Brazil - BRAZZIL - Soccer Tales by Carlos Eduardo Novaes - Short stories - Brazilian Literature - Books & Authors - May 1998


Soccer Tales

by

Carlos Eduardo Novaes

Zagalo Sounds Out

Europeans have shown that the best defense is the attack. Zagalo has always thought the opposite: that the best attack is the defense.

Aqui está uma entrevista que só não afirmamos que foi feita em primeira mão porque o juiz poderia marcar hands, dada pelo nosso agente e repórter Juvenal Ouriço com exclusividade a ele mesmo. Nela Juvenal dá sugestões de como corrigir alguns vícios do jogador brasileiro. Quanto às possibilidades do Brasil na próxima Copa disse que são mínimas: "Hoje o futebol evoluiu tanto que para uma equipe conquistar o título mundial é preciso que seus jogadores falem no mínimo, dois idiomas. E aqui no Brasil uns poucos estão tentando o segundo, mas infelizmente a maioria mal sabe o primeiro."

P—Você acredita, Juvenal, que as coisas vão mudar no futebol brasileiro?

Passada a euforia inicial sou capaz de apostar que tudo continuará na mesma. Como vem acontecendo há muito tempo, apenas os técnicos mudarão. Ainda assim, de clube.

P—Você acredita que poderemos jogar exatamente como os holandeses?

Só se começássemos tudo de novo. Evacuássemos o país, fôssemos todos os brasileiros morar, digamos, na Bolívia, à espera que os frísios, batavos e outras tribos germânicas viessem colonizar o país.

P—Por que o futebol brasileiro é tão defensivo?

Por influência de Zagalo. Os europeus mais uma vez demonstraram que a melhor defesa é o ataque. Zagalo sempre pensou o contrário: que o melhor ataque é a defesa. Tanto que na Copa nossos melhores atacantes foram Luís Pereira e Marinho do Botafogo.

P—Há algum meio de tornar o jogador brasileiro mais ofensivo?

Há. Se você pregar na baliza adversária uma porção de notas de Cr$ 500,00.

P—Como fazer para que o torcedor pare de reclamar dessa falta de gols que vai pelo nosso futebol?

Isso é simples. Para que o torcedor não reclame da falta de gols os jogos ao invés de começarem 0 a 0, poderiam começar por 2 a 2.

P—O jogador brasileiro é cheio de vícios. Um deles é o de jogar muito para os lados. Como solucionar esse vício?

Se o brasileiro joga para os lados, é só passar os bandeirinhas para a linha de fundo e as balizas para as laterais.

P—Um outro defeito é o excesso de toques. Como diminuir os toques do jogador brasileiro?

Fazendo treinos coletivos sem bola. Faz-se o primeiro, o segundo, o terceiro, lá pelo oitavo o jogador já se desacostumou e quando puserem uma bola em campo ele vai querer passá-la para a frente o mais depressa possível.

P—Por que o jogador brasileiro não dá combate?

O jogador brasileiro não dá combate porque nunca esteve na guerra. Durante a guerra do Sudeste Asiático sempre defendi a ida de um pelotão de jogadores para o Vietnan. Só assim aprenderiam a dar combate.

P—Temos também uma falha de marcação. O jogador brasileiro não marca em cima.

Nem poderia. Os europeus são mais altos que os brasileiros. Daí a dificuldade de marcar em cima. Contra, porém, coreanos e japoneses, todos baixinhos, não será dificil para o brasileiro marcar em cima.

P—E quanto aos nossos goleiros que não saem nunca de debaixo das balizas, como resolve?

Colocando as balizas na intermediária.

P.—Finalmente, Juvenal, que você achou da possível escolha de Didi para técnico da Seleção Brasileira?

Muito boa, principalmente porque Didi é um treinador atualizado com o futebol europeu. Penso, porém, que Didi deve dirigir a Seleção lá da Europa mesmo para que não se repita o que aconteceu com Zagalo, que foi miseravelmente surpreendido pelos europeus.

P—E como é que o Zagalo, tendo ido tantas vezes à Europa, antes da Copa, acabou surpreendido pelos europeus?

Não sei, não, mas tenho a impressão de que quando os europeus sabiam que Zagalo estava pela Europa faziam suas partidas escondidos nos abrigos antiaéreos.

Give My
Money Back

I am convinced that if we were disputing the world championship of excuses we would get the title hands down.

Juvenal Ouriço, de Frankfurt—Eu não lhe disse? Eu não lhe disse que Zagalo estava tão preocupado em esconder o jogo durante os amistosos na Europa que seria capaz de não encontrá-lo na estréia contra a Iugoslávia? Pelo que se viu o treinador pediu emprestado o jogo de algum time de fábrica de Frankfurt. Deu pena, meu caro. Se todo o nosso futebol é aquele que nós mostramos na quinta-feira então, avise aí as famílias dos jogadores no Brasil que a Seleção regressa logo após o jogo com o Zaire. Eu quero meu dinheiro de volta. Gastou-se 30 milhões para se preparar uma Seleção que entrou em campo e praticou um futebol de salário mínimo (já com os descontos). Depois de quatro meses de treinamento Zagalo conseguiu retirar toda a expontaneidade, habilidade e agressividade do time. Não adianta querermos formar uma corrente pra frente se o Zagalo só joga pra trás. Deixei o estádio com taquicardia. Cheguei a adiantar o relógio para ver se a partida terminava mais cedo. Quase fui à loucura constatando no segundo tempo a incapacidade de Zagalo para mudar a fisionomia da Seleção. Fosse uma luta de boxe e a fisionomia da Seleção no final do jogo estaria pior do que a de Joe Frazier após a luta com Foreman. Mais tarde fui entrevistar o nosso técnico na sala de imprensa e mais uma vez ele se revelou um prodígio de desculpas e subterfúgios. E eu saí convencido de que se estivéssemos disputando um torneio mundial de desculpas alcançaríamos fácil o título máximo.

—Zagalo, o que é que você achou do jogo?

—Muito bom. Um jogo corrido e disputado que me permitiu fazer várias observações.

—E o desempenho da Seleção Brasileira correspondeu?

—Plenamente. Os jogadores cumpriram exatamente as minhas ordens. Esse é o futebol com que sempre sonhei.

—Quer dizer que você orientou o time para jogar na defesa?

—Na defesa? Nós chutamos em gol duas vezes e você ainda vem nos dizer que jogamos na defesa...

—Se não na defesa como é que a Seleção jogou?

—Bem, atuamos com uma certa prudência. O que era muito natural porque afinal estávamos enfrentando a Iugoslávia.

—E o que é que tem a Iugoslávia?

—Ora o que é que tem a Iugoslávia. A Iugoslávia pratica, na minha opinião, o melhor futebol do mundo. Não sei mesmo como ainda não foi tricampeã mundial.

—Então aproveite e me diga: depois da Iugoslávia quais são os times mais fortes nesta Copa?

—A Escócia e você pode não acreditar, mas eu considero o Zaire.

—E o resultado contra a Iugoslávia que lhe pareceu?

—A mim o resultado não interessa.

—Mas como não interessa? Isso você dizia naqueles jogos lá do Brasil. Agora é diferente, vale pontos.

—Tem razão. É o hábito. Acho que o resultado foi justo. No primeiro tempo merecíamos vencer e no segundo não merecíamos perder.

—O empate estava em seus planos?

—Estava.

—E contra a Escócia também está?

—Claro. Vou me dar por muito satisfeito se conseguirmos empatar com os valentes escoceses.

—E contra o Zaire?

—Olha, eu por mim ficaria feliz com um empatezinho, mas o pessoal está me obrigando a jogar para ganhar.

—Quer dizer que contra o Zaire você vai mandar apenas o Leivinha para fazer companhia ao Jairzinho. Você não acha que sendo o nosso o melhor futebol do mundo deveríamos impor o jogo?

—E quem disse que não estamos impondo? Quinta-feira os iugoslavos jogaram para ganhar e nós para empatar. E como terminou o jogo, ahn?

—Dizem que contra a Iugoslávia você escondeu novamente o jogo. É verdade?

—É. Contra a Iugoslávia eu escondi o jogo.

—E por quê?

—Porque tinha muito espião escocês nos observando.

Helping Out
Kissinger

When Marinho socked Neeskens, who was floored, Kissinger decided to intervene. As an innate pacifist he offered to enter the field to negotiate the peace.

No jogo com a Holanda, em 74, Juvenal Ouriço a convite da FIFA sentou-se ao lado de Kissinger para servir de intérprete, traduzindo o que se passava no gramado. O Secretário de Estado norte-americano, como todos sabem, é muito bom no jogo da paz, mas em matéria de futebol mal assina o nome. Assim Juvenal ia esclarecendo o que era falta , impedimento, lateral e respondendo, pacientemente às perguntas—algumas embaraçosas—que Kissinger lhe fazia: "Os dois times jogam com 11 jogadores?"—perguntou o Secretário.

—É—disse Juvenal.

—Engraçado, parece que a Holanda tem o dobro do Brasil.

Com o correr do tempo—e dos holandeses—o jogo foi se tornando cada vez mais violento, o que mereceu um ligeiro comentário de Juvenal para Kissinger: "Tenho a impressão de que isso vai virar uma guerra."

—E se virar—respondeu Kissinger—não conte comigo. Eu hoje estou de folga.

No instante, porém, que Marinho deu aquele murro na nuca de Neeskens, que arriou, Kissinger não se conteve. Como um pacifista nato virou-se para Stanley Rous e ofereceu-se para entrar em campo e negociar a paz. Não foi preciso. Seu conterrâneo Tschencher levou a guerra a bom termo depois de colocar fora de combate o Luís Pereira, que para sair de cabeça erguida (jogador brasileiro acha que perder de cabeça erguida é dar botinada nos adversários) por pouco pouco, muito pouco, pouco mesmo, não dividiu o Neeskens em dois.

Veio então o jogo com a Polônia e Kissinger novamente compareceu (o que levou o supersticioso Zagalo a declarar após a derrota que o Brasil perdeu a Copa por causa do Kissinger: "Perdemos exatamente os dois jogos que ele assistiu"). O Secretário não foi porque estivesse gostando do nosso futebol. Muito pelo contrário. O pouco que ele conhecia do esporte desaprendeu vendo o jogo do Brasil. Kissinger apareceu apenas para prosseguir em seu curso intensivo com Juvenal Ouriço, agora já consagrado como o profeta de Dortmund. Após o jogo com a Holanda, Juvenal foi entrevistado até pela televisão alemã onde mostrou recortes de seus despachos enviados para esta modesta página com os inícios dos preparativos no Itanhangá, prevendo toda a melancólica e empulhante campanha brasileira.

—O Brasil— indagou o Secretário—pode atravessar o meio do campo a qualquer momento?

—Pode—respondeu Juvenal—por quê?

—Porque eu pensei que só pudesse depois de dar 23 toques na bola.

O jogo transcorria numa incrível monotonia. A Polônia fazia sua pior partida na Copa. O Brasil jogava o de sempre. Os 456 guarda-costas de Kissinger dormiam e alguns roncavam indiferentes ao que se passava no campo. No que faziam muito bem, pois no campo não se passava quase nada. Juvenal chegou a pensar que Zagalo talvez estivesse jogando para o empate. Kissinger perguntava e Juvenal respondia. Juvenal, um profundo conhecedor do balipodismo, não deixava perguntas sem respostas. Por volta dos 20 minutos, porém, Zagalo tirou Ademir da Guia e colocou Mirandinha. Ademir era um dos nossos melhores jogadores, responsável, inclusive, pela maior chance de gol do Brasil quando deu um passe de 40 metros para Valdomiro que na minha televisão desperdiçou, não sei na de vocês… Ao ver Ademir deixando o campo, Juvenal levantou-se, pediu licença a Kissinger e disse que ia sair. "Sair para onde?" perguntou o Secretário.

—Eu vou me embora

—Mas por quê?

—Porque agora quem não está entendendo mais nada sou eu.

Juvenal pegou um táxi e foi para o hotel. Durante a viagem, então, pensava: "Vocês já imaginaram se o Ademir faz uma grande partida? O Zagalo que já vem por aí com excesso de bagagem—traz quatro malas de desculpas—ainda teria que arranjar mais uma para explicar a barração de Ademir nessa Copa". Quando Juvenal estava pagando o táxi ouviu no rádio o gol da Polônia. Não se surpreendeu. Ao substituir Ademir da Guia por Mirandinha ficou claro que Zagalo não estava jogando para o empate. Estava jogando para a derrota.

Why the Boos?

If you cover my eyes and take me to a soccer field any place in Brazil, by the boos alone I'll be able to tell you where I am: Brasília, São Luís, or Curitiba.

Assim ninguém agüenta, amigos. É preciso ser de ferro. E Paulo César, como todos sabem, tem apenas o nariz de ferro. Tornou-se uma psicose coletiva vaiar o Paulo César. Em qualquer campo que apareça—do Oiapoque ao Chuí—sua passagem é sempre acompanhada por um rastro de sonoros apupos. Tem gente que vaia o Paulo César sem saber por quê. Almiro dos Santos, torcedor rubro negro, diz que vaia porque todo mundo vaia. Paulo César quando pára num sinal com seu carro ouve logo aquele uuuuuuuuuuuu. Só pode entrar nos cinemas com o filme começado. Outro dia ele convidou uma menininha de Ipanema para sair. Ela aceitou o convite, mas impôs uma condição: "Só se você me deixar vaiá-lo por uns 15 minutos." Existiam até algumas agências de turismo anunciando em seus planos para a Copa: "Vá a Alemanha vaiar o Paulo César." A situação tornou-se tão grave que o jogador foi obrigado a procurar um médico.

—Doutor—disse P. César— eu passo 24 horas por dia com um uuuuuuuuu interminável nos meus ouvidos.

O médico examinou com todo cuidado seus ouvidos e afirmou que aparentemente não havia nada. "Diga-me uma coisa"—perguntou o doutor— "aqui, dentro do consultório você tambem ouve o uuuuuuuuuu?" P. César apurou o ouvido e disse que sim "aqui também ouço o uuuuuuuuuu." O médico disse-lhe que no momento não havia nada a fazer. Receitou-lhe um remédio e disse-lhe que se em três dias o uuuuuuuuuu não passasse, ele voltasse a procurá-lo. P. César agradeceu e se despediu. Quando deixou o consultório a enfermeira saiu detrás da cortina e falou muito envergonhada:

—Me desculpe, doutor, mas eu também não resisti à vontade de vaiar o Paulo César.

É claro que essa situação prejudica o rendimento do jogador em campo. Como, porém, ele não pretende modificar seu comportamento e nem a torcida modificar suas vaias, Juvenal Ouriço acha que só há uma solução:

—Assim como em certas partidas se faz um minuto de silêncio, nos jogos em que P. César estivesse presente os torcedores poderiam fazer um minuto de vaias, depois do que deixariam o jogador em paz.

A propósito, reproduzimos aqui alguns trechos de uma entrevista que Juvenal Ouriço fez recentemente com P. César.

J.O.—Paulo César, qual o marcador mais difícil que você já encontrou?

—A torcida.

J.O.—Se dependesse de você onde é que você gostaria de jogar?

—Num estádio deserto.

J.O.—As vaias estão atrapalhando o seu futebol?

—Não. As vaias estão atrapalhando a minha audição. Não consigo ouvir mais nada com esse permanente uuuuuuuuuu nos meus ouvidos.

J.O.—Você tem esperanças de que a situação mude?

—Se a situação não mudar, mudo eu. Vou jogar na Europa.

J.O.—Você está preparado para as vaias?

—Estou me preparando. Comprei um gravador e gravei vários tipos de vaia. Todos os dias ouço uma hora de vaia em casa.

J.O.—E, no momento, qual a solução que você tem para as vaias?

—Jogar com algodão nos ouvidos.

J. O.—Você hoje é capaz de distinguir as vaias que recebe?

—Sou. Se você me tapar os olhos e me soltar num campo por esse Brasil afora, só pelas vaias sou capaz de dizer se estou em Brasília, em São Luís ou em Curitiba.

J.O.—Qual foi a melhor vaia que você já ouviu em sua vida?

—Em 72, em São Paulo. O coro era perfeito. Ninguém desafinou. Parecia que já vinham ensaiando há vários dias.

J.O. —Bem, Paulo César, agora que estamos encerrando esta entrevista você quer dizer alguma coisa para a torcida?

—Quero: uunuuuuuuuuuuuuuuuuu.

Soccer
Land

Little by little the public grew. Blue collars, salesmen, vagrants… And a quarter to four there was no room left before the TV set at the store's window.

Segunda feira—14 horas—Juvenal Ouriço aproximou-se de um vendedor parado à porta de uma loja de eletrodomésticos e perguntou:

—Qual desses oito televisores os senhores vão ligar na hora do jogo?

—Qualquer um—disse o vendedor desinteressado.

—Não. Qualquer um não. Eu cheguei com duas horas de antecedência e mereço uma certa consideração.

—Pra que o senhor quer saber?

—Para já ir tomando posição diante dele.

O vendedor apontou para um aparelho. Juvenal observou os ângulos, pegou a almofada que o acompanha ao Maracanã e sentou-se no meio da calçada.

—Ei, ei, psssiu—chamou-o um mendigo recostado na parede da loja—como é que é, meu irmão?

—Que foi? Perguntou Juvenal.

—Quer me botar na miséria? Esse ponto aqui é meu.

—Mas eu não vou pedir esmola.

—Então senta aqui ao meu lado.

—Aí não vai dar para eu ver o jogo.

—Na hora do jogo nós vamos lá pra casa.

—Você tem TV a cores?

—Claro. Você acha que eu fico me matando aqui pra quê?

Juvenal agradeceu. Disse que preferia ficar na loja onde tinha marcado encontro com uns amigos que não via desde a final da Copa de 70. O mendigo entendeu. E como gostou de Juvenal lhe deu o chapéu onde recolhia esmolas. Juvenal, distraído, enfiou-o na cabeça.

—Não, não. Na cabeça não.

—Por que não?

—Já viu mendigo usar chapéu na cabeça? Deixe-o aí no chão. Sempre pinga qualquer coisa.

Aos poucos o público foi aumentando, operários, vendedores, contínuos, vagabundos e às 15h 45m já não havia mais lugar diante das lojas de eletrodomésticos. Os retardatários corriam de uma para outra à procura de uma brecha. Alguns ficavam pulando atrás da multidão tentando enxergar a tela do aparelho.

—Quer que eu lhe ajude?—perguntou um cidadão já meio irritado com um contínuo pulando rente às suas costas.

—Quero.

—Então me diz onde é o seu controle da vertical.

—Controle da vertical, pra quê?

—Pra ver se você pára de pular aqui nas minhas costas.

—Eu não estou enxergando nada.

—E por que continua pulando?

—Pode ser que Deus me ajude e num determinado momento eu fique que nem os jogadores na televisão: parado no ar.

—Ô rapaz, você não vê que isso é impossível.

—Não é não. Se eles ficam eu também posso ficar.

—Deixe de dizer besteira. Você não vê que para ficar parado assim era preciso que a câmara o estivesse focalizando?

As lojas concentravam multidões. As calçadas da cidade, que já são poucas, desapareciam completamente. Em jogos da Seleção Brasileira, durante a semana, cresce bastante o número de atropelamentos porque o pedestre é obrigado a circular pelas ruas. Além disso, os motoristas ficam muito mais ligados no rádio do que no trânsito. Repetindo o surrado chavão da imprensa: "Na segunda-feira a cidade parou". E na minha opinião a parada foi muito proveitosa: para uma cidade que anda de marcha a ré qualquer parada é bom negócio.

Na porta da loja onde estava Juvenal havia umas 200 pessoas do lado de fora e somente uma do lado de dentro: o gerente. Até os vendedores da loja já tinham se bandeado afirmando que assistir a um jogo atrás da televisão não é a mesma coisa que vê-lo atrás do gol. Quando a bola saía entravam os comentários dos torcedores. Aproveitavam para tirar suas dúvidas indagando se o empate bastava ao Brasil? Como ficaria se a Itália vencesse? De quantos gols precisava a Inglaterra? Um carteiro atrás de Juvenal perguntou-lhe:

—Escuta, se o Brasil vencer ele será campeão do Bicentenário ou bicampeão do Centenário?

No início do segundo tempo um cidadão que não se interessava por futebol (um dos 18 que a cidade abriga) foi pedindo licença à galera e com muita dificuldade conseguiu entrar na loja. O gerente foi ao seu encontro: "O senhor deseja algo?"

—Um aparelho de televisão.

—Por que o senhor não leva aquele?

—Qual?

—Aquele que está ligado ali na porta.

—É bom?

—O senhor ainda pergunta? Acha que haveria 200 pessoas diante dele se não tivesse uma boa imagem?

—Bem...

—E não é só isso—completou o gerente aproveitando a euforia do público com um gol do Brasil—que outro aparelho transmite emoções tão fortes?

—Essa gritaria toda foi diante do aparelho?

—Lógico. Esse é o novo televisor AP-007 dotado de controle de emoção. Só este televisor pode levá-lo do choro convulsivo à completa euforia.

—É mesmo? E se eu desejar vê-lo sentado quietinho na poltrona?

—Também pode, mas é aconselhável desligar o botão, senão o senhor não vai conseguir ficar quietinho na poltrona.

O cidadão convenceu-se. Disse que ia levá-lo. O gerente, precavido, pediu-lhe para ir a porta da loja apanhá-lo. O cidadão não teve dúvidas. Ignorando aquela

massa toda diante do seu aparelho, foi lá tranqüilamente e cleck. Desligou-o.

O que aconteceu depois eu deixo por conta da imaginação de vocês.

Um pouco mais adiante eu entrava numa repartição pública à cata de um antigo processo que já estava rolando mais do que a bola do campo de Seattle. Que ingenuidade a minha. Se nada mais funciona em dia de jogo que dirá as repartições públicas? Parei diante da mesa de um rapaz que com um radinho de pilha no ouvido mantinha-se concentrado na transmissão, olhando fixo para o assoalho. Um tanto receoso de cortar bruscamente sua concentração limitei-me a pigarrear. Ele nem se moveu. Tossi. Ele nada. Assoei o nariz, espirrei, assobiei. Nada. Aguardei mais um pouco. Como continuasse imóvel, abaixei-me um pouco tentando me interpor entre seu olhar e o taco. Senti que seu olhar me atravessava. Acenei sorrindo. Ele fez sinal com a mão para que eu aguardasse. Rivelino—pensei—deve estar se preparando para bater uma falta no entrada da área. Fiquei esperando. Mais alguns minutos e abaixei-me novamente. Novamente ele fez sinal que eu esperasse. Continuei de pé. Sem nada a fazer fui aproximando lentamente meu ouvido do radinho do funcionário. Fui, fui, fui até que grudei o ouvido do outro lado. Ficamos ali os dois. Ele nem se moveu. Até que, não podendo esperar mais, afastei cuidadosamente o braço do funcionário que segurava o radinho, cheguei perto do seu ouvido e procurando imitar a voz do locutor disse:

"Bola com Rivelino que estica para Roberto. Roberto passa por Antognoni, vira e entrega a Gil que atira a bola para fora. Gil atirou a bola para fora para que você que está me ouvindo possa atender a esse senhor que o aguarda há mais de meia hora."

—Pronto — acordou sobressaltado o funcionário —agora posso atendê-lo. Mas vamos rápido que o jogo já vai recomeçar.

Juvenal Ouriço.
Who is this guy?

Juvenal was a stutterer. When narrating the games he would finish describing the moves 15 minutes after the match had ended.

Esta é uma das perguntas mais freqüentes que ouço em minhas romarias por escolas e universidades (a mais freqüente e quase sempre a primeira é: "Como é que você faz com a censura?"). Às vezes, perguntam se Juvenal existe mesmo ou se é produto—no caso, sub-produto—da imaginação? Nenhum personagem é produto apenas da imaginação. A longa galeria de tipos criados por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. foi construída a partir de cidadãos de carne e osso com quem esbarramos na rua. Assim é Juvenal filho do dr. Cotidiano com a dona Imaginação, nascido nas fronteiras da realidade com a ficção. Juvenal é alguém que não é mas não deixa de ser.

Conheci Juvenal em 73 quando eu ainda respondia pela página de Loteria Esportiva do JB. Viajando pelo Norte e Nordeste, encontrei-o no interior das Alagoas, debruçado sobre um microfone da rádio Arapiraca transmitindo um jogo de futebol entre o CRB de Maceió e o ASA de Arapiraca. Recordo-me que a primeira vez que o vi fiquei impressionado com seus gestos, debatendo-se mais do que um afogado, diante do microfone, com as veias do pescoço salientes cuspindo para todo lado enquanto transmitia a partida. Só um detalhe: quando o vi, transmitindo a partida, estava no intervalo do primeiro para o segundo tempo. Aproximei-me curioso e só então percebi que Juvenal era gago. Sendo gago, naturalmente, entrava sempre atrasado no lance e de atraso em atraso só encerrava sua locução uns 15 minutos depois de terminado o jogo.

Além de locutor, Juvenal era também o editor de esportes do jornal A Gazeta de Arapiraca e, na época em que nos conhecemos, fazia o curso de detetive particular por correspondência. Convidei-o para trabalhar comigo na Loteria enviando informações sobre os times alagoanos. As informações não eram lá das melhores—uma vez fiz 12 pontos e perdi justamente no jogo oito entre o ASA de Arapiraca e o São Domingos, time de um orfanato—mas pelo menos chegavam ao Rio a tempo. Juvenal não era gago para escrever. Rapidamente se adaptou ao estilo da seção, seu texto cresceu e em 74 mandei-o como enviado especial à Alemanha acompanhando a nossa seleção. Aliás, as três ou quatro primeiras crônicas deste livro foram escritas na Alemanha e, o que é pior, em alemão (Juvenal tem muita facilidade para línguas). Em 75, quando deixei a Loteria e vendi meu passe às crônicas de costumes, Juvenal já estava instalado no Rio morando no Catete com a mulher, Abgail, e quatro filhos (o quinto nasceu aqui). Compreende-se a quantidade de filhos que Juvenal fez em Arapiraca: na sua casa não havia televisão.

Hoje, Juvenal trabalha numa autarquia (cargo de chefia intermediária) e de vez em quando ainda faz uns free-lancers para mim. É o que se poderia chamar de um membro da classe média, um rosto na multidão, uma cabeça a mais da maioria silenciosa, um cidadão sem características fortes, sem grandes ambições, que adora novelas, engorda como pode sua caderneta de poupança, faz compra em supermercado, reclama contra a carestia, usa sandália e bermuda aos domingos e é capaz de passar desapercebido em qualquer ambiente. Desde que, naturalmente, estejam todos vestidos.

These crônicas were originally published in the Jornal do Brasil and later gathered in the book Juvenal Ouriço, Repórter, by Carlos Eduardo Novaes, Editora Nórdica, 1977, 152 pp. These stories were called respectivelly "A Primeira Entrevista", "Uma Corrente pra Trás", "O Intérprete do Secretário", "Por que Vaiam Tanto Assim o Rapaz?", and "No País do Futebol".

Brazil / Organic personal skin care wholesale / Brazil