Brazil - Brasil - BRAZZIL - News from Brazil - Tres contos por Tereza Albues em Português - Brazilian Literature - Portuguese Language - November 2002



 

Brazzil
Literature
November 2002

The Angel's Fable

The angel proved to be an insatiable satyr, I abandoned the
bad witch's armor and surrendered to the pleasures of paradise.
I kept the sharp nails to scratch the satin skin of the
angel, who in turn sunk teeth and tongues
 into my breasts, abdomen, clitoris.

Tereza Albues

Na sala clara o gato dorme. Pousa a cabeça entre as patas, ressona. Contra a luz da janela seu corpo é uma sombra parda de pelos fofos. A manhã indecisa infiltra-se pelas venezianas e na nossa vida, suave. Será um dia como outros nesta praia quase deserta de ares da cidade. Quase deserta. Levanto-me, escancaro a cortina, sondo o céu azul, desenhos abstratos. Tomo café, saio, chapéu, sandálias, short, camiseta estampada, um livro. Vou me sentar à beira-mar, no banco de sempre, contemplando a paisagem que não muda. Paisagem estática que se contrapõe ao movimento das ondas provocantes. Gosto do vaivém belicoso. É a vida tentando quebrar a monotonia deste recanto de férias, oscilando entre o fim da primavera e o começo do verão. Neste intermezzo de estação e ambivalências, ponho-me a pensar em Jerome, no dia em que nos separamos. Dia nada especial para a natureza. Para nós o rompimento definitivo dos fios esgarçados da nossa relação, insustentável. Foi assim como a última distensão do elástico que já perdeu a flexibilidade, estala ossos que não tem, geme, arrebenta nervos, não suporta mais a tensão. Que não fosse o elástico, seria uma corda de embira, rota, como aquela que bamboleia no cais obsoleto do King Bay. Ambos sem serventia. Na essência e no contexto. Não sei porque estou aqui a buscar imagens, símbolos, metáforas, que em nada me ajudam na cura dos ferimentos da alma. Talvez esteja tentando visualizar sentimentos, talvez ao lhes dar aparência material, seja mais fácil lidar com a dor. Vê só? Os artifícios de que nos valemos na hora em que nos vemos desamparados. E por que não? Tudo é válido quando se tem o vácuo deixado pelo amor que se supunha eterno. Se bem que conferir eternidade a pactos humanos foi duma ingenuidade de querubim. Lábios roxos, bochechudos, cabelos encaracolados de inocência. Mas Jerome me dava essa sensação. Mesmo quando mentia. Era demais a pureza de propósitos. De arrepiar a pele do mais insensível mortal. Ou a pele sedosa de violeta entreaberta, ainda virgem de abelhas. Ou a do botão fechado de lírio-do-campo, trêmulo de pudor.

Jerome era belo e consistente. Na mentira? Tenho dificuldades em rotular suas ações. Hoje não sei se era falsidade premeditada. Porque ele não parecia um ator representando um personagem. Como nos anfiteatros da Grécia antiga, a máscara que trazia pregada na cara, era ele. Em carne e osso. Ele era o personagem. Que amava, sofria, gargalhava, conforme as experiências vivenciadas. Ele devia acreditar no que fazia. Por isso a candidez. Mentira sincera, existe isso? Se não existe, Jerome inventou o gênero. Ele podia criar acontecimentos e emoções com tamanha engenhosidade e realismo que o expectador ficava fascinado. Ele era todo sedução e carisma. Seus olhos verdes brilhavam de esmeraldas, a expressão serenava, os gestos davam vida às palavras. Promessas, declarações de amor, planos, trabalho, a família, colegas, viagens, aventuras da adolescência. Tudo. Uma certa graça o envolvia, ele se tornava quase translúcido, angelical mesmo, as estórias fluíam leves. De uma leveza de asas de borboletas, pirilampos, anjos peraltas brincando de esconde-esconde entre constelações invisíveis.

Falando de anjos.

Eu os encontrei num desfile de Halloween na Washington Square. Um grupo de cinco rapazes e duas moças, entre eles, Jerome. Longas batas de cetim salpicadas de estrelas prateadas, asas compridas, penas macias de garça, auréola de brocado fosforescente. Eu e duas amigas, feiticeiras negras, rostos verdes, chapéus pontudos, unhas postiças, vassouras de palha, dançando ao redor de fogueiras imaginárias. Começamos a conversar, separamo-nos do restante do grupo, varamos a noite juntos percorrendo os bares lotados e barulhentos de Manhattan. Divertimo-nos enormemente. Amanheci no apartamento dele, na Marks Place, no East Village. Minha fantasia de bruxa dormia no chão, debaixo das asas e vestes do anjo nu, que agora me abraçava entre almofadões indianos. Ele tinha a cara verde, eu estava coroada de estrelas. Fizemos amor repetidas vezes. O anjo revelou-se um fauno insaciável, eu larguei a couraça de bruxa malvada e me entreguei aos prazeres do paraíso. Conservei as unhas afiadas para arranhar a pele acetinada do anjo que por sua vez cravava dentes e línguas pelos meus seios, ventre, clitóris. Tesão, gemidos, sussurros. O corpo atlético de Jerome, inventivas sexuais, orgasmos nunca sentidos. Eu disse, ele também. Nenhuma mulher como eu. Homem nenhum como ele. Não mais nos separamos a partir daquele momento. Nossa paixão, como fogo sagrado, nos envolvia mais que o corpo, a alma. Tornamo-nos amantes, parceiros, cúmplices, num pacto secreto de felicidade infinita. Ah, como foram maravilhosos os dias do East Village...

Dias longínquos e rarefeitos no tempo. Como a névoa que vem surgindo no horizonte desta praia quase deserta. Quase deserta dos ares da cidade. Não das lembranças.

Jerome nascera em New Orleans. Quando tinha dois anos, a família se mudou para a Califórnia. Tinha uma única irmã de nome Geraldine, antropóloga, trabalhando num projeto no Kenia. Os pais, Gregory e Violet Porter, eram ricos proprietários de grandes fazendas, gados, plantações. Ele estudara Sociologia em Berkeley mas em pouco tempo descobriu que sua vocação era outra. Queria ser fotógrafo. Interessara-se por fotografia desde os sete anos, quando ganhara a primeira câmara, presente de aniversário do avô Barnard. Tinha caixas e caixas de fotografias acumuladas durante anos. Viera para New York, matriculara-se na Escola de Artes Visuais e pouco depois trabalhava como freelance no Village Voice e Daily News. Nunca passara apertos financeiros. Se não aparecia trabalho, a família o ajudava prontamente. Assim ele vinha vivendo há dois anos, com um certo conforto, não podia se queixar. Mas o seu sonho mesmo era fazer fotografias de arte, ter o próprio estúdio, ser conhecido internacionalmente. Para isso vinha se esforçando enormemente. Estudava muito, não perdia exposições de fotógrafos famosos nas galerias do Soho, procurava estar inteirado de todos os movimentos e novidades nesse campo. Freqüentava workshops e estava sempre fotografando. Usava câmaras sofisticadas, tentando obter efeitos originais e surpreendentes. Vou conseguir o que quero, disse-me certa vez, acredito no meu sonho. Eu não duvidei.

Tudo isso ele me contou.

Averiguar nem se eu quisesse.

Andava muito ocupada com a minha tese de mestrado em Literatura na N.Y.U., trabalhava trinta horas por semana na Barnes & Noble, fazia economias pra poder pagar as contas no fim do mês: aluguel, luz, telefone, etc. Dividia um sala e quarto com Marion, uma aspirante a atriz, outra que tinha de se desdobrar para se equilibrar nas finanças. Vim duma família classe média, estudei às custas de bolsas e empréstimos bancários, desde cedo venho lutando pra conseguir meu ideal: ser escritora. Eu também tenho um sonho. Jerome entendeu.

Foi o que eu lhe contei.

Pura e simples, a verdade.

Depois me contaram. Outra versão do que ele havia me contado. Os pais de Jerome, simples funcionários do City Hall, moravam em Brooklyn, numa casa modesta. Era filho único. Geraldine, uma fotógrafa que trabalhava para a National Geographic Magazine, a amante mais velha, bem sucedida que o sustentava. Ele passava os dias perambulando por Manhattan, em cinemas, galerias, barzinhos, enquanto ela viajava a trabalho pela Europa. As fotografias artísticas que havia me mostrado, como sendo tiradas por ele, mentira. Eram de Geraldine Jordan.

Tudo isso me foi dito pelo seu amigo Michael.

Um dos anjos do Halloween.

E, por coincidência, na Washington Square. Quando um dia nos cruzamos, casualmente. Eu voltava da Barnes & Noble, ele da N.Y.U. onde estudava Direito. Relembramos o desfile, a conversa recaiu sobre Jerome e ele desfiou a história, espontâneo e natural, os olhos plácidos de cordeiro, fitando-me sem piscar. Escutei-o em silêncio. Despedi-me, estou com pressa, tenho um compromisso. Nem sei se notou meu desconcerto ou o desconcerto das águas em que eu me debatia, esquecida de nadar. Bye-bye. See you soon. Michael ficou no meio da praça, penso que boquiaberto, não olhei pra trás. Eu me fui na direção da Fifth Avenue, enxergando nada que não fosse o desespero íntimo. Olhos secos, de lágrimas nem notícias. De vez em quando apenas um anjo desnudo cruzava minha retina, gargalhando. Apressava o passo cego, meus pés e meu coração conheciam o único caminho que naquela hora eu deveria tomar. O caminho de casa. Cheguei ao meu apartamento do Chelsea, tremendo de frio, em pleno verão.

A noite em claro, a noite clara como esta sala clara.

O dia amanhecendo. O dia da confrontação.

Manhã nada indecisa. Confrontei-o.

Jerome me olhou como se não soubesse do que eu estava falando. Escutou em silêncio, mão no queixo, sereno. Quando terminei, um sorriso brando brotava em seus lábios sensuais. Aquele tipo de sorriso complacente, misto de ironia e candura de quem se coloca numa posição superior em qualquer controvérsia. Segurou minhas mãos, beijou-as, você está equivocada, meu amor. Michael estaria mentindo? Não exatamente. Porque é assim que ele desenvolve seu raciocínio para compor minha história. Trabalhando com dados imaginários, constrói uma fábula que pensa corresponder à realidade dos fatos. E, de tanto recontá-la, angariou uma legião de adeptos que acreditam na veracidade da narrativa. A repetição alegórica é um mantra poderoso. Se você perguntar a qualquer um dos meus amigos, eles vão confirmar a palavra de Michael. Todos eles me vêem sob a mesma ótica. Acontece que não participo desse enredo criado à minha revelia. Sou construtor da minha própria fábula. Posiciono-me no mundo da maneira que desejo me ver e agir e sonhar. Sinto-me livre para criar e transformar a trajetória do meu destino. O que lhe contei é a minha verdade. Que é a única. Porque somente eu, a semente-matriz da fábula, pode conhecê-la. O resto não passa de projeção alheia.

Assim ele se defendeu. Poeticamente.

Ambiguamente. Dentro da sua estranha filosofia, olhando-me altivo. Belo e consistente...

Não fosse o telefonema de Geraldine, eu estaria até hoje, quem sabe? Naquele estado indefinido, suspensa entre a sedução de uma verdade inventada e a realidade conhecida por todos os conhecidos de Jerome. Porque eu não tratei de investigar nada. Não sei se por falta de ânimo ou de coragem. Talvez não quisesse encarar as asperezas do avesso da fábula. Talvez porque quisesse prolongar o quanto possível uma situação que, embora eu suspeitasse fictícia, proporcionava-me tanta felicidade. Recolhi-me. Aliás, recolhemo-nos. No refúgio de nossa privacidade, isolados. Paredes de aço, à prova de fogo, raio, bala, intrigas. Ali estaríamos, segundo Jerome, a salvo da projeção alheia.

Estratégia mais do que ingênua, fugaz.

O telefonema de Geraldine Jordan conseguiu abrir crateras na superfície da pseudo fortaleza. Com uma facilidade de estarrecer. Caiu como uma granada. Que não chegou a explodir porque a intenção era apenas me prevenir do perigo. Largue o meu homem senão... Seu homem? Aí ouvi o relato completo do caso de amor deles, que já durava três anos. Desta vez eu compreendi.

A mensagem era clara como a sala clara.

Onde não cabe mais o verbo ressonar.

O gato acorda, espreguiça-se, arregala os olhos amarelos, contempla seu reflexo na vidraça, assusta-se. Salta entre as poltronas, pêlo ouriçado, atento. Enrosca-se na cortina, espreita o “outro”, no qual não se reconhece. As orelhas, par de antenas sensíveis, a captar o possível inimigo, retesadas. Vigilância e astúcia. Imóvel a mirar a imagem daquele que nunca lhe foi mostrado como sendo ele—o gato pardo que em si não percebe. Como se precaver do choque da projeção de si mesmo? Nem os humanos.

Cena pré-fabricada. Escape que engendro pra cortar o fio do que ainda me conecta a um estado eletrizante. Do qual eu não soube e nem quis escapar no instante em que reconheci a necessidade do pulo. Como posso antecipar os movimentos e reações do felino alerta, se a eles me desassemelho na lassidão e destino?

Se ainda continuo na praia quase deserta, desguarnecida? Ah, os vôos da imaginação... A gaivota que vai sumindo no horizonte me lembra o anjo de outrora. Qual será seu disfarce no próximo Halloween? Uma ventania sopra inesperadamente, o céu se turva, parece que vai chover. Na praia, o vento em redemunhos, assovia sons estridentes. Ao longe, entre névoas de areia, vêm surgindo vultos indistintos que aos poucos vão adquirindo formas e movimentos. São os vampiros, freiras, garçonetes, demônios, palhaços, anjos, príncipes, pierrôs, arlequins da Washington Square, dançando frenéticos. Cantam, gritam, gargalham, loucos de alegria, como na noite antiga em que participei do desfile. A atmosfera é igual na aparência e sortilégio. Onde está o grupo de feiticeiras? De repente, no meio da multidão delirante, uma mulher de negro, cara verde, chapéu pontudo, me acena. Estremeço. Tenho a sensação de estar diante dum imenso espelho observando meu reflexo vivo que continua a atuar na outra margem do tempo. Preciso desfazer a conexão, se quero alcançar a serenidade. Desvio o olhar para o vaivém das ondas, o céu escuro, a praia quase deserta. A chuva começa a cair. Levanto-me do banco, pego a bolsa e o livro que não li, vou me embora do passado.

Um barco se solta do cais.

As amarras se dissolvem entre seixos e algas.

I Wonder Where Are You

How to find what you are not looking for? It's scary.
Chimeras, was it a bar's name or something
I nurtured inside myself?

Tereza Albues

Era uma tarde, nem morna, nem púrpura. Devassa. Pela fresta da janela a luz baça entrava e saía com uma intimidade de clientes em cabarés baratos. Nenhuma senha, contrasenha, reservas antecipadas. Os gestos aconteciam e se sucediam com uma libertinagem assombrosa. Transeuntes desocupados ou empenhados em alguma tarefa tardia ou escusa, ou mesmo obtusa, avançavam sem pudor, nas entrelinhas do desejo. Nas calçadas movimentadas, pernas, calças, saias, sapatos baixos, altos, sandálias, mocassins, tênis, tamancos, botas abafadas, ousadas, de doer. Nos olhos de verniz e no baque surdo do calcanhar. No andar suado, excitado, o resfolegar das têmporas, narinas abertas, ouvidos moucos, zunidos abstratos. Quantos sobressaltos! Quanta falta de senso, contra-senso, contraponto. Na esquina da rua Augusta, nem tão astuta quanto quer parecer, a moça ausculta. Vem do interior, ausculta. O tempo, nem tanto. O tampo do esgoto aberto, detritos escorrendo vadios, gosmentos. No ar o odor pestilento, na cara a dor macilenta. Nos ônibus e táxis lotados, um sinal de que a vida se comprime. Como o espaço que divide com outras moças esperançosas. Não há vaga. Nem nos empregos nem no coração de alguém nem na cidade caótica nem nas sarjetas escorregadias. O disponível é um ponto que não se alcança. Nem por acaso. O ocaso talvez. Dependendo do ponto em que se encontra. O sol se põe à distância. As luzes em breve vão se acender. Acenos da vida noturna. Outra face do cotidiano. Outra perspectiva do humano. Em busca de si mesmo, ou do deus no qual não acredita. A noite começa a cair. A cortina desce. De seda transparente e cinza, desce. Afaga os dissabores, entrava humores, ameniza dores profundas. Ungüento. Reavivam-se as esperanças. Quem sabe esta noite. Na avenida movimentada, encontrarei o que procuro. Mas se nem sei o que procuro. Como encontrar o que não se busca? Assusta. Quimeras, era o nome do bar ou o que eu embalava dentro de mim, como uma canção que nem era de ninar, mas que tinha uma entonação de rede balançando, num rancho de palha de minha infância? Ah, se eu disesse isso para as colegas paulistas…Tão longe da realidade delas, tão próximo da minha história, tão distante do meu presente…O que nos colocaria numa igualdade sem igual. Quer contradição maior? Em plena São Paulo das garoas decantadas, quem se assombra? O cinzento da cidade é dúbio, como dúbia é nossa estadia neste planeta. Caio Fernando Abreu que o diga. Onde quer que ele esteja. E quem sabe me inspira neste momento? Comecei a escrever um conto, depois virou crônica, depois virou o que virou, nada. Ou seja, nenhum gênero específico. Mas quem precisa se especificar? Afora os americanos do norte, que dizem na cara do latino estupefato: Be specific!—porque não conseguem lidar com a obra aberta da vida—afora eles, não é Caio? Quem precisa de? Ora, direis, vamos ouvir besteiras. Estrangeiras ou caseiras. E a noite cai, sem alternativas outras que não essa. As leis da natureza também tendem a ser específicas. E a nossa emoção e necessidades imediatas que se acomodem ao noturno. O tom do quadro se altera por conta e risco. O sombreado entra no cenário à nossa revelia. E a garota que pensa ser vivida, entra no redemoinho da cidade. Corpo e alma. Entrega-se às vibrações do irresistível, previsível até certo ponto. Perambulará pela noite sem destino. Pelos bares e inferninhos, vinhos, vodkas, cigarros. Marlboro, Camel, Hollywood. O mundo é vasto. De incongruências, amores, traições, rancores, boas trepadas, dores de cotovelo e boleros e melodramas e sacanagens e beberagens infindas. Papos moles, soltos, tensos, banais, pseudo-intelectuais, deitando falação, aumentando a poluição do ar. Ar enfumaçado. Garoa virando chuva. Vento gelando esperanças. Porres à vista. Na esquina, mendigos pedem esmola para a cachaça. Outros apenas pra sobreviver. Alguns nem dizem pra quê. A mão estendida, o olhar vago, a expressão empedrada de esfinge tropical. Um acordeão antigo murmura Astor Piazzola, a música passa despercebida. À tragédia dos tangos se sobrepõe a miséria concreta de todo o dia. O som se mistura a outros restos de melodias e se perde pela noite anônima. Um travesti passeia e se exibe pela avenida, ponta a ponta, fuma o último cigarro, gesticula, ninguém parece percebê-lo. O tempo urge, a vida exige, a fome não espera, o aluguel atrasado, o telefone cortado, queixar-se a quem? Ao bispo, é piada caduca. O travesti, conhecido como Liana, redobra nos requebros, exagera o batido do salto das botas nas calçadas frias. Ressonâncias apelativas, no exercício do velho ofício. Nenhuma artimanha surte efeito. Ódio acumulado. Desgraça de profissão. Pelos becos o negrume, estrume, picadeiro de circo pobre, desmontado às pressas, a trupe aboletada nos caminhões, à deriva da sorte. Há um clima ambíguo de luz e dor e sombras e solidão e gritos e risos e um leve tremor de terra insone. Exausta, Liana está a ponto de desistir. Na última tentativa, um carro pára, ela entra, o rádio está tocando "Vida Breve" de Cazuza. O homem pergunta, gosta da música? Adoro. Pois eu odeio, rosna o homem. Meia-idade, terno e gravata, careca. Desliga o rádio. Pisa fundo no acelerador. O perigo se anuncia na noite. Nem morna, nem devassa. Púrpura. Liana apalpa a navalha na bolsa, as longas unhas pintadas de vermelho-cintilante. O mesmo tom do seu baton Revelon.

The Cicadas' Island

The Cicadas' Island belonged to the cicadas.
This undesirable legion that plagued the island every year;
a legions with endless powers. Humans lived under their yoke.

Tereza Albues

O silêncio da ilha, ao escurecer, não é cortado abruptamente. Quase imperceptível, o som vem surgindo como um leve sussuro dos galhos de árvores, ao balanço do vento morno. Não é o volume do som; é o prenúncio do tempo de duração, que traz arrepios. A sensação de impotência. Nada vai estancar a sinfonia obssessiva; em breve o ar será tomado pelos estribilhos irritantes; o ar e as ruas, o corpo, o ouvido, a mente, a vida dos habitantes da ilha. A sinfonia começa com acordes delicados, em diversos pontos; a desconexão das notas dá a falsa idéia de que tudo não passa de ruídos isolados; ruídos de inofensivos insetos espalhados pela folhagem. O verde da ilha é abundante, espesso, adocicado. Natural que atraia inúmeros e variados espécimes. Seria natural, não fossem os espécimes, da mesma família. São. Nesta hora. E parecem estar unidos por um minúsculo eletrodo localizado no extremo das suas antenas sensíveis. Que ao primeiro sinal, aciona um movimento sincrônico, comandado por maestros invisíveis; a música se espalha como ondas mansas pela areia macia; cresce e se transforma em vagas aflitas, os prováveis náufragos que se acautelem. Não se sabe se por instinto, ou se governadas por uma inteligência superior, as cigarras são duma disciplina de fazer inveja a muitos monges em anos de clausura. Com precisão e cadência, assestam as baterias sonoras, como poucas academias militares saberiam precisar. A cronometria da orquestra é impecável. Nenhuma falha ou intervalo ocioso; conspiração de Primeiro Mundo. Já é noite. Ninguém dorme. O zumbido estridente pretende continuar ininterrupto até de madrugada. Tortura chinesa, na repetição da melodia, para os homens. Japonesa, pelo arakiri vocal, para as cigarras. Muitas amanhecerão mortas. Nas calçadas, seus corpos expostos ao sol; cinzentos, verde-escuros, cascudos, horrendos; os corpos; carregados ou não pelas formigas, varridos pelos empregados da limpeza pública, pelas donas de casa, alarmadas com a quantidade. Outros continuam grudados nas árvores; o pulmão seco, patas secas, asas encolhidas. Alguns abraçados ou agarrados às costas dos outros. Morreram copulando. Orgasmo mortal, o das cigarras. Extinguem-se du-ran-te, o que quer que estejam fazendo; o importante é não parar de exercitar as membranas musicais. À estranha compulsão, nada se interpõe. A forma de morrer parece obedecer a um páthos inevitável. Já nascem sabendo como vão terminar. Os machos, especialmente, que trazem, de nascença, uma bolsa musical no baixo ventre. Aceitam o destino trágico e a eles se entregam com a volúpia de heróis gregos. Nem todos. Ouvi dizer que num certo pomar italiano, várias cigarras se recusaram a entrar na sinfonia; fizeram greve de voz, protestaram. Foram cercadas e golpeadas na garganta por um esquadrão de machos enfurecidos; minutos depois os assassinos, lambendo as patas, se juntaram à maioria e foram morrer de tanto cantar. Conforme o costume herdado dos ancestrais ou a sina atávica, sem qualquer explanação lógica.

Uma única cigarra escapou ao massacre da Ilha de Capri. E veio pousar na Ilha que ela não sabia se chamar, das Cigarras. Pousou, peito arfante, o vôo longo, cansativo; mas os pulmões resistiram bem à travessia dos mares; os pulmões das cigarras são possantes; o que as matam, já se sabe, é a compulsão do canto. E Hunno, como ficou conhecida a cigarra exilada, tinha vontade férrea e determinação de propósitos. Morreria sim, um dia; mas de morte natural; esquecendo-se que, entre as cigarras, a morte natural era exatamente aquela da qual fugia. O fim comum dos seres de sua espécie.

Mas Hunno não era uma cigarra comum.

Por isso a rebelião, que culminou em fuga e exílio, o que lhe daria direito a asilo político, se humana fosse, a figura do fugitivo. Perseguido e ameaçado de morte no seu país, tinha todo o direito de invocar a proteção de um país estrangeiro. Tinha. Só que, a ilha em que pousou, inadvertidamente, não pertencia a nenhum país democrático, que respeita os direitos humanos, muito menos o direito de cigarras rebeldes, que têm a ousadia de ir contra a tradição secular dos Cicadídeos. A Ilha das Cigarras, pertencia às cigarras. Essa legião indesejável que infestava a ilha, anualmente; uma legião com poderes ilimitados. Os humanos viviam sob o seu jugo. Quanto ao silêncio noturno. Um jugo passageiro, como a vida das cigarras. No verão, apenas, é verdade, mas de domínio absoluto. O pesadelo daquele som esganiçado, constantemente a ferir os ouvidos dos moradores, seria capaz de desafiar a paciência milenar dos monges do Tibet. E Hunno chegou, exausto, desnorteado, em pleno verão; e pousou, aliviado, na Ilha que não sabia ser, das Cigarras. Era.

E a patrulha ideológica, que viceja

às claras ou às sombras

também nas sociedades

animais

ou

vegetais,

farejaria a pista.

E em breve marcharia à sua procura.

Uma cigarra expatriada, com idéias revolucionárias, poderia representar uma grave ameaça à Ordem e à Moral daquela comunidade. Desconheciam o treinamento de Hunno, mas presumiam que deveria ter tido mentores excepcionais de calibre internacional. Sabe-se lá de que táticas dispunha o subversivo? Tinha de ser eliminado antes que se infiltrasse entre as pacatas cigarras locais e as incitasse à desobediência. Morrer cantando é nosso lema, glória e tradição! bradaram os zelosos guardiões. E o Maestro (ou qual fosse o codinome do líder dos Cicadídeos), ordenou a caçada e extermínio do vil traidor. Tarde demais. O ISRUCC (Inteligência Secreta do Reino Unido das Cigarras Conservadoras) informou que em 48 horas o mal havia se alastrado, muitas cigarras mostravam sinais inequívocos de contágio. Diante do quadro alarmante, decidiram mudar o esquema da Operação Caçada. A ordem inicial foi revogada, por unanimidade.

E a falange alada, partiu com a missão

de trazer Hunno - VIVO!

Politicamente, o assassinato não seria a melhor solução. Segundo os informantes, a notícia de sua chegada e da atuação no levante de Capri, já havia se espalhado pela Ilha inteira; formavam-se comitês de apoio, assembléias populares, crescia o número de simpatizantes; àquela altura, transformá-lo em mártir, seria um erro de estratégia. O plano era prendê-lo e obrigá-lo a cantar até morrer, como qualquer cigarra comum.

Mas Hunno não era uma cigarra comum.

Considerava ignóbil procurar um fim que não desejava. Não acreditava em destino cego e se recusava a participar dum ritual que via claramente como suicídio em massa, semelhante à tragédia liderada por Jim Jones, nas Guianas. Não acreditava, não estava disposto, e não executaria a performance exigida por uma lei absurda. Fosse ela da Natureza, de Deus, ou dos Homens. Falou grosso, batendo as patinhas na areia molhada pela baba de seus algozes. Decidiram executá-lo ali mesmo, na praia, em plena manhã de sol. O despudor dos tiranos. Também não havia testemunhas...Moscas, mosquitos, caranguejos vadios, não contavam. Nem perceberam que do alto das dunas, um pintor solitário acompanhava a cena; em rápidos movimentos, traços firmes, passou para a tela o instante da execução. Tendo perpetuado o tempo e a ação na obra, desmontou o cavalete, enfiou tintas e pincéis na sacola de couro, saiu apressado. Carregando o quadro como se fosse um estandarte sagrado, atravessou a ilha, solene. Enquanto isso os carrascos lançavam à maré alta o corpo daquele que eles não desejavam, fosse mártir. A seguir, partiram em marcha lenta, zumbindo em coro - Que os tubarões devorem, o proscrito! Que os tubarões devorem, o proscrito! Não devoraram.

A maré baixou, o corpo de Hunno reapareceu,

todo prateado,

e foi visto por todas as cigarras da Ilha.

Muitas guardaram silêncio naquela noite.

In the original these short stories were called “A Ilha das Cigarras,” “A Fábula do Anjo,”and “Por onde andarás?”

Tereza Albues is a Brazilian writer from Mato Grosso who has lived in New York since 1983. She has four novels published in Brazil: Pedra Canga (Philobiblion, 1987) Chapada da Palma Roxa (Atheneu Cultura, 1991), A Travesssia dos Sempre Vivos (UFMT, 1993), O Berro do Cordeiro em Nova York (Civilização Brasileira, 1995). She has also a novel published in France - A Dança do Jaguar (Editions 00h00.com, 2000) and a novel published in the United States - Pedra Canga (Green Integer, 2001, trans. by Clifford E.Landers). In 1999 the author was one of five winners of Guimarães Rosa Short Story Competition, sponsored by Radio France Internationale, Paris, with her short story "A Bouquet of Tongues." She can be reached at Albuesny@aol.com 


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