Brazil - BRAZZIL - "O Despertar da Primavera" and "Verdes Anos" by Luiz Fernando Emediato - Short story - Brazilian Literature - February 1998


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TWO BY LUIZ FERNANDO EMEDIATO

The Rite of Spring

I woke up the next day at Teco's house. What day is today, where am I? Have I died?, I asked the fat guy who was sticking a needle in my vein. You didn't die, but you almost did, said the man. It was a doctor.

Luiz Fernando Emediato

Acordei com uma puta ressaca e o rádio tocava aquela marchinha escrota de Dom e Ravel. Puta que pariu, que dor de cabeça, meu pai estava brigando com minha mãe por qualquer motivo besta e aqueles dois idiotas do rádio berravam eu te amo meu Brasil, eu te amo, diziam alguma coisa sobre o verde, o amarelo, o branco, o azul anil de nossa querida bandeira e terminavam: ninguém segura a juventude do Brasil. É isso mesmo, a juventude brasileira é foda. Era sexta-feira, uma porra de sexta-feira, e eu estava atrasado para a escola.

Olhei minha cara no espelho, os primeiros fios de barba aparecendo e disse: É, Nando, você está ficando velho. Meus olhos estavam meio mortos, tristes e apagados, e quando pus minha língua para fora quase caí de costas. Era uma língua verde e parecia uma lixa. Meu Deus, pensei então, será que vou morrer? Minhas mãos tremiam. Calma, Nando, calma, foram só umas bolas e aquele fumo manchado. Calma, calma.

Meu pai estava nervoso, tinha acabado de ler o jornal e discutia com minha mãe por causa de alguma coisa que o irmão dela, prefeito, tinha arrumado na prefeitura. Uma injustiça, dizia meu pai indignado, seu irmão é um ditador selvagem, a história não perdoará seus desmandos. Que é isso, pai, eu disse, ele é só um velho careta, nunca matou ninguém.

—Mas compactua com os assassinos do povo, disse meu pai, gordo e vermelho—, e isso não se perdoa.

Olhei para meu pai e tive saudades daquele tempo em que ele andava pelo mundo em busca de aventuras e nós juntos, como ciganos. O tempo é cruel e muda as pessoas, pensei com meus pobres botões. Ou nada muda, nós é que sonhamos? Calma, Nando, não seja tão poeta. A vida não é assim tão simples.

Atenção, disse o rádio, o governo descobriu em Recife um aparelho subversivo montado pelos remanescentes da ALN, a organização fundada pelo terrorista Carlos Marighella. Três terroristas foram mortos no choque com as forças de segurança. O presidente da República...

—Seu irmão compactua com isso—disse meu pai, olhando para minha mãe com crueldade.

Ela soluçou e deixou a sala.

—Estou atrasado para a escola, pai—eu disse, e corri para a rua com minhas coisas.

Caramba, estava um sol de rachar, minhas pernas doíam e eu não podia abrir os olhos direito. Encontrei o Teco na porta da escola e também ele estava meio chumbado, e aí eu disse, pô, cara, aquelas bolas de ontem, pelamor de Deus, nunca mais! Que isso, cara, é coisa fina, disse o Teco, é que abusamos, onde já se viu, fica frio aí, não dá bandeira não. Essa noite tem mais. Na casa da Suzi?, eu perguntei. É, ele respondeu, na casa da Suzi, o Ricky vai levar, imagina que ele assaltou a farmácia da mãe dele e descolou de montão uma pá de envelopes. Puta que pariu, pensei, essa noite vai ser de lascar.

É, vai mesmo, disse Teco. E aí ele pediu: ô Nando, será que você não podia escrever um poema para mim? Ei, cara, quê isso? Ta achando que sou veado, não vou escrever versos para homem, não. Corta essa, Nando, protestou Teco, quero que você escreva uma poesia para eu dar para a Valdete. Você sabe, ela curte essas coisas, aí eu chego nela com um puta soneto, de verso em verso chego nos. peitinhos, porra Nando, quebra essa, vai ..

Tá bem, eu disse, de noite eu te levo o poema, você quer em versos alexandrinos ou em decassílados heróicos? Do jeito que você quiser, respondeu Teco, o que eu quero mesmo é pegar nos peitos da Valdete. Aí aproveitei a deixa e perguntei: Teco, você leu o conto? Que conto, cara? O do rapaz deprimido, Also Sprach Zarathustra. Nando, você sabe que não me ligo nesse cara aí, era meio doido e morreu babando, não é não? Não brinca, Teco, tô falando no meu conto.

Que história mais estranha, disse Teco deixando de sorrir, eu li sim. Você sonhou aquilo, Nando? Não, Teco, não sonhei. Mas eu também acho essa história estranha. Parece coisa de veado, disse Teco. Não se ofenda não, Nando, mas vamos e venhamos, isso não é nada másculo. Imagina se o Robertão sabe disso. Não enche, Teco, você sabe que eu era daquele jeito, ô cara, você não tem sensibilidade? É, mas se você continuasse naquela down ia acabar dando o rabo, Nando, ainda bem que você cortou a trip. Eu, hein? 

Um dia eu vou escrever isso tudo, Teco. Escrever, Nando? Como? Escrevendo, Teco. Um dia eu vou escrever uma história sobre nós dois; sobre a nossa vida aqui, nossos amigos, nossa gente; todas as nossas lembranças. Vou ser escritor um dia. Teco, você vai ouvir falar de mim. Um dia, Teco, eu vou para a cidade grande; vou escrever um livro e vou entender o mundo. E então talvez eu possa entender nós mesmos, eu, você e essa história estranha do Also Sprach Zarathustra. É uma história triste, Nando. Sim, é; é uma história triste. E não tem final, Nando. Não, Teco, não tem. É uma história sem final. Que pena, disse Teco. Toda história deveria ter um fim. É, deveria, deveria mesmo, Teco, mas esta é uma história diferente. Ela não acaba, porque também não começou. Você devia rasgar isso, Nando; é uma história falsa, você não era assim. É verdade, Teco, é uma história falsa. Mas o que fazemos senão mentir?

*****

O professor Galvão estava inteiramente louco, na aula de física fumou vinte e seis cigarros e queimou o guarda-pó, que já estava cheio de furos. Que cara mais pirado. O Robertão não parava de encher o saco, sentava na carteira à minha frente e de minuto em minuto virava pra mim e dizia: Veadinho... Putamerda, o cara encanou em mim, não largava meu pé, olhei para o Teco lá na frente e fiz uma careta, ó, o bicho aqui não pára. Fode ele, disse o Teco baixinho fechando o punho, e então cutuquei o Robertão e disse bem pausadamente:

—Sabe, Robertão, a Soninha? Pois é, estou com a calcinha branca dela, aquela de coraçãozinho, aqui dentro do meu caderno. Quer ver?

O Robertão ficou vermelho e começou a estufar as bochechas como um sapo, pensei que ia estourar, e aí eu tirei de minha bolsa uma calcinha branca de minha irmã, coitada da Sueli, ia ficar sem uma calcinha, e enquanto o Galvão escrevia no quadro a fórmula do Einstein eu pus a calcinha na ponta da régua e levantei como se fosse uma bandeira.

Todo mundo riu, mas quando o Galvão virou-se para nós eu já tinha guardado a calcinha. O Robertão rangeu os dentes e disse: pede pra ir ao banheiro e me espera lá fora, seu veado. Traga suas armas, corno, eu disse levantando. O Teco arregalou os olhos espantado e quando eu já estava saindo senti que o Robertão também se levantava, atrás. Puta que pariu, ia ser foda enfrentar o Robertão lá fora.

O primeiro soco do Robertão me acertou o queixo, mas eu fiquei apenas meio tonto e devolvi-lhe um murro na testa. Ele bambeou as pernas, mas logo me mandou um chute que me pegou a cintura. Quis derrubá-lo, mas alguma coisa me acertou o olho direito e eu só vi uma nuvem de sangue. Caí de quatro e o Robertão, com um galo na testa, cuspiu na minha cara e disse: seu veado... E, virando as costas, voltou para a sala.

Lavei meu rosto na pia do refeitório, limpei o sangue da roupa e pensei que aquilo não valia a honra de um homem. Quando entrei na sala, logo depois do Robertão, o Galvão já tinha sacado tudo e olhava pra nós com ironia. Energia é igual a emecêdois, ele disse, matéria em movimento, assim são as coisas no universo.

Deu o sinal, terminou a aula e antes que todos saíssem peguei a calcinha da Sueli, joguei na cara do Robertão e disse bem alto, pra todo mundo ouvir: tá bem, Robertão, não enche mais o saco, não precisa brigar por isso, pode ficar com a calcinha da Soninha. E antes que ele reagisse puxei o Teco e saí correndo para o pátio. Não sou nenhum herói.

Depois da festa na casa da Suzi tem um baile no Naútico Clube, disse o Teco, e eu já comprei dois litros de rum. Agora você compra o limão e a coca-cola, pois as bolas quem vai trazer é o Ricky. Tá bem, respondi, mas não sei se vou agüentar. Olha só o meu olho, essa puta ressaca e o Robertão ainda me quebra a cara. Deixa estar que a gente pega ele na curva, disse o Teco.

A Soninha passou requebrando as cadeiras e mostrando a bundinha magra, eu assoviei e logo atrás veio o Robertão, furioso. Saímos de mansinho e ele passou batendo os pés como um boi. E então?, disse Teco. Deixa ele ir, eu disse, deixa pra lá. Eu não queria perder meu outro olho.

*****

A festa na casa da Suzi estava um saco, o Teco dançou quase toda a noite com a Valdete e eu fiquei ali só olhando, triste e solitário. A Valquíria, irmã dela, ficou o tempo todo do meu lado filando o nosso rum, mas saiu logo depois que acendi o primeiro fininho. Pô, cara, disfarça, não dá bandeira, disse o Teco me puxando pelo braço, vá queimar isso lá no banheiro. Não enche, cara, aqui não tem ninguém careta. Meia hora depois eu já estava completamente chumbado. Não sentia o tempo passar e comecei a viajar serenamente. O fumo era dos bons. Puta que pariu, pensei que ia sair voando. Aí começou a tocar uma música dos Beatles, Lucy in the Sky With Diamonds, e eu pirei de vez. Puxei a Valdete pelo braço, tomei ela do Teco e ele ficou lá encostado na parede, puto da vida.

Eu sempre te amei, Valdete, eu disse com voz tranqüila e pausada, sempre te achei uma garota muito legal. É mesmo, Nando?, ela respondeu me olhando no olho esquerdo, já que o direito estava completamente fechado, por causa do murro do Robertão. Juro, eu disse. Mas você não gosta da Soninha?, ela perguntou. Ih, Valdete, não fala nesse nome, a Soninha é uma magrela sem graça. Mas você brigou com o Robertão por causa dela hoje de manhã. Dizem até—será verdade?—que você guardava no meio de seus cadernos uma... uma... peça íntima dela. Peça íntima? Ah, sim, você quer dizer uma calcinha. Valdete, era uma calcinha da Sueli, fiz aquilo só pra irritar o Robertão, aquele panaca. Não tenho nada com a Soninha. Da Sueli? É, da Sueli, minha irmã, coitada, agora ela ficou sem a calcinha branca de coraçãozinho...

Eu estava meio tonto e meio lúcido e vi que a Valdete riu maliciosamente, então perguntei: você vai ao baile do Náutico depois da festa? Vou, ela respondeu. Então vamos, eu disse, e quando saímos juntos o Teco fez uma puta cara de espanto e gritou: hei, cara, onde vocês vão? Não enche, cara, olha a Valquíria aí sozinha, ó, pega ela aí e vem junto. A Valquíria olhou para ele com uns olhos melosos e ele então pegou-a pelas mãos e nos seguiu resmungando alto. 

Quando chegamos no Náutico o Brazilian Boys estava mandando tudo num rock da pesada, mas antes de começar pedi ao Teco umas bolas e enchi a cara, pois estava mais lerdo que propriamente vivo por causa do fumo. A Valdete também quis umas duas e em poucos minutos enxugamos todo o litro de rum. Saímos para o pátio e eu juntei a Valdete atrás de umas árvores, mas ela só deixou pegar nos peitinhos, e mesmo assim só com os dedos, não quis deixar chupar, e quando passei as mãos por baixo de sua minissaia procurando a bundinha, ela arrepiou toda e começou a caminhar para o salão do clube. Pô, Valdete, assim não dá, eu disse, não vê que eu estou perdidamente apaixonado? Não sou a Soninha, ela disse, e ninguém vai me fazer de boba. Valdete, meu amor, e a liberdade? E o amor, meu bem? Ah, Nando, pára com isso, vem dançar, vem...

O Teco tinha sumido com a Valquíria e eu comecei a sarrar a Valdete enquanto dançava, metendo as pernas entre as coxas dela e soprando bem de leve dentro de seu ouvido. Ela gemia suavemente e deu um gritinho quando mordi sua orelha, mas aí eu já estava pra lá do mundo conhecido e comecei a ficar tonto, tonto, tonto. A Valdete então encostou sua barriguinha no meu pinto, ficamos ali nos esfregando no meio de toda aquela gente dançando, a luz meio apagada, e então não agüentei: quando ela aumentou os gemidos eu gozei e minhas pernas bambearam. Você está bem? perguntou a Valdete. Tô, eu disse, tô ótimo, mas aí tudo escureceu e ela foi me arrastando pra fora. Meu Deus, eu disse, estou morrendo. Ela me deitou num banco à beira do lago e foi aí que eu vomitei tudo: o rum, as bolas, a comida e a alma, e enquanto ela saía desesperada procurando o Teco eu olhei para a luz do poste com meu único olho perfeito e pensei, antes de desmaiar, que a vida não tinha mesmo nenhum sentido. Era uma bela frase.

O Teco me lavou a cara com água buscada no lago e eu acordei. Ih, cara, você está horrível, todo inchado, ele disse. É melhor ir embora. Eu estava vendo tudo embaçado, a Valdete torcia os dedos nervosa e a Valquíria fazia uma cara de nojo. Caras, ele tá cheio de vômito, que porco! disse a Valquíria sem nenhuma piedade. Cala a boca, Olívia Palito, eu ainda não morri, eu disse, recuperando minha dignidade. Você güenta ficar aí ? perguntou Teco preocupado. Nunca estive tão bom, cara, pode ir dançar, eu fico por aqui. E aí eles se foram, a ingrata da Valdete também foi com eles e eu fiquei ali sozinho com minha tristeza e minha solidão. Não existe mais solidariedade humana, pensei com meus botões sujos de sangue e vômito.

Consegui caminhar até a beira do lago e enfiei minha cara na água. Aquilo me fez bem, e então, lúcido, eu caminhei por entre as palmeiras refletindo profundamente sobre a transitoriedade da vida humana sobre a terra. Somos poeira de estrelas, somos uns vermes, filosofei, espantado com minha capacidade reflexiva. Nada restará de nós no final dos séculos.

Vomitei mais um pouco e logo parei de sentir náuseas. Estava quase pronto para outra quando, horror dos horrores, vi no meio das folhagens uns diminutos pés de cogumelo. Santo Deus, aquela noite seria mesmo memorável. Sentei-me ali e fiquei olhando os cogumelos, sem coragem para tocá-los, mas o que mais poderia eu esperar daquela noite? E então, fechando os olhos e o nariz, colhi os cogumelos e os mastiguei lentamente, fazendo esforço para não vomitar. Tinham cheiro de mijo, mas desceram bem.

Caminhei de volta para o banco onde Teco tinha me deixado, tirei o paletó, cobri o rosto com ele e fiquei ali esticado, as pernas caídas e a cara pra cima, esperando a grande viagem. Não demorou muito. A música foi chegando de mansinho, suave e distante, mas logo foi aumentando, entrando por meus ouvidos, por meu único olho perfeito, pelos poros, por todos os meus buracos. Mesmo de olho fechado eu podia ver um incrível caleidoscópio de cores, meu corpo começou a voar, a voar, a voar, e eu ouvia vozes distantes, sirenes, gemidos, respirações suspensas, cores e raios rasgando os céus. Eu acho que ele está morto, disse alguém muito longe. Alguém conhece esse rapaz? Nossa, é o Nando, gritou a puta da Soninha. Acho melhor chamar um médico, falou uma voz histérica de mulher. Não, por favor, me chamem o Teco, me chamem o Teco, eu pensei, mas não falava nada, e então o céu se abriu, eu vi o rosto de Deus, senti uma paz incrível, fiquei leve como uma pluma e acho que apaguei.

Acordei no outro dia na casa do Teco. Que dia é hoje, onde estou? Eu morri?, perguntei para o sujeito gordo que me enfiava uma agulha na veia. Não morreu não, mas foi quase, disse o homem. Era um médico. O que é isso? eu perguntei apontando para a agulha. Glicose, ele respondeu. Ah, então é só ressaca, eu disse aliviado, e desmaiei de novo. Já era noite quando chegou o Teco e disse: seu pai está sabendo, veio aqui mas você estava dormindo, então ele disse que amanhã vem te buscar. Que horas são? eu perguntei. Meia-noite, ele respondeu. De que dia? Ora, de sábado, amanhã é domingo, cara. Então tudo aquilo aconteceu ontem? eu perguntei decepcionado. É, cara, ontem e hoje de madrugada. Você pirou? Olhei para ele com meu único olho são, balancei a cabeça e, antes de apagar de novo, disse apenas que tudo aquilo era muito decepcionante. Para mim tinham se passado dias, meses e anos depois daquela loucura toda. Mas tudo tinha acontecido apenas ontem, e isto significava que eu tinha só dezoito anos e a merda de uma vida inteira ainda pela frente.

Domingo pela manhã eu já estava de pé, sentia um pouco de náusea mas já podia andar. A mãe do Teco tinha lavado minhas roupas e pude sair dignamente para a amarga e medíocre vida no mundo exterior. O sol quase me cegou, eu balancei nas pernas, encostei-me no muro da rua como um miserável bêbado e o Teco gozou: Ih, cara, tá parecendo o André Louco. Disse um palavrão qualquer e fui em frente. Te vejo à noite, cara, eu disse para o Teco, e a Valdete? Sumiu do mapa, disse Teco, e eu concluí então que as mulheres são mesmo ingratas e indóceis. Pobre homem. Pobre humanidade. 

Saí cambaleando pela rua até o ponto de ônibus, encostei-me no poste e fiquei esperando. O primeiro passou lotado e eu preferi esperar o seguinte. Não agüentava mais ficar de pé. Então, enquanto esperava, procurei um banco na praça. Ficava em frente a uma banca de jornais e meu único olho são procurou o que existia lá. Havia uma revista Manchete aberta na página central e no meio da página uma fotografia de um velhinho de rosto calmo e sereno. Era o novo presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici. Olhei para os olhos dele e pensei comigo mesmo: com essa cara deve ser um homem muito bom. Sim, parece um bom homem, repeti, e, recuperando minhas perdidas forças, ergui-me resoluto, apoiei-me firmemente sobre as pernas, dei um passo adiante e segui em frente.


Green Years

They threw me in a cell with eight other people: two homosexuals, one of them called Anita, three robbers, two murderers and an old man accused of raping his own granddaughter. I greeted everyone with respect and tried to sleep. The smell of urine and feces choked me.

Luiz Fernando Emediato

A festa havia acabado e Teco estava puto da vida, tão emputecido que conseguia andar sem tropeçar nas pedras, e olha que estava fedorento de bêbado. Eu também não estava muito bom das pernas, mas conseguia euxergar as coisas e vi logo que ele não ia agüentar muito. Tá bem, disse Teco, você é o maior, então mostra o caminho. Naquele tempo a gente era amigos, hoje nem sei por onde anda, vai ver que se perdeu por este mundo sem eira nem beira. Mas naquele tempo a gente tinha uns dezoito anos e passava a vida bebendo e bolinando as garotas. A gente era tão amigos que de vez em quando um passava a namorada para o outro, dias depois comentávamos o comportamento dela, a mim ela beija assim, ah, mas ela não deixou você pegar nos peitos, deixa de ser besta Teco, então você não pegou na calcinha dela? porra, essa não.

Mas naquela noite a festa tinha acabado e nem eu nem Teco tínhamos conseguido pegar nas meninas, acho que aquela era mesmo a noite do azar. Era um desses sábados de aleluia em que a polícia solta seus cachorros na rua, porque tem baile e música por tudo quanto é biboca e todo mundo fica com o pau e a xuranha coçando pra se roçar. Por isso disse a Teco, olha, vamos procurar outro programa aí. Ele respondeu vamos, tropeçou na calçada e caiu estatelado no chão, parecia um palhaço. Quando fui ajudá-lo a levantar-se soltou um urro e vomitou as tripas. Daquele jeito não ia dar. Porra, ele tinha bebido por três e estava bem roxo. Falei pra ele te levo em casa e ele, bem na minha cara: te foda, veado, vai pra puta que pariu. Daquele jeito não ia dar.

Eu estava já meio impaciente, numa hora daquelas não havia tempo a perder, o pinto doido pra se roçar numa barriguinha e o Teco ali, escornado feito um cão. Com um pouco de trabalho consegui empurrá-lo até a praça, deitei ele num banco de jardim e dez minutos depois roncava como um santo. Pus uma folha de jornal na cara dele e pedi desculpas, mas amigo, meu velho, é pra essas coisas, não ia ser uma bebedeira daquelas que ia atrapalhar minha noite. Desejei boa-noite ao cachorro porco ali deitado e me toquei para onde havia música. O Teco que me perdoe, mas sendo meu amigo não ia querer desmarcar o contratado. De manhã ele ia acordar ali na praça, quem sabe já toda cheia de gente, e ia ser um susto de rachar o cu.

Se eu não tivesse bebido mais talvez não tivesse acontecido tudo aquilo. Eu não precisei andar muito para chegar no clube dos tecelões, foi chegando e pondo banca de sabido. Porra, já passava de uma da madrugada, o baile ia acabar dali a uma hora e queriam me cobrar os tubos só pra dar uma bimbada de pé, no meio do salão. Com um pouco de conversa dobrei o porteiro, dei-lhe uns trocados despercebidamente, como nos filmes de detetive, e logo lá estava eu, cambaleante, rondando as mesas. Tinha de tudo naquilo ali: loura, morena, preta e bicha. Esta última espécie não me interessava, mas as outras, sim.

Passei pelo balcão e pedi um cuba libre. A mistura desceu devagar pela garganta abaixo. Eu começava a ficar alegre. Fiquei andando pelo salão como uma besta quadrada e depois voltei para o balcão. Pedi outro cuba e não demorou muito para começar a sentir uma coragem do diabo. No terceiro cuba eu já andava pelo salão beliscando a bunda das garotas. Aquilo tudo ainda ia acabar bem. O diabo é que não conseguia me fixar numa delas, ficava por ali andando sem rumo, mexendo com todas. Um grandalhão idiota arreganhou os dentes pra mim quando olhei para sua garota e mostrei-lhe a língua. Porra, acha que é dono do mundo, seu besta?

Tudo começava a ficar meio sem graça quando pedi o quarto cuba. Mas de repente uma crioulinha dessas de bundinha dura e peitos pequenos chegou no balcão e disse, ei, você não sabe dançar? Respondi que dançava melhor que o Fred Astaire, minha querida, e ela, uai, Fred o quê, você é bobo? Deixa eu te ensinar quem é bobo, minha flor, fui logo dizendo e ela mostrou os dentinhos brancos, rindo toda aberta e eu pensei é hoje, é hoje que tiro a barriga da miséria. Deixei lá o resto do cuba e peguei a garota pela cintura, você hoje vai dançar como nunca dançou em toda a sua vida, sua gostosinha, e ela ria e ria sem parar, parece que só sabia rir.

Dançava pregadinha na gente, abria as pernas de um jeito esquisito e eu enfiava a perna toda no meio daquilo, aí ela apertava e gemia no meu ouvido, porra, e eu lhe dizia que ia lhe ensinar a dançar como o Fred Astaire, qual, me deu um banho de dança e logo eu tava ali de pau duro, bambo como um idiota, fungando no pescocinho dela e dizendo, meu amor, me perdoa, você dança como a Rainha de Sabá, e ela quem? A Rainha de Sabá, repeti, e ela, deixa de ser bobo, eu vi este filme e esta rainha aí não dançou uma só vez. Me chamou de mentirozinho e mordeu minha nuca, nossa senhora, eu tava ali que não agüentava mais, aí desci as mãos e passei na bundinha dela, ela gemeu e disse baixinho para ninguém escutar: ô rapaz, tá pensando o quê, tira a mão daí, mas continuou dançando e eu cada vez mais doido.

Ela continuou abrindo as pernas e se esfregando, eu bêbado como um gambá falando idiotices, pedi a mão dela em casamento, prometi construir para ela um castelo no alto da montanha, disse que lhe dava meu jogo—de boliche em troca de um beijo na bunda, perguntei-lhe se queria ver uma pinta que eu tinha num lugar secreto do corpo, e a garota: pinta? eu te mostro duas em dois lugares mais secretos ainda, porra, quando ela falou duas pintas e dois lugares secretos eu arrepiei todo, imaginando aqueles lugares e eu olhando tudo com meus olhos bêbados.

Mas aí o salão começou a girar e eu disse, ai, vou morrer de amor e embevecimento, e ela, bobo, bobinho, e tudo girava e aí eu vi que estava bêbado mesmo, acho que pior que o Teco, coitado, lá naquela praça escornado num banco. Saímos cambaleando do salão para tomar um ar lá fora, e aí ela disse, olha, tá chovendo, e eu quê que tem, amor da minha vida? Vamos dançar na chuva como Fred Astaire, mas alguma coisa ali estava errada, acho que Fred Astaire nunca dançou na chuva, o nome do cara não me vinha à cabeça e nada daquilo tinha importância, eu queria era dançar pelado na chuva e o resto era conversa fiada.

Ela começou a rir de um jeito esquisito, você é doido, doido, doidinho, e eu a peguei pela mão e comecei a correr, não tinha ninguém na rua naquele sábado de aleluia, tirei a camisa e como se ela fosse uma bandeira rota, molhada, rasgada, comecei a cantar o Hino Nacional, ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante, e o sol da liberdade em raios fúlgidos, quando disse sol ela começou a rir, e me soltou e caiu sentada no chão, o vestidinho ensopado e pregado na pele, estava sem sutiã e os biquinhos pretos dos peitos furavam o pano, porra, eu estava ficando louco com aquela garota.

Pulei em cima dela e ela gritou, doido, doidinho, não parava de gritar e gemer e eu porra, você é a mulher mais linda que conheci em toda a minha vida, se não casar com você me suicido com um tiro na cara, palavra de homem, e lhe chupava os peitos por cima do vestido molhado, e ela doido, doidinho, acho que também tinha bebido um pouco.

Andamos até a praça procurando o Teco, quem é Teco? perguntou, cansada de correr na chuva, e eu respondi: um idiota que deixei dormindo aqui no banco, é o meu melhor amigo, mas o Teco tinha sumido, o filho da puta tinha me abandonado e ali estávamos eu e ela como dois bestas, acho que esse Teco deu no pé, ela disse. Também para que nos serviria o Teco? disse subindo no banco, e ali mesmo fiz um discurso, bundas e peitos do meu país, do alto desta pirâmide mil séculos vos contemplam, e tirei a calça e a cueca e fiquei ali todo nu, você é doido, doidinho, ela disse tirando o vestido e a calcinha, era dessas meninas magras mas cheias de uma carne doce e viçosa e serena, saltei do banco e me ajoelhei aos pés dela. Nosso Senhor Jesus Cristo, ajudai-me nesta hora de sacrifício, aflição e amargura, e ela ria, você é doido mesmo.

Já tinham desligado a fonte luminosa, mas a água corria na piscininha da fonte, a gente já estava mesmo molhado, a chuva não parava e eu disse, vamos lá, pulamos na fonte e começamos a espadanar na água, os peitos dela estavam arrepiados e eu chupava aquilo e ela rindo, meu deus, como ria, e toda molhada, os dentinhos brancos e a pele escura. Mas aí me deram um murro na cara, ela parou de rir e o Sargento gritou me mandando mais um sopapo: filhos da puta, é por isto que este país não vai pra frente, os homens de bem trabalhando e dois vagabundos como vocês se esbaldando em contubérnio com a devassidão. Porra, contubérnio com a devassidão é a puta que pariu, quando a gente bebe fica com uma coragem desgraçada, e o Sargento cala a boca seu veado, aí eu já não entendia nada, nós dois ali nos enchafurdando na pornéia devassa e o veado do Sargento me chamando de bicha.

Mas me contive e me levantei muito digno, alto lá, Sargento, sabe quem eu sou, quero ver meu advogado, e ele me mandando um coice de mula na cara, vai ver advogado daqui a pouco, imoral, e me arrebentei todo de novo dentro da fonte luminosa. Cabo, pega esse puto aí e bota na viatura. A moça também? perguntou o Cabo, claro, seu idiota, então quer deixar ela pelada aí no meio da rua? A coisa começava a ficar preta, eu peguei minhas roupas no chão e entrei no carro, minha cara doía e eu pensei em que merda de país vivemos, aqui qualquer cidadão respeitável pode ser agredido em plena rua por um policial corrupto.

Ela começou a chorar e eu sem poder fazer nada, o que vai ser de mim quando souberem de tudo? ela perguntava fazendo beicinho, e o Cabo: cala a boca sua puta, quer que lhe comam o rabo para calar a boca? e eu ali calado, já não estava tão bêbado, e herói, sabemos todos, acaba morto, de modo que fui deixando as coisas correrem. Aquele sábado de aleluia ainda ia ser grande: no caminho prenderam um preto que mijava num poste como um cachorro, não adiantou nada explicar que não agüentava mais e a rua estava deserta, vai mijar na delegacia e responder a processo por atentado ao pudor, e cala a boca, escravo, e logo depois acharam um cara de terno e chapéu-coco fazendo serenata pra noiva, com violão e tudo, puxa, ainda tem dessa gente no mundo. Perguntavam ao cara se tinha alvará do delegado para fazer a serenata, e o idiota com cara de bobo: alvará? Então vai cantar na delegacia, por pouco não quebram o violão na cabeça do detido, e ele submisso, Sargento eu não sabia, se soubesse tinha pedido autorização. Pra quê: levou um murro no focinho e ficou ali quietinho, sem cantar e falar um til. 

Quando ela começou a entrar na delegacia abriu um berreiro dos diabos, aí já estávamos de roupa, os botões abotoados de um jeito esquisito, era meio ridículo a gente entrando ali como dois pintos molhados, eu morrendo de medo e ela num berreiro sem tamanho. Mas aí não sei por que me deu uma pena danada, passei o braço nos ombros dela e disse: calma, meu amor, tudo vai acabar bem. Ela parou de chorar de repente e soluçou me olhando com os olhos arregalados, parecia uma criancinha, mas aí o Cabo me chutou a bunda e foi gritando tira a mão seu veado, tá pensando que aqui é casa da mãe, delegacia é lugar de respeito!

Me jogaram numa cela correcional onde havia oito pessoas: dois homossexuais, um deles chamado Anita, três ladrões, dois homicidas e um velho acusado de estuprar a própria neta. Cumprimentei a todos com respeito e tentei dormir. O cheiro de urina e fezes me sufocava. Minutos depois jogaram na cela o mijão do poste e o seresteiro de chapéu-coco. Aquela noite prometia coisas. Anita cochichou qualquer coisa no ouvido do velho sátiro e escorregou para o meu lado, dei um berro e chamei pelo Sargento. O Cabo chegou às grades e perguntou que zona é essa aí ? e eu, senhor Cabo, quero sair daqui, e ele porra, quer levar um cacete? Anita riu e respondeu por mim: eu quero, eu quero, e o Cabo ora vão se foder, quero dormir, e nos deixou ali entregues ao medo e à solidão.

Pensei em papai, em mamãe, em meu avô austero, no corpo de Teco esticado no banco do jardim, como o puto conseguira sair dali?, em minhas namoradas, em toda a minha vida pregressa, e nada encontrei. Eu era o mais triste e solitário dos animais na face da terra, eu era o mais miserável dos mortais, e se morresse ali, estuprado por Anita ou por qualquer um daqueles coitados, ninguém choraria por isto. Sentei-me e encostei-me à parede, pus a cabeça entre os joelhos, deixei que as horas passassem. A manhã chegou e eu ainda estava ali, gelado, agora lúcido, tossindo e espirrando sem parar. O velho sátiro me olhava com chispas lúbricas nas pupilas vermelhas, Anita cochichava com sua companheira e os ladrões perguntavam aos homicidas se por acaso tinham cigarros.

O Cabo chegou às grades e perguntei pela moça, que moça? ele perguntou, aquela que veio comigo ontem, disse, e ele ah, a Cândida, só então eu soube que se chamava Cândida, era um nome tão doce, e o Cabo me disse: não sei não, acho que o delegado mandou a viatura levar a garota em casa, é menor e você vai se foder todo. Eu? É evidente, vai ter que casar. Aí esfriei. Porra, seu Cabo, você tá doido? e ele: mais respeito, guri, quer levar um cacete? e Anita lá do seu canto: seu Cabo, Cabinho, me enfia o cacete, e o velho sátiro riu e tinha os dentes podres e escuros.

Quando deu meio-dia trouxeram uma comida suja e rala, não deu pra todo mundo e reclamaram da miséria. O Sargento chegou às grades e perguntou pelos ladrões, abriu a cela e mandou que o seguissem. Voltaram meia hora depois com a boca sangrando, as mãos e os pés inchados de tanto apanhar com palmatória, gemendo e chorando como bebês, o Sargento aí olhou para mim e para o velho sátiro e disse: um de vocês vai apanhar no saco, vão apanhar tanto no saco que vão passar anos e anos sem meter. O velho uivou desesperado, estava ali há dias e sabia o que era aquilo, e o Sargento disse: Cabo, abra a porta e mande sair o velho. Suspirei aliviado e quando o Sargento virou as costas ouvi ele dizendo que o menino vocês deixem aí, daqui a pouco eu consigo quem lhe coma o cu.

Puta que pariu! Aquela agonia durou até três da tarde, eu ali com um frio desgraçado, uma fome do cão, tossindo e caindo de ressaca e sono e ninguém aparecia para me livrar da merda. E eis que ali chega o Teco com sua cara de bosta, chega nas grades e ri, porra, então é aí que você está, e começou a rir como um tarado, punha as mãos na barriga e ria, ria e ria, o sacana ficou ali até que o Cabo chegou e ei, seu puto, acha que aqui é um circo? desculpe seu Cabo, mas o idiota saiu pra caçar as garotas e olha só o estado dele, e aí o Cabo também riu, os dois homicidas começaram a rir também e Anita perguntou porra, e eu, ninguém me enraba não, é?

Saí de lá meia hora depois, o delegado me obrigou a assinar uns papéis, me olhou como se alguma coisa estivesse errada e eu perguntei, ô cara, o que foi? e ele saia daqui, seu insolente, lá fora entrei no carro preto do meu tio e ele com a cara vermelha me disse: você me mata de vergonha, você é a vergonha da família, e o Teco ria no banco traseiro, aí eu disse: porra, velho, você precisava ver a Cândida, tem uma bunda... E ele, cala a boca, desgraçado, você se enchafurda em contubérnio com a devassidão, você se entrega ao vício, ao descalabro, à pornéia malsã e atéia, você está matando sua mãe de desgosto, e aí o carro tinha chegado à prefeitura e o careta desceu, mandou o motorista seguir para casa e me disse: troque de roupa e venha até aqui de novo, vamos conversar.

Teco começou a gargalhar tão logo o coroa entrou no prédio, passei para o banco traseiro e dei-lhe uma palmada na coxa. Teco, acho que estou ficando velho, estou sentindo uma coisa esquisita, e ele rindo como uma besta quadrada. Alfredo, o motorista, perguntou se íamos mesmo para casa e eu, piscando um olho, disse: Alfredo, seu jumento, toca de novo pra delegacia, e ele sem entender, o que o senhor disse? Toca pra delegacia, seu imbecil, e ele sim senhor, ora vejam. Teco perguntou se eu tinha ficado doido e eu ora, deixe de ser idiota, tenho mais o que fazer, Alfredo, preciso de grana, passa aí, peguei o dinheiro, entrei na delegacia e procurei o Cabo, aquele sacana, o delegado tinha saído para o almoço e eu, porra seu Cabo, então você é mesmo um sacana, me deixa aí a noite toda sofrendo com frio e fome, você não tem mesmo coração, você então não sabia quem eu era? O Cabo riu e perguntou: o que é que você tem aí na mão? E eu mostrei: uma grana preta, cabinho corrupto, e ele foi logo abrindo a gaveta e tirando um papelzinho com o sagrado endereço.

Toca pra frente, Alfredo, eu disse, e Teco ali com sua cara de besta redonda, toca pra frente, Alfredo, que a vida é curta e não vamos morrer sem antes enchafurdarmo-nos em contubérnio com a devassidão, para onde, patrão? e eu toca pra frente, Alfredo, sua mula, e ela morava num bairro pobre e modesto, era uma casinha triste e cinzenta, e eu bati na porta e uma criança magra atendeu, ôi boneca, Cândida está? Está dormindo, respondeu, e eu disse não tem importância, eu espero aqui até o final do século vinte, e quando ela acordou e veio com os olhos vermelhos de chorar e de não dormir eu perguntei: 

Cândida meu amor... você quer ser minha namorada?

Teco rolava de rir no carro e Alfredo olhava tudo com seus olhos de mula obtusa.

Aquele tempo eu jamais vou esquecer.

In the original these short stories were called "O Despertar da Primavera" and "Verdes Anos" respectivelly. Both were published in Verdes Anos, a book by Luiz Fernando Emediato, Geração Editorial, São Paulo, 1994, 248pp

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