Brazil - Brasil - BRAZZIL - News from Brazil - Vidas do Carandiru (Historias Reais) by Humberto Rodrigues - Brazilian Literature Portuguese Language - January 2003



 

Brazzil
Literature in Portuguese
January 2003

Lives from Jail

After 15 minutes, the gallery was invaded by around 20 policemen
from Garra, all dressed as Ninja, and heavily armed with 12-gauge
shotguns, baseball bats, iron bars and electrical nightsticks,
cussing and screaming. They commanded that
all inmates take off their clothes shouting, "Everybody
naked, get out, you assholes, you shit flies."

Humberto Rodrigues

PRISÃO SÚBITA

Não sou um homem religioso. As relações da alma com o Criador são tão puras que considero uma profanação buscar intermediários. Mas em meu íntimo sempre achei que todos nós temos um anjo da guarda. Só que, naquela tarde fatídica de 23 de maio de 2000, o meu devia estar de férias. Contra todas as probabilidades, eu fui preso. Era uma bela tarde de temperatura amena, com sol e céu azul. Eu nunca havia imaginado que coisas como essas podem ser tão caras, tão importantes para nós.

Tampouco podia imaginar os horrores de uma prisão.

Em minha opinião, a maior ironia de nossas vidas é que, apesar de todo o avanço tecnológico, o ser humano jamais poderá prever o que vai acontecer no minuto seguinte. E nada neste mundo poderá mudar isso. O FUTURO A DEUS PERTENCE…

Se isso fosse possível, poderíamos evitar uma série de acontecimentos que julgamos em sua maioria injustos, sejam eles dramáticos ou banais. Desastres e calamidades acontecem com freqüência por estarmos um minuto a mais ou a menos em determinado lugar.

Poucos sabiam de minha situação. Eu estava com prisão preventiva decretada, como suposto mentor de um assalto, por provas circunstanciais, desde o dia 1º de março de 1999, ou seja, havia quase um ano e meio. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje, e jamais vou esquecê-lo. Estava em um restaurante terminando de almoçar com meu amigo Vilalva, tomando um cafezinho e pronto para sair, quando percebi a chegada da polícia. Eram quatro homens dando-me voz de prisão. Eu e meu amigo ficamos perplexos. Lembro-me do zumbido que apareceu em meus ouvidos, parecia um turbilhão, a boca seca, o suor frio e a adrenalina a mil. Procurando encarar o fato (ou fatalidade) com serenidade, tive de fazer um grande esforço para me recompor.

Não acredito no diabo, muito menos no inferno. Mas logo iria descobrir que o inferno existe, e aqui mesmo neste pequenino planeta azul cheio de surpresas.

Um minuto depois, eu já estava no assoalho de uma caminhonete, algemado e com destino ignorado, sentindo-me como um saco de batatas sendo transportado. Era jogado de um lado para outro, à medida que o camburão corria pelas ruas da cidade. Minha cidade! Jamais poderia imaginar que iria ficar tanto tempo sem vê-la, sem sentir a sua atmosfera regozijante de vida. Após quinze minutos—que mais pareceram uma eternidade—de um longo e torturante trajeto, eu seria descarregado e encaminhado às vexatórias providências burocráticas de uma prisão, com fotos de lado e de frente, tinta nos dedos, etc.

Após mais de três horas algemado, fui levado por um longo corredor, com grades de ferro e cadeados, cujo ranger penetrava em minha mente à medida que iam sendo abertos e trancados às minhas costas. Surpreendentemente, eu estava calmo, como que anestesiado, lembrando-me das cenas do filme "O Conde de Monte Cristo". Eu estava adentrando o inferno. Iria conhecer a prisão do Depatri.

Tudo isso aos 67 anos de idade, e eu que pensei que já tivesse vivido todas as emoções da vida.

Imaginem um quarto grande, de aproximadamente cinco metros de frente por seis de fundo, sem janelas, com grades na parte frontal, e correntes e cadeados exatamente igual ao porão de um navio negreiro. Lateralmente, apenas uma pequena passagem para um cubículo de um metro de largura, com uma latrina e um chuveiro, sem uma pia sequer, tornando as mais simples necessidades de higiene muito difíceis.

Nas paredes internas, doze beliches com três camas cada, todos de cimento, alguns com um cobertor surrado e colchonetes de 5 cm de espessura. A única lâmpada de sessenta velas deixava tudo cinza, inclusive os cinqüenta presos que lá dentro se acotovelavam. Nesse momento, senti-me como um passarinho sendo colocado numa gaiola junto com cinqüenta gatos.

Ledo engano.

A recepção foi cordial. Eu iria descobrir que os presos em geral são solidários e prestativos com seus companheiros. Procuram ser simpáticos, oferecem cigarros e o que tiverem para comer. A lei da cadeia, quando se entra em uma cela, é: em primeiro lugar, tirar os sapatos, vestir sandálias havaianas e tomar banho. Eu ainda estava com os pulsos intensamente doloridos das algemas quando terminei esse ritual, com sabonete e toalhas cedidos pelos novos companheiros. Logo em seguida devemos tomar atitudes e proceder como homens, para não sermos alvo de gozações e provocar reações que às vezes podem ser fatais. Uma palavra à toa, bem-intencionada, poderia provocar suspeitas. Qualquer atitude estranha criaria situações críticas intoleráveis. Se conseguirmos demonstrar segurança e sermos cordiais, receberemos respeito e cordialidade. Felizmente, foi assim que se sucedeu.

Curiosa foi a impressão que meus companheiros tiveram quando entrei na cela. Como eu estava bem-vestido, com casaco de couro, camisa com gola rolê, calça de camurça, sapatos engraxados e óculos escuros, eles pensaram que eu era o novo delegado. A descoberta da verdade foi motivo de muito riso, que todos nós compartilhamos.

Quando cheguei na cela já era noite, o problema era onde iria dormir. No chão, evidentemente, pois os mais antigos dormiriam nos beliches, dois em cada cama, na posição de valete, como nas cartas de baralho. Nenhum dos dois se mexe. Os beliches mais altos quase tocavam o teto, e contaram-me que de vez em quando um preso dormindo lá no alto despenca, machucando-se bastante além de freqüentemente atingir um companheiro no chão.

Mesmo assim a maioria permanece deitada, levantando-se apenas para suas necessidades ou na hora das "refeições". Naquela noite e nas seis seguintes, eu dormiria no chão, em cima de papelão, com meu casaco de couro servindo de travesseiro. Quanto ao sono… os leitores poderão imaginar…

O pesadelo noturno se distanciava, parecia um acontecimento bem antigo. Ficava quieto encolhido em meu canto, fechava os olhos e tornava a abri-los. Uma indignação muito grande tomava conta de meus pensamentos. Às vezes conseguia lembrar alguma coisa de meu passado, até de minha infância, e, nessas rápidas fugas, consumia um cigarro atrás do outro. As comichões no corpo eu atribuía à roupa sem lavar, ou às picadas de pulgas e percevejos, sei lá… Muitos tossiam e pigarreavam, outros roncavam. Havia um negro nigeriano, enorme e gordo, que quando dormia parecia uma moto com escapamento aberto. Os companheiros jogavam coisas nele, mas não adiantava—um minuto depois, a moto voltava a toda velocidade.

Finalmente, tomado por uma enorme fadiga, permaneci inerte, acompanhando o decrescer das vozes e dos gestos ao redor. Em seguida veio o torpor e o sono. Para que ficar pensando no imprevisível?

No dia seguinte começavam a esboçar-se camaradagens, apoiávamos nelas as nossas fraquezas. Criaturas desconhecidas e anônimas falavam-se como se fossem velhos conhecidos. Embora a situação fosse tragicômica, era divertido ouvir a quantidade de gíria que eles utilizavam para se comunicar. Eu não entendia bulhufas. E até Camões ficaria com inveja de vocabulário tão diversificado. Cadeia também é cultura. Afastava-me, acercava-me dos grupos, esforçava-me para descobrir particularidades de linguagem ou mesmo de fisionomias. Era difícil associar as figuras aos nomes. Com o tempo, eu viria a descobrir princípios de honra que me surpreenderiam.

O ser humano costuma apontar os defeitos e fraquezas de seus semelhantes, e omitir as qualidades. Na cadeia é o inverso. Respeito e dignidade são fundamentais para os detentos. Fiz o possível para entender aqueles companheiros, em sua maioria pessoas simples e humildes, penetrar-lhes a alma, sentir suas dores, admirar-lhes sua relativa grandeza. Seja branco, negro ou pardo, velho ou moço, bom ou mau, ladrão ou assassino, não há preconceito algum. Exceto com os estupradores.

Durante o dia joga-se conversa fora, conta-se um ao outro o seu drama e a sua história. Todos viveram episódios, padeceram de dores inauditas, como raramente é dado ao homem experimentar.

Alguns mostraram traços de grandeza e dignidade e outros, por falta de estrutura social, educação e pela própria ironia da vida, mostram a medida exata daquilo que existe de mais sórdido na condição humana. E por que não? Se na própria sociedade encontramos esses perfis… Curiosamente, dentro da cadeia, os próprios presos não permitem qualquer deslize. Eles odeiam a falsidade e a delação e qualquer assunto é resolvido entre eles, jamais solicitam a intervenção da polícia. Quando surge uma briga, esta é imediatamente apartada. Eles sabem das conseqüências. O preso não pode ser "vacilão", tem de estar sempre "ligado". Ou aprende a ser homem ou será alvo da reprovação geral. E aí…

Tenho 67 anos e uma carteira profissional com mais de vinte anos de registro. Trabalhei em grandes empresas, sempre no cargo de diretor ou gerente, e posso afirmar que a cordialidade ou solidariedade desses companheiros de prisão nada fica a dever àquela que recebi nas empresas onde trabalhei.

Havia entre nós um rapaz que tinha sido baleado no abdômen, cujo apelido era Baleado. Ele tinha a necessidade de quatro curativos diários. Em momento algum faltou alguém que se prontificasse a fazer os curativos. Seu organismo estava combalido, sobre o qual se atiravam sobrecargas consideráveis; talvez não resistisse o necessário. Não sei o crime que ele cometeu, mas seria justo estar numa cela infecta? Se chegasse um preso sem agasalho, era certo que aparecia algum; se na cela não houvesse uma determinada coisa, era pedida na cela vizinha—e, se fosse possível, o pedido estaria logo sendo atendido. Jamais vi um companheiro negar um cigarro a outro. Além disso, eles têm uma capacidade de imaginação digna de nota. Queriam jogar damas. Não é que um belo dia apareceu um jogo de damas, com tampinhas de Coca e Fanta e um tabuleiro de papelão muito bem feito? Foi bom porque eu sempre ganhava alguns maços de cigarros nas apostas… Quando chegava um alvará de soltura, era uma verdadeira festa. Todos batiam palmas e davam votos de felicidades. Era uma alegria geral. Todo diálogo ou pedido, atendido ou não, sempre terminava com a clássica frase: "Firmeza, irmão", como se dissessem "Muito obrigado, agüente firme, dias melhores virão". Sempre havia uma palavra de estímulo ou de consolo para todos. Entre os companheiros, todos são chamados de "irmão". Existe sempre algo de grande entre os humildes.

Eu mesmo fui alvo dessa solidariedade. Poucos dias antes de ser transferido para a Casa de Detenção, o famoso Carandiru, tive uma crise de gastrite, meu estômago estava um caco e passei dois dias e duas noites vomitando. Enquanto meus companheiros não conseguiram que eu fosse levado a um hospital para ser medicado, ficaram o tempo todo batendo com as canecas nas grades, solicitando o atendimento. Justiça seja feita, quando fui levado ao hospital, fui escoltado por dois policiais e tratado com lhaneza. Depois de medicado, durante o percurso de volta, chegaram a parar a viatura em frente a uma padaria e a comprar um litro de leite com o próprio dinheiro. Tomei aquele leite quase de um gole só, já que não me alimentava havia algum tempo. Infelizmente não fiquei sabendo o nome deles, mas registro aqui minha gratidão. Foi o leite mais delicioso que tomei em minha vida.

Conheci um preso que realmente me impressionou. Já fazia vinte dias que eu estava preso quando ele chegou, de madrugada. Estávamos deitados, naquele dorme-não-dorme, e ouvimos o barulho dos cadeados e das correntes para logo em seguida a porta se abrir. Embora a cela estivesse lotada e o chão coberto de detentos, tentando se acomodar da melhor maneira possível, era mais um preso que chegava. Com todos sonolentos, a conversa foi pouca e adiada para o dia seguinte. É normal quando chega um novo preso que os companheiros de cela queiram saber quem é, como foi sua prisão e o que ele fez (se fez). Essa colocação entre parênteses não é absolutamente uma ironia, pois entre os cinqüenta que lá estavam, pelo menos cinco não deveriam estar, dentro de minha ótica, e não me incluo nessa conta. Quando muito, cometeram faltas leves que poderiam perfeitamente ser julgadas em liberdade. Se esse critério fosse adotado, muito provavelmente não teríamos hoje o maior problema carcerário do país, a superpopulação de quase 100 mil presos que abarrotam nossas penitenciárias (o dobro da capacidade atual). Mas aí não haveria desculpa para a construção de novos presídios, o que não é interessante para muitos…

No dia seguinte, o novo preso estava sentado a um canto da cela; era um rapaz novo, aparentando no máximo trinta e cinco anos, loiro, de aspecto saudável, estatura média, simpático e reservado. Seu nome: José Reinaldo. Estava discretamente conversando com um companheiro que todos já respeitavam por ser um famoso ladrão de bancos. Logo ficaríamos sabendo que a prisão do recém-chegado seria considerada o "Troféu do Ano" no Depatri: só em 1999, ele foi acusado de haver roubado mais de 5 milhões de reais e 1.600 quilos de ouro de diversos bancos. Algo em torno de 5% do que roubou o Lalau…

Era olhado por todos com admiração e respeito. Sua juventude, seu sorriso, sua simplicidade e tranqüilidade eram características marcantes. Muito embora deixasse transparecer um auge febril de energia. Conversando, logo se percebia também sua grande facilidade em desenvolver uma idéia e um diálogo. Ele acabou sendo transferido poucos dias antes de mim para o Carandiru. Quando cheguei lá, foi por seu intermédio que tive o privilégio de ficar em um bom "barraco" no pavilhão II, alojado com relativo conforto, e de conseguir um trabalho. É assim a personalidade desses companheiros, bandidos, assaltantes de banco, ladrões, cuja solidariedade e companheirismo são maiores que a de outros "amigos" que às vezes fazemos em lugares mais sofisticados…

Gostaria muito de contar a história de J.R. neste livro, mas poucos dias depois de minha ida para o Carandiru, ele foi transferido para a Penitenciária de São Vicente. Não sei qual a "mágica" que ele fez mas, astuto, experiente e com dinheiro, não deve ter sido difícil arrumar essa transferência. Do Carandiru é quase impossível fugir. Ele, que além dos assaltos, já fugiu de diversas outras penitenciárias, deveria ter muita coisa a contar. Mas, nesta altura, não se sabe onde estará. Só me resta desejar-lhe boa sorte. Afinal de contas, segundo me contou com orgulho, jamais feriu alguém ou assaltou um pobre. Roubou de organizações poderosas, que roubam dentro da lei, impedindo a tão necessária redistribuição de renda em nosso país. Roubou muito menos que centenas de políticos, que prejudicam milhões de trabalhadores, e que continuam livres, leves e soltos, aparecendo sorridentes na TV e em comícios.

Por volta do meio-dia trouxeram os "bandecos", e o almoço foi distribuído pelo "barraqueiro". Olhei de longe a comida nada apetitosa, com cheiro pouco convidativo. Mas não foi apenas isso que me fez evitá-la—reaparecia uma inapetência que eu já havia sentido algum tempo antes. Era só passar nervoso e pronto, só a vista do alimento já me provocava náuseas… Fumava sem descanso, enquanto ficava admirando o apetite de certos companheiros. Alguns estranhavam minha recusa, chegando a insistir para que eu comesse. Mas confesso que sempre fui um pouco enjoado para comida. Nunca fui de quantidade, mas de qualidade. Caso contrário, qualquer "vitamina" resolve a minha refeição. Mas como não tinha "vitamina", eu iria emagrecer mais de dez quilos em 40 dias. O "bandeco" vinha cheio de arroz cozido no vapor, quase sem tempero, com alguns grãos de feijão sem caldo. Às vezes, um bife de terceira, lingüiça ou frango, um pãozinho e água. O sabor é bastante desagradável, e dizem que a comida contém salitre. As bandejas são colocadas no colo e as refeições são feitas com uma espátula de plástico, pois os presos não podem receber talheres. Os bifes são cortados a dentadas. É uma forma muito sutil e sugestiva de se alimentar… Todos cuidam para não deixar cair um grão de arroz no chão. O preso é muito consciente da necessidade de cuidar da higiene e da limpeza, pois em uma cela com cinqüenta pessoas isso é fundamental.

Pela manhã recebemos um pãozinho emborrachado com manteiga, café e leite de soja, que chegam na cela já quase frios. Tudo isso, somado às noites mal-dormidas, ao frio, à umidade da cela e à tensão diária, deixa qualquer um doente, sofrendo do estômago e/ou do intestino. Além disso, as "refeições" eram feitas a poucos metros da latrina. Vinte por cento dos presos estavam com furunculose. Para usar o "boi" (latrina) fazia-se uma tira retorcida de papel higiênico acesa na ponta, para tentar disfarçar o mau-cheiro. O banho é diário e obrigatório, cobrado pelos próprios presos.

O Depatri é um depósito de presos que estão sumariando. Assim, quase todos os dias, entram e saem presos. Dessa forma e também por levarem em consideração minha idade (o que me sensibilizou), consegui um lugar num beliche. Se por um lado dispunha de um lugar para ficar durante o dia, com um colchonete e um cobertor puído, por outro compartilhava meu novo local com os percevejos, o que era uma faca de dois gumes. Tudo muito sofisticado, como deve ser no inferno…

Às terças-feiras, véspera das visitas, acontece a faxina nas celas, que os presos fazem questão de realizar. É a maior dificuldade: lavar os beliches de cimento e o chão da cela, com 50 presos dentro, é realmente complicado. Os que não participam da faxina ficam amontoados junto com a roupa de cama e os colchonetes em alguns beliches _ e esse processo é revezado até o término da faxina. Mas nada é impossível para que as visitas encontrem a cela limpa, e eles possam receber com orgulho suas companheiras ou familiares. Lá eles têm suas relações íntimas. Os solteiros e os que não recebem visitas íntimas só neste dia ficam nas galerias. Para que haja privacidade os beliches são tapados com lençóis e cobertores de todas as cores. A cela fica parecendo estar cheia de tendas árabes. O clima psicológico fica por conta deles.

Eu não tinha visitas e, mesmo que tivesse, ia preferir que minha companheira ficasse em casa. Mas meus companheiros aguardavam este dia com ansiedade. E tudo acontecia dentro do maior respeito. Infeliz daquele que tivesse a ousadia de se mostrar mais atrevido. O respeito à visita faz parte do código de honra do preso, e a visita é a coisa mais sagrada.

TRAGÉDIA DANTESCA

Já assisti a vários filmes sobre o Holocausto, a Inquisição, campos de concentração, torturas, etc., mas nunca conseguiria imaginar que fosse viver momentos tão dramáticos, humilhantes e dolorosos como os que passei na noite de 28 de maio de 2000.

O ambiente no Depatri é tenebroso, seu subsolo é cheio de galerias escuras, com cinco celas cada, com grades, correntes e cadeados. Nada de janelas, com exceção de uma pequena ao final de cada galeria. Sol? Nem pensar, e sem relógios perde-se a noção de dia e noite. As celas estão sempre lotadas, com a média de 50 presos em cada uma, todos com aspecto debilitado e cansado, com shorts, camiseta, sandálias havaianas e a barba por fazer. Todas as celas têm varais de roupas, geralmente cheios de camisetas de times de futebol. Para quem não fuma ou tem alergia é o fim, pois o ambiente é muito úmido, com cheiro de mofo e maconha misturado à névoa da fumaça dos cigarros.

Estávamos assistindo à TV, comprada por alguns presos; era um desses programas de domingo, altamente educativos (provavelmente, se nossa televisão não fosse tão ruim e houvesse um pouco de preocupação com a cultura, nossas cadeias não estariam superlotadas). Subitamente, ouviu-se um disparo de arma de fogo; o cheiro de pólvora e perigo imediatamente espalhou-se pelas galerias.

O tiro ficou reboando pelos cantos de cada cela. Posteriormente, ficamos sabendo que tinha sido na cela nº 12, a mais ou menos vinte metros de distância da nossa. Na prisão, todos ficam "ligados" 24 horas por dia, num clima de tensão muito grande. Aquele disparo inesperado naturalmente causou enorme rebuliço e alvoroço entre todos; eu fiquei tenso, aguardando os acontecimentos. Depois ficamos sabendo que um maluco, não se sabe como, agarrou um 38 e tentou enquadrar o carcereiro de plantão. O máximo que conseguiu foi dar um tiro na mão direita do infeliz, que valentemente conseguiu agarrar a arma e imobilizar o preso.

O carcereiro, cheio de dor e ódio, saiu gritando e xingando pela galeria. Depois disso, houve um silêncio mortal. Todos ficamos naquela expectativa do "e agora, o que será que vai acontecer?"

A inquietação nos dominava, crescia e provocava suores frios de expectativa. Pairava no ar uma ressonância de comentários inaudíveis. Procurei acalmar os companheiros, demonstrando confiança e serenidade. Mal sabia que dali a pouco iria enfrentar o diabo de frente com toda a sua fúria. E que fúria!

Depois de quinze minutos, a galeria foi invadida por um grupo de aproximadamente vinte policiais do "Garra", todos vestidos de ninja, fortemente armados com espingardas calibre 12, tacos de beisebol, barras de ferro e bastões de choque elétrico, xingando e dando ordens em altos brados. Ordenaram que todos os presos tirassem as roupas gritando "todos nus, para fora, seus cus de burros, moscas de boi".

Fomos levados para uma galeria paralela, com celas desativadas, e este percurso de uns 60 metros tornou-se um verdadeiro "corredor polonês". À medida que caminhávamos, totalmente nus e com as mãos na nuca, levávamos uma enorme surra, sem poder esboçar qualquer tipo de reação. Coitado daquele que soltasse um gemido ou chorasse, apanhava mais ainda. Todas as fisionomias estampavam o mais puro terror, angústia e medo, e seguíamos nossa procissão de amparo e encorajamento recíprocos.

Vários tiros de 12 foram disparados, um bem próximo a meu ouvido, que ficou zunindo por dois dias. No final do corredor, mais de 150 presos ficaram encurralados, num amontoado de corpos nus e indefesos.

Foi aí que começaram a bater com mais ódio e furor, obrigando todos a entrar em duas celas cheias de cascalho, provavelmente devido a alguma reforma parada. Havia um mau cheiro nauseante devido a alguma privada entupida, e lá ficamos de joelhos no cascalho, que depois de algum tempo parecia brasas ardentes.

Os ninjas batiam nas costas e nas solas dos pés, com os tacos de beisebol. Vi dois presos desmaiando de tanta dor. Depois disso, jogaram água em cima de nós e aplicaram choques com os bastões; com requintes de crueldade, alguns procuravam a área genital para aplicar as descargas. Nunca poderia imaginar algo tão desumano, covarde e insólito. Parecia um filme de terror, mas as vítimas eram reais, seres humanos.

Toda essa tortura pareceu não ter fim, durando uma eternidade. Depois desse massacre, fomos levados de volta às celas, ainda apanhando, agora no rosto, de um elemento mais espirituoso (espírito de porco), que usava uma sandália Havaiana numa das mãos e aplicava fortes bofetadas no rosto e na boca (eu tenho 1,80 m e sempre fui um homem forte, mas esse era bem mais forte). Uma dessas bofetadas acertou minha boca e abalou dois dentes, que viriam a cair mais tarde. Foi o que mais doeu, não física mas moralmente. Dói até hoje, pois estou banguela.

Quando retornamos às nossas celas frias e escuras, éramos farrapos de homens, totalmente despidos de suas vestes e de sua dignidade. Nas celas não havia restado absolutamente nada, sequer um fiapo de pano. Era totalmente dantesco, alguns companheiros sangrando com cortes na cabeça, outros com hematomas, minha boca latejava e o braço esquerdo estava imobilizado de tanta dor. A surra foi uma degradação humana inesquecível, que ficará indelevelmente marcada nas mentes de cada um dos sobreviventes.

Em nossa cela, a TV, o chuveiro elétrico e o pequeno ventilador haviam virado sucata. Permanecemos gemendo, em estado de choque, numa cela totalmente vazia e escura, como se por ali houvesse passado um furacão e devastado tudo. Os companheiros estavam exaustos e imóveis, com o olhar distante, perdido no nada, talvez pensando na família ou em dias melhores do passado. Tinham acabado de perder os últimos fiapos de dignidade que lhes restavam. Era um silêncio sepulcral, entrecortado pelos gemidos e lamentos.

Assim ficamos toda a noite e a manhã do dia seguinte, tentando se acomodar no cimento duro e frio. Só no final da tarde do dia seguinte é que camisetas, shorts e sandálias foram jogados para dentro da cela. Meu casaco de couro, do qual eu tanto gostava, meu relógio que não era do Paraguai, meus óculos escuros, sapatos e calça, nunca mais os vi. Inclusive oitenta e cinco reais que estavam num dos bolsos. Meu guarda-roupa havia sido reduzido a uma camiseta, shorts e sandálias, tudo usado, que nem sequer eram meus.

Precisamos viver no inferno, mergulhar nos subterrâneos sociais para poder avaliar coisas que de outra forma jamais poderíamos entender. Os acontecimentos me pareciam desprovidos de qualquer razão, as coisas não se relacionavam. Só o tempo poderia encarregar-se de recompor nosso raciocínio. Cento e cinqüenta presos haviam sido mutilados física e moralmente pelo erro de apenas um. A ignorância superava a razão.

Os dias seguintes foram de tensão, todos imaginando que a qualquer momento poderia acontecer tudo de novo. Foi assim durante três dias, até quarta-feira, que seria dia de visitas. É quando se recebe dos familiares um pouco de afeto, roupas, cigarros etc. Mas naquela quarta não houve visitas. Ouvíamos gritos distantes, das mães e esposas que, do lado de fora, com a visita proibida, sofriam sem saber o que havia acontecido e imaginavam o pior. Todos sofriam e choravam lá fora e dentro das celas.

Havia um companheiro que, tendo levado fortes pancadas nos rins, urinava sangue; outro sentia fortes dores nas clavículas e outro ainda não conseguia sequer se levantar. Eu, um dos que menos apanhou, estava banguela, sem dois dentes da frente. Formávamos um grupo heterogêneo que rudemente havia sido desagregado e que lentamente tentava se recompor. As figuras vacilantes, tímidas, aos poucos ganhavam relevo, imaginando a expectativa de dias melhores. Indagávamos a nós mesmos se tudo aquilo havia realmente acontecido, pois era tudo tão inacreditável, inconcebível. Sem perceber, emergíamos de um horrendo pesadelo de trevas e sofrimento inaudito.

Os ruins sairiam de lá piores ainda; os bons sairiam com ódio e rancor no coração, transformando-se em iguais aos outros.

A semana seguinte foi um verdadeiro drama. Sem a entrada de visitas, não tínhamos sequer papel higiênico. Só na semana seguinte é que as visitas foram permitidas, e aos poucos as coisas foram voltando ao "normal". O inferno voltava ao normal.

Em função de algumas denúncias feitas pelos familiares dos presos, posteriormente aparecerem por lá alguns representantes da OAB e dos Direitos Humanos, além do padre Günther, da Pastoral Católica. Conseqüentemente alguns presos foram encaminhados para o IML, quando os sintomas já haviam desaparecido.

Cinco dias depois, recebi a visita de meu amigo e advogado, dr. Ricardo Rene Ribeiro, para informar-me que eu havia sido condenado a cinco anos e quatro meses. O único alento que pôde dar-me é que já havia entrado com o recurso de apelação no Tacrim. Eu sequer havia sido ouvido pelo juiz.

São curiosas certas reações.

Meus companheiros já haviam me contado que, quando se recebe o impacto de uma bala, ou de uma facada, naquele momento nada sentimos. A dor vem depois, e como dói!

Essa é a sensação que senti quando recebi a notícia de minha condenação. Fiquei como que anestesiado, incapaz de raciocinar, atônito, aturdido. Até sorri (um sorriso banguela), quando meu advogado se despediu.

Agora encolhido a um canto da cela, lentamente meu raciocínio retorna e, com ele, a dor muda, profunda, indecifrável. Não é uma dor física, é uma dor moral, que provoca indagações, para as quais não obtemos respostas.

Foi quando surgiu em meu pensamento o poema "Se", de Rudyard Kipling, e fui capaz de declamá-lo mentalmente, coisa que nunca havia feito antes.

Se

Rudyard Kipling

Rudyard Kipling, poeta nascido em Bombaim, Índia, em 1865, filho de ingleses, educado na Inglaterra. Viajou por várias partes do mundo e viveu algum tempo na Índia, África do Sul, Austrália e Estados Unidos.

"Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio esquivares,
E não parecer bom demais nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;

De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: 'Persiste!';

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo valor e brilho:
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que é muito mais _ tu serás um homem, meu filho!"

(Tradução de Guilherme de Almeida)

* * *

E ante tão forte argumento, concluí que ainda não era o fim.

Apenas uma lição, não sei se justa ou não.

Nota: em janeiro de 2001, as instalações carcerárias do Depatri foram desativadas. Saiu até nos jornais e compareceu um monte de políticos, como se eles estivessem realizando um feito excepcional.

This text was excerpted from the initial pages of the just-released Vidas do Carandiru (Histórias Reais) by Humberto Rodrigues. The book is autobiographical and was written by Rodrigues in prison during the time he was jailed after being wrongly accused and condemned as being the intellectual author of a theft he didn't commit. At age 67, the respected journalist from São Paulo was sent to the Depatri prison on May 23, 2000 and transferred later to Carandiru, which until recently when it was deactivated, was the largest and most explosive prison compound in Latin America. The author became a teacher of Mathematics and Portuguese to his cell mates until he was set free on October 18, 2001 after being declared innocent by the Justice.

You may get more information about the book at the publisher's homepage: http://www.geracaobooks.com.br  and you can contact the author writing to geracaobooks@geracaobooks.com.br 


Send your
comments to
Brazzil

Brazil / Organic personal skin care wholesale / Brazil