Brazil - Brasil - BRAZZIL - "O Funeral" by Adelaide Bouchardet Davis -Short Story in Portuguese - Conto em Portugues - Portuguese Language - Brazilian Literature - March 2002


Brazzil
March 2002
Literature

The Funeral

She couldn't understand why the men with whom
she got involved were always surrounded by mystery.
Time passed and their relationship cooled off little
by little. They became friends, but he was
still an enigma for her.

Adelaide Bouchardet Davis
"E talvez ele fosse também o único que me pudesse entender. 
E se estivesse vivo diria o mesmo que eu agora" 
Chico Buarque e Ruy Guerra - Calabar, O elogio da traição 

Isabel chegou ao cemitério no meio da tarde de quarta-feira. Estacionou o carro, desceu e bateu a porta num só movimento. Olhou para o bar onde, enquanto conversavam, alguns homens tomavam cerveja e comiam jiló em conserva—sentiu inveja deles. Um menino veio correndo e pediu para tomar conta do carro. Ela teve raiva da criança e pensou "contra quem?". Não disse nada, apenas acenou com a cabeça consentindo.

Caminhou apressada para o prédio dos velórios. O vestido amarelo, leve e solto, dava-lhe um ar jovial. Estava com trinta e oito anos mas parecia mais nova; tinha cabelos pretos até os ombros, um rosto interessante e a boca cuidadosamente pintada. Os olhos eram muito bonitos, as sobrancelhas bem desenhadas, e o nariz reto lhe dava uma aparência de gente que sabe o que quer. Não era alta mas tinha um corpo bem feito que caminhava com elegância natural. Tinha certeza de que não iria encontrar muitos conhecidos ali—não fazia parte do círculo de amizade do morto—mas veria alguns rostos familiares.

Várias pessoas entravam e saíam do prédio. Algumas vinham acompanhadas, vestidas discretamente; umas choravam, outras apenas tinham uma expressão séria e apropriada; algumas conversavam e outras fumavam em silêncio. Isabel tirou os óculos escuros e conferiu o nome na placa da entrada do velório número três. Exitou um pouco, pensou em não entrar, em sair dali e esquecer tudo aquilo. Repensou e resolveu ir até o fim.

Entrou e olhou a sala ampla de paredes brancas. O caixão estava numa extremidade, com a cabeceira junto ao meio da parede de onde pendia um Cristo em agonia. Dois castiçais de pé sustentavam velas enormes que queimavam. O cheiro delas lembrava aos presentes que ali estava um ausente. Várias coroas de flores se amontoavam de um lado da sala e as faixas roxas, escritas em dourado, diziam à família que os amigos já estavam sentindo saudades do morto. Várias cadeiras estavam colocadas na outra extremidade, perto da porta. Também, de um lado do caixão, havia uma fila delas convidando os mais íntimos a compartilharem a dor de uma forma menos desconfortável.

Assentada bem junto ao caixão estava uma mulher gorda, clara, aparentando uns sessenta anos. O vestido cinza claro, com flores miúdas de várias cores, cobria os joelhos; os sapatos baixos pareciam tão cansados quanto a dona deles. Tinha os cabelos brancos penteados para trás em um coque sobre a nuca. O rosto sem maquiagem, com a pele cansada e pálida, mostrava toda a dor que aquela mulher sentia. Chorava muito e, vez por outra, era abraçada por algum visitante. Estava rodeada por homens e mulheres que pareciam ser seus filhos, filhas, genros e noras. "Então aquela é a viúva", pensou Isabel.

O irmão do morto estava de pé do outro lado do caixão e, muito circunspecto em seu terno escuro, recebia também os abraços e condolências muito propriamente. Tinha os olhos inchados, e a todo momento levantava os óculos para enxugá-los. Estava afastando algumas moscas que insistiam em passear pelas flores e pelo rosto do morto, quando Isabel foi em sua direção para lhe dar os pêsames. Eram colegas de empresa e ele pareceu contente de vê-la ali. Outras pessoas vieram falar com ele e abraçá-lo também.

Isabel se voltou para o caixão e olhou o homem que estava lá. Como parecia velho! A morte não lhe fora complacente—ele estava muito feio! Não que tivesse sido bonito em vida, mas o rosto e as mãos estavam muito roxos. Algumas pessoas comentavam que ele sofrera um infarto muito violento; o coração safenado não resistira. Isabel olhou novamente para as mãos cruzadas sobre o peito, imóveis, frias, e depois para o rosto conhecido. Sentiu pena. Era um homem importante, de tradicional família mineira, rico e muito conhecido nos meios políticos. Agora estava ali, como qualquer outro defunto, simplesmente morto, sendo observado, sendo comentado, sendo velado.

Isabel se afastou nervosa e foi apresentar seus sentimentos à viúva. A mulher não se levantou e nem mesmo viu de quem vinha aquele abraço—não conhecia Isabel—apenas agradeceu enxugando o nariz já muito vermelho.

A sala estava cheia e o cheiro das flores, misturado com o cheiro das velas que queimavam, embrulhava os estômagos mais fracos. Lá fora o ar estava fresco e respirável. Isabel sentiu alívio quando saiu; foi caminhar um pouco pelos jardins. Passando perto da flora, viu Adélia, uma amiga da faculdade, comprando flores e foi conversar com ela. As duas se abraçaram e Adélia comentou surpresa "não sabia que você conhecia algum dos parentes do morto!" Em seguida apresentou Isabel às amigas—eram todas vizinhas da família enlutada. Depois da troca de cumprimentos as mulheres saíram e ficaram no corredor, voltando à conversa que tinha sido interrompida. Falavam sem parar sobre todos os assuntos possíveis e imaginários; tinham muito tempo para fazer isso porque o enterro seria no final da tarde.

Isabel ficou com elas e as observava. Todas pareciam uma só, na sua forma de vestir, de falar, de se movimentar; comentavam sobre o morto e sua vida tão correta e dedicada à família. Uma, que parecia um barrilzinho de chopp, disse cheia de convicção "ele era tão fiel! Elvira foi a única mulher da sua vida! nunca teve um pensamento sequer para outra!" Isabel quase riu alto mas se conteve a tempo, cobrindo a boca com a mão fechada em concha e disfarçando uma tosse falsa. As mulheres continuavam naquela lenga-lenga, numa tagarelice cansativa e interminável. Falavam sobre suas próprias vidas, seus casamentos, seus filhos. Algumas reclamavam dos maridos; diziam coisas loucas sobre aqueles senhores que pareciam tão distintos, conversando baixo no outro lado da sala. Deixando de lado o ar digno que vinha sustentando até então, e como se tivesse esquecido que estava em um velório, a que parecia a mais velha disse às outras, cheia de rancor, que seu marido era um crápula. As amigas olharam para ela, todas ao mesmo tempo, com ar de completo espanto; ela, sentindo-se o centro das atenções, continuou dizendo que descobrira, há pouco tempo, que havia existido uma amante no passado dele. Deixou claro que o casamento esfriara e ela só não se separava porque era um grandissíssimo desaforo, e porque eram muitos anos, e muito sacrifício para ajudá-lo a construir o que tinham; não ia deixar, de maneira alguma, que uma sirigaita qualquer gastasse o dinheiro que, por direito, era dos filhos do casal. As outras, passado o choque inicial, concordaram plenamente apoiando a decisão que a amiga traída tomara. E os casos se sucediam com todas expondo seus infortúnios. Os maridos foram literalmente denunciados, julgados e condenados no ato. Elas, as vítimas, não tiveram compaixão e eram solidárias na mesma dor. Poucos foram os que escaparam ilesos daquele julgamento insano. Enquanto isso, os acusados, sem saberem o que estava se passando, continuavam trocando idéias com os "comparsas". Durante a sessão de denúncias o único considerado realmente inocente era o morto que, àquelas alturas, já havia se tornado o modelo de marido que todas sonhavam ter tido.

Isabel sentiu pena daquelas mulheres tão ricas e tão frustradas, tão amargas e tão perdidas em seus problemas, se queimando em seus infernos particulares. Quando teve uma oportunidade, pediu licença e se afastou do grupo que continuou sua função judicial.

Devagar ela foi caminhando até o bar na área do velório, comprou uma Coca-Cola e se assentou em um dos bancos do jardim. Ficou observando o entra-e-sai das salas onde estavam os mortos—coroas de flores que chegavam, pessoas que passeavam caladas, um grupo de homens que pareciam estar contando piadas, e, naturalmente, alguns moradores das redondezas que, mesmo sem conhecer ninguém, sempre vinham dar uma olhadinha nos mortos do dia. "Velório será sempre essa doidice! Um mundo de gente que está sempre pronta a se juntar em ocasiões especiais, essas pessoas pegas de surpresa, entre nervosas e conformes, essa mistura de sentimentos e ações tão desencontrados" pensou Isabel. "Positivamente a morte não é uma coisa fácil para o ser humano entender e encarar como sequência da vida. Todos se confundem muito, pensam que estão se comportando com naturalidade mas não passam de vivos agitados com medo de solidão".

... festa de morto é ladainha, medo de vivo é solidão ...

A lembrança da música de Gil vinha se misturar a outras tantas; o tempo ia e vinha na sua memória, trazia e levava sentimentos guardados por tantos anos. O silêncio era perturbado pelo som monótono de vozes baixas e de soluços. O calor sufocava; era final de abril e aquele estava sendo um ano sem chuvas. As pessoas continuavam chegando e se abraçando. O homem gordo, de pé junto a uma pilastra, espremido em seu terno marrom escuro, enxugava o rosto com um lenço branco já bastante usado. Uma senhora, de cabelos azulados e protegidos por uma fina rede, guardava umas mitenes delicadas dentro da bolsa. Algumas crianças brincavam de esconde-esconde. Isabel olhava de longe a cena quase surrealista. Sentiu que não fazia parte daquele quadro; tudo parecia apenas um pedaço de sonho.

... só sinto frio na alma, estou vazio de sentimento ...

A música continuava insistente na sua cabeça e ela se lembrou da voz de Nara Leão—"tão nova para morrer! e de câncer! doença estúpida!"

Pensou no homem que estava sendo velado pela família, pelos amigos e por desconhecidos.

... o vivo morreu cercado, de muita luta e alegria,

seu sorriso agora é nuvem, sua festa ladainha ...

Ela não viera até ali para dar os pêsames ao irmão dele ou à família, para ouvir as lamúrias e as maluquices daquelas vizinhas patéticas, para se impregnar de cheiro de flores e velas, para se sufocar naquele calor ridículo. Ela viera para colocar um ponto final numa história de dezoito anos. O homem no caixão, durante todos aqueles anos fora apenas uma voz pelo telefone.

Os telefonemas começaram quando Isabel estava com vinte anos de idade. Fora um acaso no carnaval de 1970. Ela estava se preparando para fazer o vestibular.

O telefone tocou e Isabel atendeu repetindo o número do aparelho. A voz que veio do outro lado era bonita e perguntava se poderia falar com Marília. Não havia ninguém com aquele nome na casa, explicara ela; o homem fez um comentário qualquer e disse que tinha gostado da sua voz; perguntou se poderia telefonar depois do carnaval; ela disse que sim. Na quarta-feira de Cinzas ele ligou, e depois ... e depois ... e depois ... A mãe implicava perguntando que tipo de homem seria aquele que não aparecia nunca, que ficava escondido atrás de um fio de telefone. Isabel não tinha as mesmas preocupações e se sentia feliz recebendo as chamadas do misterioso Carlos Laredo Leite. Foi fácil se apaixonar por ele; tinha certeza de que um dia eles se encontrariam, era só questão de tempo. Carlos lhe disse que era pediatra e que tinha um consultório na cidade—para Isabel aquilo era suficiente. Ele era um homem inteligente, falava sobre coisas interessantes, os dois se divertiam ao telefone. Mas ela nunca o via. Claro que tentara algumas vezes convencê-lo a se encontrarem mas nunca tivera sucesso porque ele sempre tinha uma desculpa para evitar os encontros.

O ano passou rápido. Isabel fez os exames para o vestibular e teve sucesso; ficou entre os primeiros colocados em Física. Carlos ficara feliz quando soube do resultado. Ela disse a ele que talvez pudessem sair para comemorar—era aquela a sua chance de ver o rosto de telefone cor de cinza. Mas Carlos lhe disse calmamente "acho melhor deixarmos como está, Isabel. Eu sou muito mais velho que você; há pouco tempo saí de um casamento que não deu certo, tenho um filho e uma filha que ficaram com a mãe. Não quero me envolver com alguém tão cedo e não quero correr o risco de me envolver com você porque vou acabar atrapalhando a sua vida, e você não merece uma coisa dessas. Um dia, quem sabe, eu apareço. Mas não quero lhe prender. Você está livre pra namorar, pra ter um mundo de amigos. Agora que você está indo para a faculdade, vai ver como tudo será diferente, excitante, quanta coisa você vai aprender, principalmente sobre a vida. Vamos fazer um trato; quando você arranjar um namorado, você me diz e eu nunca mais telefono". Isabel tentou argumentar mas acabou aceitando as ponderações dele; não insistiu mais nos encontros e os telefonemas continuaram.

O primeiro ano de faculdade trouxe uma vida diferente e ela foi amadurecendo e olhando tudo com olhos de descoberta. Mas Carlos continuava ainda sendo parte importante da sua vida. Tudo o que acontecia ela contava à noite para ele, e os dois se deliciavam com as novidades.

Certa vez ela comentou sobre os telefonemas com Graça, sua melhor amiga; a moça ficou curiosíssima querendo, de qualquer forma, desvendar aquele mistério. Graça não entendia como uma coisa assim estava se prolongando por tanto tempo sem que Isabel fizesse nada para descobrir "quem era a voz do telefone" ou acabar com aquela loucura de uma vez por todas. Mas não havia uma forma de puxar a linha do complicado novelo, e o caso acabou sendo esquecido.

Isabel não disse nada a mais ninguém sobre o assunto. Ela não conseguiria explicar mesmo o que a levava a cultivar o mistério, o que a fazia continuar alimentando a fantasia. Como fazer as pessoas entenderem que era a primeira vez que tinha alguém que lhe dava tanta atenção, que a fazia sentir tão especial. Passara anos cheia de complexos, fechando-se no seu mundo, escondendo seus medos, sua vontade enorme de ser gostada, notada, desejada. Não queria arriscar uma rejeição, não queria perder definitivamente a única chance em tantos anos de ter alguém como Carlos. Para ela, ele deixara de ser um mistério—ela o conhecia tão bem! Ele era real, ele existia, ele conversava com ela e a tratava com um carinho muito grande. Aquilo era suficiente; não precisava de mais. Que importava se quando ia dormir levava para a cama suas fantasias e sonhava sonhos impossíveis! Pelo menos ela podia preencher assim o vazio que sentia e que não conseguia disfarçar, mesmo quando se afogava em livros e projetos, ou quando saía com os amigos.

Uma tarde Carlos ligou e disse que a tinha visto naquela manhã; ela estava usando uma calça comprida azul claro e uma blusa listrada de branco e vermelho. Isabel quis saber onde ele a vira, como ele estava vestido, se estava sozinho, e mais uma porção de detalhes. Ele lhe disse que fora em frente à casa dela; a prefeitura estava fazendo uma grande obra de beneficiamento da rede de esgoto naquela região e ele estava lá com um grupo de seis amigos vendo o trabalho. Disse que a vira entrando numa casa de dois andares, com gressite vermelho na frente. Ela tentou se lembrar do grupo mas não tinha a menor idéia de como eram aquelas pessoas. Perguntou por que ele estava visitando aquela obra; ele disse que era apenas por curiosidade. Perguntou o que era gressite; ele respondeu que eram os tijolos de revestimento do exterior da casa. Continuou fazendo mais uma série de perguntas e ele continuou dando respostas evasivas, fazendo-a se sentir cada vez mais frustrada.

Veio o tempo em que ela começou a se sentir cansada daquela história. O entusiasmo diminuíra um pouco com a certeza de que Carlos seria, sempre, apenas uma cara de telefone cor de cinza. Podia acabar com tudo aquilo, pedir a ele que não telefonasse mais, que a deixasse sossegada. Mas era uma decisão difícil de ser tomada porque havia ainda um restinho de esperança naquele coração bobo e vazio. O melhor era mesmo continuar do jeito que estava; afinal de contas, não fazia mal nenhum e ele era sempre tão carinhoso e paciente com ela que valia a pena continuar a sua fantasia.

Num sábado depois das aulas, Isabel estava conversando com seu amigo Décio, no centro da cidade, perto da escola. Quando estavam se despedindo, um homem extremamente charmoso se aproximou deles e cumprimentou Décio. Os dois se abraçaram como se não se vissem há muito tempo; Isabel ficou olhando para eles, e pensando "como este homem pode ser tão sexy!". Milton tinha talvez uns trinta e seis anos, era alto, tinha bigode, e usava óculos escuros muito elegantes. Décio apresentou-lhe a amiga e disse que já estavam indo para casa. Milton insistiu para que fossem almoçar com ele. Depois de algumas ponderações, os três acabaram indo almoçar juntos. Isabel estava encantada com todo aquele charme e atenção; não queria que o tempo passasse tão depressa. Décio foi embora mais cedo que os outros dois; Milton disse que levaria Isabel para onde ela quisesse ir. Ficaram no restaurante por mais um tempo. Passearam de carro antes de ele levá-la em casa. Conversaram sobre muitas coisas mas ele se mostrou especialmente interessado nas atividades políticas dela na faculdade. Contou que era professor de matemática e que estudava russo. Ela achou um tanto esquisito—russo! Ele disse que um dia ainda leria Dostoyevsky no original, e riu da própria idéia. Quando a deixou em casa, deu-lhe um beijo e convidou-a para um passeio no dia seguinte; disse que passaria lá às três da tarde e que poderiam visitar o museu de arte moderna. Ela entrou em casa flutuando. Contou à mãe o que acontecera; estava feliz. Em todos aqueles anos de sua vida tivera muitos amigos, mas nunca tivera namorado; agora tinha um que era especial. Pensou em Carlos tão invisível; pensou em Milton tão real—um não precisava saber do outro. Um era fantasia, o outro existia de verdade. Não quis mais pensar no assunto; só queria se preparar para o encontro do dia seguinte.

No domingo Milton chegou na hora combinada. Passaram um dia ótimo; ele era divertido, contava casos engraçados, e falou que ela era bonita. Mas Isabel sentiu que aquele homem era um pouco estranho. Quando ela lhe perguntava alguma coisa mais específica da vida dele, as respostas eram evasivas, como se ele estivesse tentando esconder alguma coisa. Continuaram se encontrando durante quase um ano e ela nunca ficou sabendo nada de muito concreto a respeito dele, a não ser que trabalhava para a Mercedes Benz e que seu nome era Milton Cláudio Lins de Carvalho. Algumas vezes conversava com Décio a respeito mas ele estava sempre brincando e dizendo que Milton tinha nove filhos com nove mulheres diferentes. Ela não conseguia entender porque os homens com quem se envolvia estavam sempre cercados de mistério. O tempo passou e o relacionamento deles foi esfriando aos poucos. Ficaram amigos e ele continuou uma incógnita para ela.

Passaram-se mais dois anos e os telefonemas ainda continuavam. Carlos nunca soubera a respeito de Milton.

Um dia, Carlos viajou para São Paulo e não disse nada a Isabel. Durante uma semana ela não recebeu nenhum telefonema. Era a primeira vez que ficava tanto tempo sem falar com ele, sem ouvir a voz dele, e achou que aquilo era muito ruim. Depois do terceiro dia em que ele não lhe telefonava, ela recebeu um cartão. Nele Carlos dizia "Sabe, de repente me deu uma vontade enorme de escrever para você ..."

Em julho de 1974, Isabel conheceu José Eduardo. Começaram a namorar e ela, mais uma vez, não contou nada a Carlos. E os telefonemas continuaram. José Eduardo levou-a para jantar no dia do aniversário dela. Quando chegou em casa a irmã lhe disse que Carlos ligara para lhe dar os parabéns; ela dissera que Isabel saíra com o namorado para jantar. No dia seguinte Carlos voltou a ligar; disse que aquela era a última vez que se falavam; não telefonaria mais porque já existia um namorado de verdade na vida dela. E assim, depois de quatro anos, os telefonemas foram interrompidos.

O tempo passou, Isabel terminou seu curso e começou a trabalhar. Nunca mais recebera um telefonema, e acabou colocando tudo aquilo num cantinho da memória.

Seis anos depois, num sábado à tarde, como mágica, a voz voltou a chamar. Ele se mostrou impressionado com a memória auditiva dela que o identificou assim que ele falou "como vai?"; depois disse que estava de passagem pela cidade, que voltara a viver com a mulher e os filhos e que estavam morando em Goiânia. Disse que viera visitar uns amigos na cidade e que resolvera verificar se a garota do telefone ainda morava no mesmo número. Ela ficou feliz em falar com ele mas sentiu que já não era como antes; mudara muito, estava mais madura. Contou a Carlos que tinha uma filha de quatro anos e que não se casara; disse que estava feliz, tocando a vida para a frente e trabalhando demais. Despediram-se melancólicos e ela nunca mais falou com ele.

Em 1988 Isabel foi a Brasília assistir uma conferência no Hotel Carlton. Encontrou-se lá com seu amigo Fábio que a convidou para jantar com ele e um grupo de amigos engenheiros. Ela aceitou o convite—não estava mesmo com vontade de passar a noite sozinha, assistindo televisão em seu hotel que ficava a uns cento e vinte metros do Carlton. Chegou na hora combinada e Fábio a recebeu no "hall" do hotel, levando-a até o bar para um coquetel; enquanto esperavam pelos outros, poderiam conversar bebendo alguma coisa leve. Um pouco depois, dois homens vieram se juntar a eles. Fábio se levantou quando os viu chegar, cumprimentou-os e fez as apresentações—César, Fernando e Isabel. Em seguida foram para o restaurante do hotel e pediram uns drinques. Enquanto conversavam Isabel notou como César era calado e parecia alheio ao que se passava ali—"homem esquisito!", pensou ela. Os outros foram chegando e se acomodando. As apresentações foram feitas e todos se mostraram muito amáveis com Isabel que era a única mulher à mesa, e a única que não fazia parte do grupo. Quiseram saber o que ela fazia e por que estava em Brasília. Ela explicou que trabalhava no reator atômico da universidade em Belo Horizonte e viera para uma conferência naquela tarde; o apresentador era um professor da Universidade de Stanford. Isabel continuou intrigada com o silêncio de César; viu-o trocar umas poucas palavras com Fernando e, asssim mesmo, de forma que o que era dito ficasse apenas entre os dois. Ela percebia que todas as vezes que dizia alguma coisa, César virava o rosto e não parecia interessado no assunto; sentiu-se incomodada com aquela atitude dele, bastante deselegante. Ficou muito irritada—o homem era realmente muito antipático. Ele passou assim toda a noite e não fez questão nenhuma de disfarçar seu desinteresse por ela ou pelas coisas que ela dizia. "Um perfeito grosseirão, chauvinista!" pensava Isabel com raiva.

Ao final do jantar, pediu a Fábio que a levasse de volta ao hotel onde estava hospedada. Imediatamente César se ofereceu para fazer isso. Ela ficou surpresa com aquela delicadeza repentina e não gostou nada da idéia de ter que tolerar aquele sujeitinho mal-educado pelo caminho, mesmo que fosse um caminho curto. Mas acabou aceitando o oferecimento porque Fábio parecia muito envolvido na conversa com o resto do grupo, e ela não queria ser desagradável. Saíram e foram caminhando quase em silêncio. Ele lhe fez algumas perguntas que exigiam respostas um pouco mais longas do que ela queria realmente dar. Quando chegaram Isabel agradeceu-lhe a gentileza, disse boa noite e fez menção de entrar. Ele estendeu-lhe a mão e ela não se negou a estender-lhe a sua. César a deteve assim por um momento e, olhando-a de frente, disse que tinha tido um imenso prazer em conhecê-la e que gostaria muito de levá-la para um chá numa tarde qualquer, assim que voltassem para Belo Horizonte. Isabel sorriu pouco à vontade e pensou "ah! não! ir tomar chá com você! aí já é pedir demais! não vai ser possível!". Agradeceu o convite e disse que teria muito prazer; ele pediu o telefone dela que, muito a contragosto, repetiu os números. Finalmente ele lhe deu boa noite e foi-se embora. Ela entrou no hotel com uma sensação extremamente desagradável. Era um alívio não ter mais aquele homem tão próximo, olhando para ela, segurando sua mão e fazendo o convite com aquela voz arrastada!

Voltou para casa dois dias depois daquele jantar. Envolvida em sua rotina, não pensou mais no que acontecera. Fábio ligou uns dias depois dizendo que todos tinham gostado muito dela e que César comentara como ela era interessante. "Irrck!!! Que homem mais desagradável! Espero que ele se esqueça que eu existo!" pensou ela, mas não comentou nada com o amigo.

Na semana seguinte, sexta-feira à noite, ela estava se preparando para ir a uma festa quando o telefone tocou. Foi atender correndo porque queria ficar livre logo para poder sair. "Como vai?" disse a voz do outro lado da linha. Ela não pôde acreditar. "Carlos Laredo Leite!!!", disse numa mistura de surpresa e descrença. O homem do outro lado da linha disse com voz pausada "Carlos?! Não! Não sou o Carlos!". Isabel, um pouco agitada, com o coração batendo apressado disse quase gritando "não há engano! nunca vou esquecer esta voz e você sabe disto! Meu Deus! depois de tantos anos!!!" Ele disse "sinto muito mas não sou o Carlos. Você me encontrou em Brasília na semana passada; jantamos com Fábio." Ela parou assustada e perguntou "qual é o seu nome?". Ele falou sério "pra dizer a verdade eu sou o Carlos, mas este não é o meu nome verdadeiro. Você não pode adivinhar quem era eu naquele grupo?" Isabel ficou um pouco nervosa e se sentiu incomodada com aquela brincadeira de mau gosto. Disse que ele se identificasse logo e que não continuasse com aquele jogo. Ele então falou "meu nome é César". O choque não poderia ter sido maior. Ela ficou calada por uns segundos e César perguntou com voz ansiosa "está decepcionada?" Ela respondeu apenas "se isto é verdade, é muito estranho que depois de dezoito anos eu o conheça dessa forma." Ele lhe disse que aquela fora uma estranha coincidência e que custara a acreditar quando a vira conversando com Fábio. Lembrou-se dos cabelos longos da menina que ele havia visto algumas vezes na mesma rua onde seu irmão morava—ela nunca soubera daquilo! Ele não acreditara, a princípio, mas sabia que não havia engano. Para ter certeza absoluta de que era ela, durante o jantar, quando Isabel falava alguma coisa, ele tentava ouvir apenas a voz dela e para isso virava o rosto. Depois de uns poucos minutos ele tivera certeza de que realmente não havia engano. Continuou dizendo que estava muito feliz em poder, depois de todos aqueles anos, reencontrar alguém que era tão importante para ele. Como se quisesse provar para si mesma que aquele não era o seu Carlos, o Carlos com quem ela sonhara por tanto tempo ela o interrompeu dizendo "OK! Eu acredito no que você está falando se me disser duas coisas: a primeira é como eu dizia que imaginava o seu rosto, e a segunda é qual era a nossa música?". As respostas vieram como uma unhada no coração dela "Você dizia que eu tinha cara de telefone cor de cinza, e a música era Love is a many splendored thing". Ela sentiu uma moleza invadindo o corpo e tomando o lugar da alma—aqueles eram detalhes que apenas ela e Carlos sabiam. Teve vontade de correr, de gritar, de chorar. Antes que ele continuasse, Isabel falou secamente que estava saindo para uma festa e que talvez fosse melhor conversarem numa outra ocasião. Ele disse que ligaria depois. Isabel ficou ali, imóvel, sentindo que alguma coisa fora perdida em sua vida. Foi para a festa, mas ficou lá todo o tempo remoendo sensação de perda.

Na semana seguinte ele voltou a telefonar e ela pôde lhe dizer algumas coisas que guardara por tantos anos. Ele então lhe contou a verdade. Disse que Carlos Laredo Leite era uma farsa e que ele era engenheiro e não pediatra; escondera-se atrás daquela identidade para ter os melhores momentos de sua vida. Não poderia, àquela época, lhe contar a verdade toda e parte dessa mesma verdade acabaria complicando muito mais as coisas. A cada tarde, depois que todos saíam do escritório, ele pegava o telefone e podia, daquela forma, se encontrar com ela, conversar com a menina inocente que do outro lado da linha dividia com ele sonhos e fantasias. Ela era a sua grande alegria naqueles anos. Isabel finalmente lhe perguntou se ele tinha consciência do que havia feito com ela, e César disse apenas "pra dizer a verdade, eu sempre fui um tremendo egoísta! eu era feliz com aquilo e pra mim era o bastante. Pra disfarçar o remorso que às vezes sentia eu racionalizava dizendo a mim mesmo que você também era feliz". Ele inventara tudo, nenhum detalhe fora esquecido—a história da mulher, do casamento infeliz, da separação, das crianças, a reconciliação com a família, a mudança para Goiânia—tudo uma grande e impiedosa mentira! Isabel lembrou-se de sua mãe e teve vontade de chorar. Ouviu-o dizendo "em Brasília pude realizar meu grande sonho daqueles anos—pegar na sua mão e olhar nos seus olhos." Isabel sentiu raiva, mágoa, pena—dele e de si mesma. Era apenas um homem velho e solitário, nada mais. Mas tinha sido injusto—ela era apenas uma menina boba! Ele fora perverso, abusara de sua ingenuidade, de sua estupidez. Sentiu que alguma coisa agonizava dentro do coração. Preferia que nada daquilo tivesse acontecido; preferia que o mistério tivesse continuado para sempre.

Quando ele parou de falar ela lhe pediu que não ligasse mais. Ele tentou insistir, disse que entendia que ela estava magoada e pediu que ela o perdoasse. Como se não ouvisse mais nada, Isabel se despediu e colocou o telefone no gancho lentamente.

Dois meses depois, na quarta-feira pela manhã, enquanto tomava o café, dera uma olhada rápida no jornal e vira o obituário. O nome dele estava lá—César Tomini Castero. Chegara o momento de enterrar aquela história toda.

A Coca-Cola gelada acabou de descer pela garganta dando-lhe prazer.

Viu o movimento no velório número três. Estavam levando o morto. Os amigos carregavam o caixão solenemente. Isabel se levantou, deixou a garrafa de refrigerante vazia sobre o banco, pegou a bolsa, ajeitou o vestido com cuidado e foi se juntar a Adélia que, finalmente, parara de conversar com as vizinhas.

Todos caminhavam em silêncio seguindo o cortejo. A viúva acompanhava de perto o caixão e era amparada pelo cunhado; suas pernas pareciam extremamente pesadas. Não chorava mais; as lágrimas se transformaram em saudade, daquelas de carregar para sempre. César não estava mais com ela, não estava com mais ninguém.

... seu amor cama vazia, numa varanda do céu,
seu amor cama vazia, numa varanda do céu ...

Isabel teve saudade da criança que tinha sido um dia mas que naquele momento estava desaparecendo de vez. Olhou para Elvira e sentiu uma grande pena dela.

O calor sufocava, mesmo que a tarde já estivesse se transformando em noite. Isabel olhou para as pessoas que ainda estavam por lá; o homem gordo de terno marrom, andando com certa dificuldade, a senhora de cabelo azulado que caminhava segurando o braço de uma mocinha com o rosto cheio de espinhas. As vizinhas estavam agora muito quietas. A que parecia um barrilzinho de chopp limpava o nariz com um lenço de linho rosa. Isabel lembrou-se do que ela havia dito sobre a fidelidade do morto—"nunca tivera um pensamento sequer para outra". Sentiu vontade de rir, mas aquele não era o momento nem o lugar.

The original title of this unpublished short story is "O Funeral." Its author, Adelaide Bouchardet Davis, born in Visconde do Rio Branco, Minas Gerais state, is a writer and professor of Portuguese at Denver University, state of Colorado. You can reach her via e-mail: addavis@du.edu

Copyright © Adelaide Bouchardet Davis


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