifício, avisando
antes que o defeito era "nos cano de orige". Lá embaixo, começou a mexer na caixa do gás e, às tantas, quase provoca uma
tremenda explosão. Passado o susto e a certeza de mais esse desserviço, a paciência do
síndico atingiu o seu limite máximo e o porteiro foi despedido. Latricério arrumou sua trouxa e partiu para nunca mais, deixando tristezas para duas
pessoas: para a empregada do 801, que era sua namorada, e para mim, que via nele uma
grande personagem. Lembro-me que, mesmo tendo sido, por diversas vezes, vítima de suas habilidades,
lamentei o ocorrido, dando todo o meu apoio ao Latricério e afirmando-lhe que fora
precipitação do síndico. Na hora da despedida, passei-lhe às mãos uma estampa do
American Bank Note no valor de quinhentos cruzeiros, oferecendo ainda, como prêmio de
consolação, uma horrenda gravata, cheia de coqueiros dourados, virgem de uso, pois nela
não tocara desde o meu aniversário, dia em que o Billo americano do 602a
trouxera como lembrança da data. Mas, como ficou dito acima, Latricério tinha um linguajar difícil, e é preciso
explicar por quê. Falava tudo errado, misturando palavras, trocando-lhes o sentido e
empregando os mais estranhos termos para definir as coisas mais elementares. Afora as
expressões atribuídas a todos os "malfalantes", como "compromisso de
cafiaspirina", "vento encarnado", "libras estrelinhas", etc.,
tinha erros só seus. No dia em que estiveram lá no prédio, por exemplo, uns avaliadores da firma a quem o
proprietário ia hipotecar o imóvel, o porteiro, depois de acompanhá-los na vistoria,
veio contar a novidade: Magine, doutor! Eles viero avalsá as impoteca! É claro que, no princípio, não foi fácil compreender as coisas que ele dizia mas com o tempo, acabei me acostumando. Por isso não estranhei
quando os ladrões entraram no apartamento de Dona Vera, então sob sua guarda, e ele veio
me dizer, intrigado: Não compreendo como eles entraro. Pois as portas tava tudo
"aritmeticamente" fechadas. Tentar emendar-lhe os erros era em pura perda. O melhor era deixar como estava. Com sua
maneira de falar, afinal, conseguira tornar-se uma das figuras mais populares do
quarteirão e eu, longe de corrigir-lhe as besteiras, às vezes falava como ele até, para
melhor me fazer entender. Foi assim no dia em que, com a devida licença do proprietário, mandei derrubar uma
parede e inaugurei uma nova janela, com jardineira por fora, onde pretendia plantar uns
gerânios. Estava eu a admirar a obra, quando surgiu o Latricério para louvá-la. Ainda não está completa disse eu falta colocar umas persianas
pelo lado de fora. Ele deu logo o seu palpite: Não adianta, doutor. Aí bate muito sol e vai morrê tudo. Percebi que jamais soubera o que vinha a ser persiana e tratei de explicar à sua moda:
Não diga tolice, persiana é um negócio parecido com venezuela. Ah, bem, venezuela repetiu. E acrescentou: Pensei que fosse "arguma pranta". Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula ele me conta. Trouxe o cachorro de
presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra
isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de
educação. Mas o cachorro era um chato desabafou. Desses cachorrinhos de caça, cheios de nhenhenhém, que comem comidinha especial,
precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isso não bastasse,
implicava com o dono da casa. Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas quando eu entrava em casa vinha logo
com aquele latido fininho e antipático, de cachorro de francesa. Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram
o ministro, mas, quando estão com o ministro, ficam mais por baixo que tapete de porão.
Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava
ameaçador, mas, quando a patroa estava perto, abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo. Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava
comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o
"pobrezinho". Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga
de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de
sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando
insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino.
Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma
espinafração da mulher. Você é um desalmado disse ela, uma vez. Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O
cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no
feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior.
Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em
cima do vestido novo de sua mulher. Aí mandaram o cachorro embora? perguntei. Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora
cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência. Ué... mas você não o detestava? Como é que ainda arranjou essa sopa pra ele?
Problema de consciência explicou: O pipi não era dele. E suspirou cheio de remorso. Diz que eram dois leões que fugiram do jardim zoológico. Na hora da fuga cada um
tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca
e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém
encontrou. Tinham sumido, que nem o leite. Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente
o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso
pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no jardim zoológico outra vez,
porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado
do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi
reconduzido à sua jaula. Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da
cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o jardim zoológico gordo,
sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt, que,
para certas coisas, também é leão. Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro
coleguinha: Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo
todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir
arrego, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você... vá, diz
como foi. O outro leão então explicou: Eu meti os peitos e fui me esconder numa
repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele. E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários? Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu
cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários
diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho...
me apanharam. Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos
escuros, era quase impossível a qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No
local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à guisa de senha. Parou
debaixo do poste, acendeu um cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas.
Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a
gravata e cuspiu de banda. Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O
outro sorriu e se aproximou: Siga-me! foi a ordem dada com voz cava. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O
outro entrou num beco úmido e mal-iluminado e ele a uma distância de uns dez a
doze passos entrou também. Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na
frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa
janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente. Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma
mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas
humildes e ar de agricultor parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou porém
quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse:
"É este". O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este
passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro. Um aceno de cabeça foi a
resposta. Enfiou a mão no bolso, tirou um bolo de notas e entregou ao parceiro. Depois
virou-se para sair. O que entrara com ele disse que ficaria ali. Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua
mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para
determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar
para a mulher: Julieta! Ó Julieta... consegui. A mulher veio lá de dentro euxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O
marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que
o marido conseguira mesmo. Ali estava: um quilo de feijão. Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito se os ditos ditos não
funcionassem, dito o que, acrescento que há um dito que não funciona ou, melhor dito, é
um dito que funciona em parte uma vez que, no setor da ignorância, o dito falha, talvez
para confirmar outro velho dito: o do não-há-regra-sem-exceção. Digo melhor: o dito
mal-de-muitos-consolo-é encerra muita verdade, mas falha quando notamos que ignorância
é o que não falta pela aí e, no entanto, ninguém gosta de confessar sua ignorância.
Logo, pelo menos aí, o dito dito falha. Tenho experiência pessoal quanto à má-vontade do próximo para com a própria
ignorância, má-vontade esta confirmada diversas vezes em poucos minutos, graças a uma
historinha vivida ao lado do escritor Álvaro Moreira, num dia em que fomos almoçar
juntos, na cidade. Já não me lembro qual o motivo do almoço. Lembro-me, isto sim, que íamos
caminhando, quando Alvinho disse, em voz alta: Leônio Xanás. O quê? perguntei, e Alvinho explicou que Leônio Xanás era o nome do
pintor que estava pintando seu apartamento. Até me mostrou um cartãozinho, escrito
"Leônio Xanás Pinturas em Geral Peça Orçamento". Hoje acordei com o nome dele na cabeça. A toda hora digo Leônio Xanás
contava o escritor. Ainda agorinha, ao entrar no lotação, disse alto
"Leônio Xanás" e levei um susto, quando o motorista respondeu: "Passa
perto". Ele pensou que eu estava perguntando por determinada rua e foi logo dizendo
que passa perto, sem, ao menos, saber que rua era. Foi aí que nos nasceu a vontade de experimentar a sinceridade do próximo e nos nasceu
a certeza de que ninguém gosta de confessar-se ignorante mesmo em relação às coisas
mais corriqueiras. Entramos numa farmácia para comprar Alka-Seltzer (pretendíamos tomar
vinho no almoço) e Alvinho experimentou de novo, perguntando ao farmacêutico: Tem Leônio Xanás? Estamos em falta foi a resposta. Saímos da farmácia e fomos ao prédio onde tem escritório o editor do Alvinho. No
elevador, nova experiência. Desta vez quem perguntou fui eu, dirigindo-me ao cabineiro do
elevador: Em que andar é o consultório do Dr. Leônio Xanás? Ele é médico de quê? Das vias urinárias apressou-se a mentir o amigo, ante a minha titubeada. Então é no sexto andar garantiu o cara do elevador, sem o menor remorso. E se
não tivéssemos saltado no quarto andar por conta própria, teria nos deixado no sexto a
procurar um consultório que não existe. E assim foi a coisa. Ninguém foi capaz de dizer que não conhecia nenhum Leônio
Xanás ou que não sabia o que era Leônio Xanás. Nem mesmo a gerente de uma loja de
roupas, que geralmente são senhoras de comprovada gentileza. Entramos num
elegante magazine do centro da cidade para comprar um lenço de seda para presente. Vimos
vários todos bacanérrimos, mas para continuar a pesquisa indagamos da
vendedora: Não tem nenhum da marca Leônio Xanás? A mocinha pediu que esperássemos um momento, foi até lá dentro e voltou com a
prestativa senhora gerente. Esta sorriu e quis saber qual era mesmo a marca: Leônio Xanás repeti, com esta impressionante cara-de-pau que Deus me
deu. Madame voltou a sorrir e respondeu: Tínhamos, sim, senhor. Mas acabou. Estamos
esperando nova remessa. Foi uma pena não ter. Compramos de outra marca qualquer e fomos almoçar. Foi um
almoço simpático com o velho amigo. Lembro-me que, na hora do vinho, quando o garçom
trouxe a carta, Alvinho deu uma olhadela e disse, em tom resoluto: Queremos uma garrafa de Leônio Xanás tinto. O garçom fez uma mesura: O senhor vai me perdoar, doutor. Mas eu não aconselho
esse vinho. Devia ser uma questão de safra, daí aconselhar outro: O Ferreirinha não serve? Servia. É irmãos, mal de muitos consolo é, mas ignorante que existe às pampas, ninguém
quer ser. From Dois Amigos e um Chato, Editora Moderna Ltda, São
Paulo, Brazil - In the original the short crônicas were called: Dois amigos
e um chato, A vontade do falecido, Inferno Nacional, Repórter policial, A velha
contrabandista, Latricério (Com o perdão da palavra), Fábula dos dois leões, Conto de
mistério, A ignorância ao alcance de todos.10 Crônicas
by
Stanislaw Ponte Preta
Two friends
and a bore
The dead
man's wish
National hell
Police reporter
The smuggling
old lady
Latricério
False proof
The fable of
two lions
Mystery
story
We are out
of Xanás