Brazil - BRAZZIL - "Aida Arouche Magnocavallo" by Helena Silveira - Short story - Brazilian Literature - November 1997


Aída Arouche Magnocavallo

That torture with her name had started when she entered the French sisters' lycée. All the agrarian nobility educated their daughters there. Her own mother had studied there and could not think of any other education for Aída.

Helena Silveira

Aída, já no pórtico, beijou a mão de Mère Agnèse, fez uma graciosa reverência, viu-se com os olhos do espírito, tão distinta, a saia azul-marinho pregueada abrindo-se como as varetas de um leque. Foi a última a entrar no ônibus do colégio. Quedou-se entre Judite de Vasconcelos e Dorina Montalvão da Cunha. Todos os assentos estavam ocupados e mesmo sem volver a cabeça ela imaginava que a pequena Souto Vilela estaria ao lado de Maria Carlota Leme de Alcântara. Uma como que atraía a outra! Aliás era natural, cuidou Aída, pertencendo as duas às mais antigas famílias de São Paulo. Nesse instante preciso de seu raciocínio, veio-lhe a voz da governanta, assentada ao fim do carro, vencendo a distância:

—Parece que mademoiselle Magnocavallo será a última a descer. Sua rua em que bairro fica mesmo, mademoiselle?

E a menina a responder com dificuldade, sem voltar a cabeça, num vermelhão subindo-lhe ao rosto:

—No Bom Retiro, mademoiselle.

—Como se pode morar tão longe—ciciou a bela Judite, para logo em seguida declarar que, em compensação, ela seria a primeira a descer, pois morava ali mesmo, ao fim da Avenida Higienópolis.

—Quase que não precisava tomar o ônibus— aventou Aída, ligeiramente trêmula.

—Mamãe não gosta que eu ande a pé.

Dias passados, as duas meninas haviam sido designadas para colher flores a fim de enfeitar a capela. Aída aproximava-se do canteiro de lírios com uma grande tesoura, quando Judite indagou:

—De que família você é mesmo?

Sem titubear a companheira respondeu: —Sou dos Arouche de Campinas.

Com leve impertinência a outra redargüiu, deslocando um lírio da haste:

—Pois me parecia que a sua gente era italiana.

Com rapidez, quase comendo as palavras, Aída ciciou:

—De um lado apenas...

Sim, aquela tortura de seu nome começara com a matrícula no colégio de freiras francesas. Toda a nobreza agrária paulista lá educava as filhas. Sua própria mãe havia cursado a classe rouge e a classe blanche e achava que Aída não poderia ter outra educação. Ao primeiro dia de aula quando a freira da portaria a deixou no pátio de recreio, as outras alunas circundaram-na:

—Pra que classe você vai?

—Não sei ainda, mas acho que é para a verde.

—Qual é o seu nome?

Ela respondeu descuidadamente e ouvira risos abafados. Julgou, mesmo, ouvir de uma alta espinhenta:

—Gente cafajeste!

Ao princípio não entendeu, mas logo, mercê de conversas e comentários, verificou que a tratavam um pouco como se fora estrangeira.

—Mas meu pai só que é italiano! Minha mãe é brasileira e eu nasci aqui em São Paulo. As meninas se dispersavam erguendo os ombros e propunham logo jogos de amarelinha decretando que quem jogava primeiro era Maria Helena, em segundo lugar Eurídice, em terceiro Dorina, em quarto Maria Carlota. Alinhavam nomes e nomes, deixando-a sempre por último.

Aos poucos Aída foi compreendendo aquelas pequenas e orgulhosas hierarquias, foi achando justo que a relegassem. Quando entraram para sua classe Mafalda Mastrolongo e Karime Abibe, não entendeu logo que, pressurosamente fossem recebidas com aqueles nomes pelas Bulcão Pousada, Arruda de Albuquerque, Souto Vilela, Leme de Alcântara e toda a banda. Mais tarde, ao fim do dia, quando o ônibus parou à porta do palacete de Mafalda, na Avenida Paulista, começou a entender e, ao dia seguinte entendia por completo ao ver Karime enfiar-se num automóvel lapidado e longo, todo vernizes espelhantes, com dois chauffeurs no assento dianteiro e uma corneta acústica onde a menina dava ordens, muito enfática, o nariz comprido nascendo do traço espesso das sobrancelhas. Tratava-se de uma outra nobreza a deitar raízes na terra. Essa era uma nobreza de arrojo e de dinheiro, mas pelo luxo que podia ostentar, pelas posições políticas que podia comprar, conseguia um lídimo pé de igualdade com a gente mais antiga. Aída percebia que as freiras pronunciavam Mastrolongo ou Abibe, com a mesma unção com que proferiam Castro do Vale ou Prado D'Altavila. Em casa ouvia o pai comentar com uma pronúncia cantada, as vogais bem abertas, no seu jeito alegre e simplório que as fábricas de Giuseppe Mastrolongo faziam-lhe uma renda maior que qualquer dos Estados brasileiros, excluindo-se São Paulo e que, Nagib Abibe estava a caminho de alcançá-lo.

Um dia, à hora da sopa a menina fitando o pai perguntou-lhe à queima-roupa:

—Por que o senhor não dá um jeito de abrasileirar o seu nome?

E fazendo que não via o espanto do pai, propôs:

—Qualquer coisa assim, em português, que lembre como parecença Magnocavallo: — Carvalho, Carvalhal, Carvalhais … —O pai sorriu, achou que aquela menina tinha cada idéia, mas cada idéia! Empurrava a esposa, mostrando a filha, embevecido—que estava ficando cada dia mais bonita, sim! E só isso não: inteligente, desembaraçada...

* * *

Entretanto, nunca se sentira Aída diminuída como aquela tarde no ônibus. Já devia ter-se habituado ao suplício de percorrer bairros chiques, parando diante de grades suntuosas, enquanto as companheiras desciam, convidavam-se umas às outras:

—Então você vem no sábado na hora do lanche, não é?

A ela ninguém convidava. Quem ia convidar Aída Magnocavallo se bem que com aquele Arouche envergonhado no meio? Para cúmulo do desespero, a superiora inventou a história de mandar a governanta acompanhá-las. Quando iam só com o chauffeur, a menina apenas dizia que ficava por último, morava longe, só o empregado era conhecedor da sua desdita: morar no Bom Retiro. Contudo, àquela tarde, cuidara adoecer, (ao ouvir a indagação da outra e o comentário calmo de Judite). E Judite desceu, em frente à última casa da Avenida Higienópolis, uma que tinha dois pequenos torreões ladeando o edifício, dando-lhe uma aparência de castelo francês de gravura. Já ao empurrar o portão, gritou para Maria Antonieta Prado Brandão:

—Amanhã, espero você para brincar, de tardinha. Aída nem via mais as criaturas. Quando entrava alguma nova aluna no colégio não lhe mirava o rosto, não lhe notava os modos, o falar. Ouvia-lhe, apenas, o nome. O mundo começou a dividir-se-lhe, na imaginação em Albuquerque, Leme de Alcântara, Prado Silva de um lado e, do outro, separados por barreiras, numa espécie de dependência de empregados, Magnocavallos, Barbettas, Fuscellas, de Grado e mais os de nomes sírios ou poloneses como daquele rapaz que morava na casa ao lado da sua, estudava violino e tinha olhos azuis.

O rapaz vizinho, já era uma outra história. Uma história acumpliciada de suspiros e perplexidades. Chamava-se Isac Werebeiczyk e, evidentemente, era de origem semítica. Foi o responsável por um caderno inteiro que Aída encheu com a elaborada caligrafia do colégio, mais ou menos assim: — Aída Arouche de Magnocavallo Werebeiczyk, Aída Arouche Werebeiczyk, Aída Werebeiczyk, Madame Werebeiczyk, Madame Isac Werebeiczyk. Filomena Arouche Magnocavallo e Andréa Magnocavallo—Lisa Wengorski Werebeiczyk e Samuel Werebeiczyk têm o prazer de comunicar a V. Exa. e Excelentíssima Família, o contrato de casamento de seus filhos, Aída e Isac. Entretanto, apesar de escrever isso tudo na mais heráldica das letras (as hastes dos "ll" ascendendo como lírios, os "uu" de base quadrada, os "aa" ovalados e altos), a mocinha resistia aos olhos azuis, boiando sobre o arco do violino e à mecha de cabelo inspirada, nadando na testa. Aqueles nomes acabrunhavam-na em demasia e acabrunhava-a o pai de Isac, fulvo nos pelos do rosto, nas mãos felpudas. Foi por essa altura, entretanto, que viu um filme passado num bairro judeu de Nova Iorque, sendo herói um violinista que, depois de muito penar pela arte, atingia o apogeu da fama e casava com uma Cynthia de "Park Avenue" cheia de pérolas e cachorrinhos pequineses. Até que a mãe do violinista era muito mais vulgar que Dona Lisa e o pai bem que valia o velho Samuel. Ao sair da matinê do Cine República, vendo o rosto de Isac nos cartazes, sobrepondo-se ao do astro, Aída esbarra nada mais nada menos com Maria Carlota Leme de Alcântara acompanhada de uma Fräulein esgalga e silenciosa. Venceu a timidez e a modéstia, encostou-se, confidencial, com a colega, de encontro aos anúncios, e indagou, mostrando com o ombro, o artista em três cores, empunhando o violino:

—Se fosse com você, você casava, apesar da gente dele? Fervorosa, Maria Carlota Leme de Alcântara respondeu:

—Casava.—E entrou num carro longo como o seu pescoço. Aída ficou a vê-la, através dos cristais, tão distinta, meu Deus do céu, tão distinta!

* * *

Sim, Aída Arouche Magnocavallo achou jeito de racionalizar o namorado, mas quem escapava a qualquer racionalização era seu próprio pai. Andréa continuava Magnocavallo. O que era indesculpável. E pior do que isso: não conseguia ganhar o dinheiro suficiente para ser perdoado de sua Calábria, da sua falta de etiqueta à mesa, fungando enquanto tomava sopa, e da sua pronúncia com vogais abertas como casas escancaradas em dias de sol.

—Mamãe, por que a senhora casou com Ele?—E aquele "Ele" era evidentemente admoestação de malfeitoria.

—Casei porque gostei dele. Ele é honesto. Ele é bom. Minha gente não queria. Pois eu não me arrependi nunca de ter casado. Você parece que não sabe dar valor a seu pai!

—Preferia que a senhora tivesse casado com brasileiro.

—Se eu tivesse casado com outro, você não seria você!

A resposta alarmou Aída durante algum tempo: não ter nascido. Não conhecer minestrone nem queijo parmezão. Não ser distinta assim, com seu uniforme: saia azul-marinho, blusa branca... Não dizer: Bonjour ma mère! Au revoir, ma mère! Não conhecer Isac, sobretudo!

Uma tarde foi à casa de Isac.

Você acha que você dá mesmo para violino?

—Não é que eu dê, Aída. A mãe é que quer que eu estude. História de um tio meu—irmão dela, que era violinista famoso e morreu numa revolução na Polônia com uma granada explodindo no peito. Ela botou em mim o nome de Isac porque era o nome dele. Tem o retrato lá no quarto dela.—Foi buscar. Aída viu um homem de olhos fanáticos e cabelos loiros, os traços esmaecidos na fotografia amarelada.

—Mas você acha que tem vocação?

Isac ergueu os ombros, pegou o violino: —Que é que quer que eu toque?

Ela pediu a Revêrie de Schumann. Estava-se fazendo uma cultura musical, para o gasto.

* * *

No colégio das freiras, Aída Arouche Magnocavallo percorreu toda uma escala cromática. Foi "verde", foi "rosa", foi "azul", foi "lisré", (que era uma cor vermelha debruada de listinhas brancas), foi "violeta", foi "jaune", foi "aurore" (que era amarela debruada de vermelho), foi "branca", foi "rouge". Ao fim do curso, guardou seus reminiscentes cadarços coloridos e uma coroa de louros obtida no último ano com uma composição intitulada A Natureza e os Pássaros. Fez uma última reverência em frente à Notre Mère, sorriu para uma fila de Camargos, Bueno Pais, Prado da Silva, Montalvão da Cunha, Leme de Alcântara, com variantes de Cunha Pais e Bueno Prado e Leme Montalvão, e Sampaio Ulhoa, viu a mãe: (graças a Deus ela é Arouche! Tem até uma praça com o sobrenome dela!) no primeiro banco. Ignorou o pai. Pegou de um canudo com o diploma. Sorriu para a esquerda e para a direita. Sorriu, sorriu, sorriu, automática, já o coração se espremendo de mágoa: não mais iria conviver com a pequena Souto Vilela, nem com Maria Carlota Leme de Alcântara, nem com Mafalda Mastrolongo, Judite de Vasconcelos, Karime Abibe, nem com Eurídice D'Altavila e Nova Friburgo, nem com a francesinha Susanne Deschamps, tão alinhada, magrinha e sempre com dor de garganta, dizendo:

—C'est ma gorge — numa tênue indicação martirizada. Nem com Mère Agnèse e Mère Marie Ambroise e Mère Chrisostome e Mère Florence...

Nesse ponto, lágrimas corriam dos olhos de Aída. Ouviu o pai dizer à mãe de Maria Helena de Arruda Coelho Dória:

—Coitadinha de minha filha! Tem um coração que é ver manteiga, mesmo!

E no Bom Retiro, os dias começam a parecer-se uns com os outros. Café da manhã: ela em frente da mãe, que o pai há muito já saíra para a "indústria" como ele chamava à pequena fábrica ridícula... Almoço e jantar diante dos dois: ela não fixando o pai, tentando não ouvir suas palavras, um ódio avolumando-se como onda desesperada dentro do peito. Aos domingos, Isac levava-a a um cinema de bairro, com crianças horríveis e barulhentas "torcendo" nas fitas de desenfreados galopes de cavalos. Logo, principiou a escolher os programas, nos jornais:

—Se tem fita de cowboy eu não vou!

A verdade é que não suportava mais a vista de cavalos, fosse na tela, fosse nas ruas. Magnocavallo... Via-se atrelada a carros. Via-se, apontada por dedos Albuquerques, Camargos, Buenos, Laras, Toledos, Sampaios, Prados, Lemes, Cunhas...

Num mês de julho, Isac foi visitá-la.

—Sabe de uma coisa? Eu resolvi deixar esse raio de violino!

Adeus, sonhos de glória! Adeus salas repletas de uma turba admirativa:—Aquela é a esposa do grande Wengorsky Werebeiczyk.

É a inspiradora, a companheira dedicada...

—Você não volte mais aqui, sabe? Não volte mais aqui, nunca mais!

Abriu a porta aos olhos azuis. Abriu a porta à mecha de cabelo indisciplinada. Abriu a porta ao sobrinho do conspirador polonês que tombara na neve, com o coração arrebentado. E quando ficou sozinha, desejou que o pai morresse.

* * *

Desejou isso, meses seguidos, tensa e dramática. Desejou pelas manhãs e pelas noites. Desejou diante de janelas abertas para o sol ou fechadas para a chuva. Desejou dentro do bairro populoso e pobre. Desejou, quando assistiu escondida atrás de uma coluna da Igreja Santa Cecília, ao casamento de Judite de Vasconcelos com Waldo Renato Augusto de Toledo e Lins. Ai, meu Deus! Se ao menos se chamasse da Silva, ou da Costa, como todo o mundo!

Negou sua mão a Lorenzo de Luca, a Salim Salem, Rômulo de Divinitis. Auscultava o silêncio, pelas noites a fora, quando a mãe entrava com o pai no quarto de casal. Tão distinta que é mamãe, meu Deus do céu! Tão distinta! E a imagem do pai corrompia a visão materna e ela fechava os punhos sob as cobertas e chorava.

Entretanto, aqueles ódios, aqueles desesperos, nunca encontraram palavras.

—A bênção mamãe. A bênção papai.—Olhava só a mãe. O pai lhe acariciava o rosto.

—Essa menina quando era pequena, dizia que estava noiva do papai! Acho que é por isso que ela dá o contra, agora, nos namorados!

E ria, o pai, terrível de incompreensão.

Aída esperou que as coisas mudassem quando Andréa Magnocavallo comprou uma casa velha na Rua Barão de Tatuí. Aquilo, pelo menos, não era o Bom Retiro. O italiano apurou algum dinheiro com a venda da fábrica, e como por esse tempo começasse a sofrer dos intestinos, foi fazer uma estação de cura em Monte Catini. Embarcou de segunda classe. A mãe foi acompanhá-lo até Santos. Ela ficou espanando os móveis, dando ordens, para a única empregada. Assistia-se a si própria, vestida de azul-marinho, que sempre foi cor de gente elegante, caminhando do aparador da sala, ao pequeno saguão, entre poeira raiada de luz, como nos quadros dos predestinados, e de repente, nem sabe quando, pôs-se a ver o navio em que viajava o pai, a afundar. Parou a limpeza, sustendo o espanador tal se fosse um ramo. A empregada perguntou, levantando por trás do sofá a cabeça atada por um lenço, a dar-lhe feição de coelho:

—A senhora está sentindo alguma coisa?

Como poderia responder que estava vendo o pai afogar-se e, o pior, lia a notícia nos jornais, e nome dele, ali entre os sinistrados de segunda classe? Todos leriam, não só ela. Viu a mãe de Maria Carlota lendo, viu as freiras, a voz da Madre-Prefeita, comentando:—Cette pauvre petite qui a perdu son père! C'etait un brave homme, il me semble! — como se se tratasse de um carvoeiro...

E, naquela ausência demorada, dia após dia, seu pensamento matava o pai. Via-o imprensado num vagão de estrada de ferro ou embaixo das rodas de um carro. Via-o adoecendo, chamando a família, de uma cidade italiana qualquer. Elas embarcavam, às pressas, mas não tanto que não desse tempo para telefonar para uma das colegas e, meio sem jeito dizer:—sabe? embarco para a Europa amanhã... Matou Andréa Magnocavallo de todos os feitios: por acidente e por moléstia e, quando receberam o telegrama comunicando seu embarque, em Gênova, ela susteve a respiração, olhou a mãe, atônita e pôs-se a chorar, meio convulsa, misturando riso com lágrimas.

—Você pode ter um gênio esquisito, mas você gosta de seu pai, Aída!

Quando o pai chegou, só de vê-lo, a moça soube logo que ele ia morrer. Tinha uma cor terrosa, emagrecera, o nariz se afilara e adquiriu um jeito bondoso de entornar um pouco a cabeça, na conversa. Mentalmente ela fez planos, fria, alinhavando cifras. Viu-se com a mãe, mudando de casa e de nome. Mirou seu cartãozinho de visitas, tarjado de negro:—Aída Arouche. Entretanto, a doença do pai se prolongou, comeu-lhe dias e noites, tantos dias e tantas noites que, quando ele se foi, de verdade, dois sulcos fundos punham entre parêntesis a boca da filha e, ao redor dos olhos, a pele murchara, como pétala de rosa que seca na haste. E com o rosto, e com o corpo, parece que se lhe mudava a alma. Ao voltar da missa de sétimo dia, sentiu que a mocidade se lhe acabara, irremediável; lembrou da face do pai, de sua voz de vogais tão abertas e de sua mão, dos últimos tempos, quando acenava para as visitas, "que estava um pouquinho melhor, um pouquinho melhor, obrigado..."

Então Aída começou a viver dobrada sobre si mesma, num remorso constante. Começou a freqüentar igrejas, a rezar muito, a encomendar missas por alma do pai, a invocá-lo a todo momento ativa e febricitantemente, o coração espremido de ternura. Enquanto lhe restaram pequenos vestígios de mocidade, virava o rosto aos homens, na rua. Um belo dia, percebeu que não voltava mais o rosto porque os homens não mais a miravam. Persuadiu a mãe de que devia transformar a casa em pensão. Ela própria providenciou tudo: compra de móveis, pequenas reformas internas. E mandou fazer uma tabuleta de fundo verde com letras brancas:

PENSÃO MAGNOCAVALLO
Estritamente Familiar

"Aida Arouche Magnocavallo" was originally published in Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro, Editora Cultrix, São Paulo, 1961

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