Brazil - Brasil - BRAZZIL - "Epitafio" by Marcal Aquino - Short Story in Portuguese - Conto em Portugues - Brazilian Literature - Portuguese Language - February 2002


Brazzil
February 2002
Literature

Epitaph

She took a notebook and with the flame of a lighter
she lighted up a short poem, which he read
with a hoarse voice. In several occasions, years later,
I asked women to read me poems. Even one
professional—of sex, not poetry. It never worked.
Most of them seem to be reciting an
eviction order inside an empty building.

Marçal Aquino

O homem disse: "Não sei se eu vou conseguir viver sem isso".

Estavam no mato, sentados nas raízes de uma árvore de flores avermelhadas, na beira do rio. A alguns metros deles, a ilha. Era a ela que o homem se referia.

"Bobagem. É só uma ilha", a mulher disse. "Tem um monte igual a ela por aí."

"Pode ser. Mas este é o lugar mais bonito que já vi na vida."

"Você nunca saiu daqui, nunca viajou. É isso", ela riu.

"Até acredito que existam lugares bonitos por aí. Mas isso é meio pessoal: é a ilha mais bonita que eu vi até hoje. Sabe por quê? Porque ver esta ilha me fez perder completamente, e para sempre, a vontade de ver qualquer outra ilha do mundo. É por isso que eu digo: não sei se vou conseguir viver sem isso", ele repetiu.

Ela disse: "Nossa. Então é mais sério do que eu pensava".

E riu outra vez. Ela estava para brincadeiras naquele dia. Todos temos dias assim. E, às vezes, nesses dias, não damos importância a coisas que deveríamos levar a sério. Caso daquela mulher.

Ela soube disso na hora em que recebeu a notícia. Ela lembra bem da cena porque até perguntou ao marido, que via o jornal na TV, quando mesmo que tinham inaugurado a represa. Ela primeiro achou que era coincidência. Ela, depois, ficou em dúvida.

O homem que amava uma ilha, que fora coberta pelas águas da represa, tinha se matado num quarto de pensão, a muitos quilômetros dali.

O marido continuou vendo TV. A mulher passou pela cozinha, olhou para a pia—de onde o almoço daquele dia ainda espreitava, na forma de uma pilha de louças, panelas e talheres—e saiu para o quintal. Era uma daquelas noites esbranquiçadas, típicas daquele lugar. Ali, no quintal, ela calculou, não seria ouvida pelo marido.

DIA DOS NAMORADOS

O rapaz e a moça entraram na pousada e, de um jeito tímido, ele perguntou o preço da diária. O velho Lilico informou e o rapaz e a moça trocaram um olhar em que faiscaram jóias de diversos tamanhos. A maior delas era a cumplicidade.

Enquanto o rapaz preenchia a ficha de entrada, a moça se afastou um pouco para examinar melhor o quadro na parede—e pude vê-la por inteiro.

Era muito bonita. Tinha os cabelos e a pele claros. Alta, magra, ossos salientes nos ombros. Estava no mundo há pouco mais de uma década e meia e, com certeza, alguém que recusara já havia escrito poemas desesperados pensando nela. Ou cortado os pulsos—o que é quase a mesma coisa.

Embora não merecesse, o quadro recebeu toda sua atenção por alguns instantes. Era uma pintura ordinária. Eu já tivera a oportunidade de analisá-la durante as longas tardes em que a chuva me impedia de sair para caminhar pela cidade. Uma cidade habitada, fora da temporada turística, por velhos, aposentados e hippies extemporâneos. Gente que tentava, de um jeito ou de outro, ser esquecida.

O quadro: penso que o artista havia experimentado um momento de genuína felicidade ao contemplar, em algum canto do país, aquelas montanhas, aquele prado, aqueles cavalos. E, generoso, decidira compartilhar aquele momento com o resto da humanidade. Mas a verdade é que fracassara. A arte não é feita de boas intenções.

O olhar com que a moça se despediu—para sempre—daquela obra continha um pouco de piedade. E, com isso, ela me conquistou em definitivo.

O velho Lilico entregou a chave ao rapaz, que se voltou e sorriu para a moça. Seu ar era de alguém vitorioso. Mas sou capaz de apostar que a mão que ele juntou à dela, antes de subirem a escada de madeira, tinha a palma molhada de suor. Havia um princípio de rubor no rosto dela. Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois.

Lilico deixou o balcão da recepção e foi até a copa, onde falou alguma coisa para Jair, um de seus empregados. Em seguida veio até a mesa que eu ocupava.

"Gosto de gente que chega para hospedar-se sem nenhuma bagagem", ele comentou.

"E a felicidade que eles carregam, não conta?", eu perguntei.

Ele examinou o tabuleiro, como se estivesse tentando rememorar a jogada que pretendia fazer antes de ser interrompido pela chegada do casal.

"Mandei o Jair levar uma garrafa de champanhe para eles. Cortesia da casa."

"Fez bem", eu disse.

"Gozado, sabe quem essa moça me lembrou?"

Eu disse: "Sei".

"Acho que foram os olhos dela", ele falou. "Muito parecidos."

Retomamos o jogo e não falamos mais do casal. Eu, porém, continuei pensando neles. Num dia como aquele, anos antes, uma mulher, que entrava comigo num hotel bem diferente daquela pousada, me dissera: "Hoje eu vou te dar um presente muito especial".

Um pouco depois da meia-noite interrompemos o jogo e o velho Lilico recolheu as peças e guardou o tabuleiro. E eu já estava no meio da escada, a caminho do meu quarto, quando ele perguntou:

"Você ainda pensa nela?"

"De vez em quando eu penso."

"E por que você não vai atrás dela? Vocês dois ainda têm alguns anos pela frente."

"A mágica não acontece duas vezes", eu disse.

O velho Lilico balançou a cabeça.

"Você sabe que só em filme francês antigo o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, escrevendo livros que nunca irá publicar."

Eu me limitei a sorrir. Então ele me desejou "boa noite" e voltou para a recepção.

Eu subi a escada e, ao chegar ao corredor, parei diante da porta do quarto que o casal ocupava e tentei ouvir alguma coisa. Mas tudo estava silencioso. Entrei no meu quarto e, enquanto me despia, pensei no velho Lilico. Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história.

RANCOR

(Polaroid n° 49)

Estavam naquela fase em que um faz tudo para conquistar o ódio do outro, na esperança de que algo intenso volte a pulsar entre os dois.

Tinham se amado muito, eu sabia. A maior paixão que vi.

Ela me contou que às vezes se imaginava bem velha, feliz, ou pelo menos esclerosadamente satisfeita da vida, mas não o via ao seu lado. E que era incapaz de prever como ele ficaria na velhice, porque tinha certeza de que não estaria por perto para ver. Uma ironia. Segundo ela, a maior declaração de amor dele: "Quero envelhecer junto de você".

Fotógrafa. No início, ele achava divertido esse lado dela: artista. Com o talento chancelado por meia dúzia de prêmios e exposições. Depois passou a considerar suspeitas as fotos que, aos conjuntos, estavam espalhadas pelos cômodos da casa—até no banheiro. Sempre paisagens. Nenhuma pessoa. Jamais um rosto ou corpo provocara um disparo da velha Canon que ela costumava usar. Ele me disse: "Sabe aquele tipo de cena fajuta, que você fica com a impressão de que a natureza posou para o fotógrafo e ainda recebeu por isso?"

Ele fizera um filme aos 22 anos. Amado pela crítica, ignorado pelo público. A partir daí, mergulhou na publicidade e colecionou prêmios. Falou-se muito sobre um roteiro, que ele nunca deu por concluído. Virou lenda no meio. "Só vinte e poucas páginas de anotações", ela me disse, explicando por que deixara de respeitá-lo. Não levava a sério pessoas que abandonam o sonho para ganhar dinheiro. Ou, como disse seu analista, ela não conseguia amar homens que deixara de admirar.

Aí teve o caso dele com a modelo. Exageraram: apareceram até numa coluna social. (Eu estava fora do Brasil nessa época.) "Uma prostitutazinha anoréxica", de acordo com ela. Retaliou: saiu com um amigo do casal, depois de uma festa. Não deu sorte: o cara não funcionou, culpou o uísque. Ela: "Eu procurando alguém que me desejasse e encontro um homem que me respeitava demais".

"Só em filmes medíocres e nas novelas da televisão as pessoas que se amam terminam juntas. Na vida real é o contrário: quem fica junto são as pessoas que não se amam", ele me disse. "Amar é passar a temer o futuro", ela me disse.

Mas se amaram.

Peço a ela uma lista com dez coisas boas dele.

Ela enumera:

1—seu cheiro

2—sua gentileza

3—seu senso de justiça

4—sua generosidade

5—seu bom-gosto musical

6—seu lado místico

7—sua inteligência

8—sua originalidade ao presentear

9—sua paixão por filmes antigos

10—seu pau

"Quer mais?", ela pergunta.

Amava os desertos. Uma vez fotografou um, na Líbia. Nenhum beduíno ou camelo. Parecia a mesma foto repetindo diversas vezes a areia em ondas douradas. Ele: "Os desertos dela são interiores. Lá, as tempestades de areia costumam durar meses".

Perguntei a ele sobre as coisas que a lembravam.

Antes de responder, ele olhou para o vaso sobre a mesa de centro entre nós: flores sinistras. "Dez? Basta olhar para ela e você vai encontrar bem mais de dez coisas."

Ela está apoiada na janela, olhando a noite. Sem roupa. Observo seu corpo: mesmo na penumbra, bem mais de dez coisas para um sujeito lembrar-se por um bom tempo.

Ao virar-se para me sorrir, seu perfil se enquadra contra o céu escuro. Sardas no rosto. Constelações.

MONK

Quando o carro quebrou, arranjamos carona no assento traseiro de um jipe sem capota. Éramos novos, estávamos muito felizes. Talvez por isso até o vento parecia satisfeito ao agitar os cabelos dela. Nunca mais vi o vento tocar coisa alguma com tanta delicadeza.

Tínhamos dormido num mosteiro desativado, em companhia de duas garrafas de vinho. Uma noite sem grilos ou piados de pássaros. Sem lua. Uma noite tão silenciosa que era possível escutar todos os ritmos da respiração dela ao meu lado.

Monk tinha morrido dois dias antes. Vimos a notícia na TV cheia de chuviscos de um bar. Erguemos um brinde a ele no mosteiro. Ela comentou: sem ele, o mundo fica um pouco pior. Uma noite tão boa e quieta que se Deus resolvesse visitar o mundo naquela hora, certamente andaria na ponta dos pés.

Ela pegou um caderno e iluminou com a chama do isqueiro um poema curto, que leu com sua voz rouca. Em diversas ocasiões, anos mais tarde, pedi a mulheres que lessem poemas para mim. Até a uma profissional—do sexo, não da poesia. Nunca funcionou. A maioria parecia estar recitando uma ordem de despejo no interior de um edifício vazio.

O velho que nos dava carona estava voltando de uma visita ao filho, que cumpria pena numa colônia agrícola da região. No assento ao seu lado estava um menino de pele e olhos escuros, que segurava no colo uma espécie de escultura feita de maços de cigarro vazios.

Meu neto, o velho anunciou, assim que entramos no jipe, quase um ano que ele não via o pai.

O menino olhou para ela com atenção, pareceu reconhecê-la. Talvez se lembrasse de tê-la visto na televisão. Ganhou um afago nos cabelos grossos e despenteados. E baixou os olhos para a escultura. Escondeu um sorriso tímido.

Quando o velho nos deixou na entrada de uma cidadezinha plana e empoeirada, o menino teve direito a mais um afago. Notei que ele segurava a escultura com uma espécie de humildade, como se transportasse algo capaz de curar um grande mal da humanidade.

A chuva caiu antes que conseguíssemos chegar à cidade e tivemos de nos abrigar num posto de gasolina. Os motoristas dos caminhões nos olhavam com um misto de curiosidade e reprovação. Nós apenas ríamos.

Tempos depois, numa casa de campo muito limpa e arrumada, ideal para começar algo e não para terminar, eu lembrei desse episódio. Falei do mosteiro, do jipe, do velho e do menino. Ela mexeu as sobrancelhas, como se quisesse sublinhar o sorriso irônico:

Isso nunca aconteceu comigo. Deve ter sido com outra.

Bom, não importa, eu disse na hora.

Mas importava. Eu queria que ela se lembrasse de como estávamos felizes naquele dia, embora soubéssemos que não ia durar. Nunca dura. E, no fundo, não sabemos lidar com isso.

Às vezes eu a vejo na televisão. Como acabou de acontecer agora, num quarto de hotel cheirando a pinho, mas que é sujo, como são sujos todos os hotéis que se propõem a cheirar a pinho.

Na televisão, ela não me pareceu muito alegre. Mas pode ser que fosse esse o script de seu personagem. Ou não—e talvez ela estivesse mesmo meio triste. Como a maioria das pessoas. Como o resto da vida sem Monk.

CARTA

Abril, IX, manhã

Prezado F.,

Ainda os escritores: tenho, em relação a alguns, a sensação de que se esgotaram. Talvez já tenham dito tudo. E agora se contentam com a autoparódia. No caso de J., isso é evidente. Ele retoma personagens que brilharam em textos fulgurantes e se dedica a torná-los opacos. Outro dia estive em um bar, onde J. leu um de seus contos, dos bons tempos. Apesar de esquisito (o texto), estão lá seus princípios estéticos e literários, enfim sua viagem. No momento, seus escritos andam desbotados, sem viço. Sem tesão.

Isso independe da vontade do escritor, a meu ver. Acaba, velho, acaba. Há o estímulo que move a gente (de onde vem?). Por isso sempre desconfiei daquele tipo de enquete: "Por que você escreve?" Não sabemos, ao certo. Escrevemos—e isso se mistura com o "vivemos". Gostamos disso, queremos isso, brigamos por isso. E, de repente, cessa. "Como um vento que parou de ventar", feito diria o velho Ariosto.

Não há nada a fazer (e, o que é pior, a dizer). Mas alguns não se calam. E, desprezando o respeito arduamente conquistado, passam à etapa de dilapidação. Aconteceu até com os grandes. (Com os menores, pouca gente nota; eles não rendem notícia.)

Richard Ford diz: "Não há uma perda irreparável para a humanidade quando um escritor desiste de escrever. Afinal de contas, quando uma árvore tomba na floresta quem mais lamenta além dos macacos?"

Porém não pense que isso é tranqüilo, que nos libertamos. Às vezes, paramos, fazemos até apologia do nosso silêncio. Transformamos em marketing nossa impotência e nosso inconformismo diante de algo que era muito bom e que já não é. Feito relação amorosa que termina sem um motivo aparente. Apenas aquele vestido vermelho, visto agora no varal, parece sem cor, sem mistério. E o corpo que o vestia, deitado ao nosso lado de manhã, já não desperta em nós mais do que amizade—um dos disfarces mais temíveis da compaixão. (Casais deveriam despedir-se um minuto após os funerais da cumplicidade.)

Mas paramos, velho. Paramos. Inconformados.

Felizes os que deixam isso pra lá e vão cuidar da vida. Mas que vida? A nossa andou tão misturada com essa coisa da literatura que é impossível concebê-la de outra forma. E mesmo os que abandonam o barco continuam sonhando com o mar. Duvido que um desses escritores, só um, não acorde no meio da noite e não pense num projeto—que, é claro, ele não vai levar adiante. Mas repare: você encontra um escritor que não vê há tempos e ele fala de um projeto em andamento (do qual, certamente, você nunca terá outras notícias). O projeto serve para mantê-lo vivo.

Falam de crise. Mas que crise? Na verdade convivemos o tempo todo com ela. Até que o estalo nos redime: um bom parágrafo nos faz sorrir, quando lembramos dele. Mas não compreendemos a magia, de onde veio. Vimos o brilho por um instante. Só. Um flash. Desconhecemos a fonte. E aí está a maravilha. E a miséria.

Por que não chega um momento em que há o domínio total da coisa? Porque não é assim que funciona. Queremos dizer algo (pra nós mesmos?) e por vezes conseguimos. Mas não é sempre. Quando escrever for uma coisa saudável, os analistas perderão o sentido. Não é saudável. É atormentado. Mas não é uma doença, longe disso. Às vezes não passa de frescura.

Mas o certo é que amamos os livros e a mensagem que eles trazem. Cifrada, muitas vezes, imprópria. Mas mágica, sempre (estou falando, é óbvio, de livros que ficamos alegres de salvar em um sebo). A sério: quantas pessoas você conhece—que não escrevem, nem mesmo escondidas—que gostam realmente de ler? Que sabem ler? Que têm uma vaga idéia do que é essa coisa da literatura? Dá pra contar nos dedos de uma luva de boxe.

Já tive mulheres que passaram a amar a literatura por minha causa— porque eu falava disso o tempo inteiro e elas devem ter pensado: "Bom, deve ser mesmo importante, vamos ver que merda é essa". Conheci outras que não "se ligavam" em literatura (nem eu nelas)—tente estabelecer um vínculo com uma delas sem pensar naquele jogo de facas que está na cozinha. E também me encontrei com mulheres que tinham lido, sabiam o que tinham lido, gostavam do que tinham lido e do que havia por ler. Raras.

Mas, resumindo, enquanto não vem o vazio, vamos escrevendo. E até publicando. Mas sem saber direito o que estamos fazendo.

Duvido que algum dia alguém tenha iluminado, pra valer, qualquer aspecto daquilo que você faz ao comentar seus textos. Duvido. Há uns charmes, uns afagos. Arrumamos até mulher por causa disso. Dinheiro, eventualmente. Ganhamos respeito e ironias. Um buquê em que isso vem misturado. E bebemos. E fumamos. E vamos levando.

Fama de louco, nesse caso, é bem-vinda. A família fala do louco visto na TV, no programa muito noturno—o videocassete salvou muita gente do desconforto de ficar acordado até tarde para ver o louco na televisão. Ao lado do apresentador querido e da menina semidespida, frente ao auditório formado por gente que olha para o louco com curiosidade e desconfiança. E até com um pouco de tédio. Uma certa piedade.

Aí, o motorista da emissora, que vai levar o louco para casa, puxa conversa. Sobre o que você veio falar?, pergunta, candidamente. Literatura, responde o louco, olímpico. E o motorista: Ah, sei. E cita uma bosta de um livro que ele quase leu. E o louco chega em casa, ainda não sarou do pico de adrenalina e orgulho. E relê, em pé (porque afinal tem um monte de coisas que ainda precisa ser feito em pé, por respeito), uns versos de um poeta que ele ama. Um que fala de uma orquídea se formando, sozinha, antieuclidiana. Ou vai aos próprios textos e confere um ou outro parágrafo, um efeito que descobriu por acidente, um ponto final que colocou fora de lugar por ignorância—e que encantou a crítica.

Pior: alguém visita o louco. E se espanta com sua biblioteca. E pergunta: Nossa, você leu tudo isso? Como se fosse um compêndio de doenças da infância e a pergunta fosse: Você já teve tudo isso? E sobreviveu?

Mas o louco é foda. Ele olha os companheiros de manada se sabendo diferente (por quê?, nem ele sabe direito). Mas ele é diferente. Mais tarde ele vai reclamar disso, mas no momento em que olha a manada, enfiada bovinamente nesse desconforto que é o dia-a-dia, ele se felicita por ser diferente, por ter esperanças diferentes, por não querer ter um carro do ano, uma casa com gramado e churrasqueira. Falta-lhe o estilo competitivo e ele não se interessa por coisas corriqueiras. Seu compromisso é com algo maior, bem maior. Ele acha que no futuro, se houver futuro, alguém lhe fará justiça. Mas isso não vai acontecer. E se acontecer, ele já não terá fígado, pâncreas ou mesmo próstata para festejar. E tudo o que desejará é apenas uma veia boa onde aplicar a última.

E quando o louco cisma de ter um cachorro então? São os piores. O louco vai lá e escolhe um nome para o cachorro, um nome-homenagem, com ressonâncias literárias—e isso quando não faz esse tipo de coisa com os filhos. Grande merda. Uns poucos rirão. A maioria não dará a mínima, catalogará isso no manual de esquisitices do louco e continuará temendo as presas do cachorro. Cães com nome de pacifistas costumam morder a mão da filha do síndico, que só tentou afagar a fera. (E o louco: Não é possível, isso nunca aconteceu antes.) É que o Gandhi (ou o Martin Luther ou seja lá quem for o pacifista de plantão) estará também com o saco cheio. E talvez o louco ainda queira escrever sobre o episódio. Tentando extrair uma explicação. Porque para ele tudo pode ser explicado pela via literária.

Sua nova namorada rirá—e é isso que importa: o louco ainda a faz rir. É educado. Sabe segurar talheres. Entende a hora em que é para ficar quieto. Leu uns poetas, ouviu alguns discos. É até atencioso, quando está a fim. E o pau dele ainda funciona. É meio torto, mas funciona. Porém a impaciência, esse vírus que nenhum laboratório consegue detectar, já está no sangue armando sua revolta. Veio de brinde no DNA do louco.

E o louco escreve. Escreve. Escreve sempre. Com chuva e com sol.

Enfim, um sujeito sem um pingo de juízo.

O que sobrará? Um céu baixo, uma terra devastada e um bando de gente que ainda planta, mas, no íntimo, torce pra que nada nasça.

Era isso. Mantenha a calma. E não se mova.

Um abraço

P.

EPÍGRAFE

Memórias conjugais

Acendi o cigarro.

E só então reparei como o vestido dela era inflamável.

Marçal Aquino was born in Amparo, in the interior of São Paulo state, in 1958. He published the short story books As fomes de setembro, Miss Danúbio, O amor e outros objetos pontiagudos, for which he was awarded the Jabuti Prize—Brazil's most traditional literary prize—and Faroestes. He was also the author of the scripts for these movies: Os Matadores, Ação entre Amigos, O Invasor and Nina.

This short story was originally published under the name "Epitáfio" in Geração 90, Manuscritos de Computador, an anthology of 17 authors and the best short stories published in Brazil in the '90s. The book was organized by Nelson de Oliveira. You can contact Boitempo Editorial, the publisher, at www.boitempo.com or calling 55-11-3875-7285 (in Brazil).


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