Brazil - Brasil - BRAZZIL - News from Brazil - "Longa Vida, Capitao" by Emanuel Medeiros Vieira - Brazilian Literature - Portuguese Language - October 2003



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Brazzil - Nation - October 2003
 

Long Live the Captain

I liked him very much and I feel bad for what I felt right there:
he was my idol, my warrior, my myth although he wasn't more
than a contumacious loser. Hadn't the romantic captain understood
the new times? And these times weren't they interested in
knowing about him? Hi world was already agonizing.

Emanuel Medeiros Vieira

 

Para Lucas, meu filho (que chegou há pouco para nos iluminar)

"Do lado de lá ficamos expostos aos ventos do desconhecido. Exatamente como do lado de cá."  (J. J. Veiga)

"Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer." (Sêneca: 4 AC-65 DC)

Eu me despedia do capitão. Alto, moreno, um tanto barrigudo, vestindo camiseta escura, calça de brim, boné, sandálias, e um capote que um dia foi belo. Quantos anos? Não deveria passar dos 50, mas o rosto estava bastante deteriorado, sofrido, gasto: as contendas da vida deixaram suas marcas.

Mas o sorriso era aberto, limpo, sem camuflagem e, pressentia-se, conversando com ele, um espírito generoso e lúdico. Ele nunca perdeu um certo ar infantil. Um tanto maroto, um tanto triste.

A tarde era de chuva fina e contínua, ventosa. As embarcações estavam agitadas no cais modesto, os homens tentavam amarrar as cordas para que elas segurassem os barcos no porto. As ondas respingavam nas suas capas pretas.

Para onde ia o capitão desta vez?

A ilha era pequena e todos se conheciam. Na época, eu tinha 13 anos.

—"Esse homem parece ter um bicho-carpinteiro, não fica parado de jeito nenhum", comentava o dono da venda onde os pescadores se reuniam para tomar pinga e comer amendoim nos finais de tarde.

—"Parece cigano", reforçava outro ilhéu.

—"É um impostor", desqualificava o seu Felisberto, que era coletor estadual.

—"O capitão tem uma alma generosa, mas é muito voluntarista e pouco racional", avaliava a diretora da escolinha pública, que gostava de psicologia.

—"Seu avô foi corsário", garantia o farmacêutico.

—"A mulher era dançarina, de vida fácil", revelava o agente dos correios, que vivia comentando a vida alheia.

Os olhos do capitão eram verdes. Quando estava na ilha, eu o via sempre no trapiche, de manhã cedo ou nos finais de tarde, contemplando o mar, olhar viajante. Ausente.

(Ninguém conhece ninguém, eu sei. Quem era ele? Só capto fragmentos. Um dia ele disse: "O que a vida nos fez não desculpa nada. O passado está sempre colado na gente.")

Ele morava sozinho num quarto humilde, numa pensão do mercado, ao lado de um depósito de frutas e de uma peixaria. Sem mulher estável, sem filhos.

—"É um homem muito estranho", afirmava dona Leandra, a beata da ilha.

O capitão mancava de uma perna. Conjeturava-se que recebera um tiro numa ilha do Atlântico, perto dos Açores, numa das muitas revoluções que tentou fazer.

Solitário, normalmente não se envolvia com os outros, não conversando ou bebendo na venda.

Procurava homens quando tinha uma "empreitada", como definia: procurar um tesouro escondido ou tentar uma guerrilha.

—"A aventura acabou no mundo", ele desabafou um dia, com ar desolado, na última vez em que o vi.

Antes da decadência, seu olhar firme fixava-se diretamente no interlocutor. Seu corpo avantajado, seu jeito um tanto "principesco" (mesmo que fosse um príncipe em ruínas) impunha respeito. Os ilhéus falavam mal dele, mas não na sua presença.

Os relatos sobre ele tinham um ponto em comum: todos informavam que o capitão tentara fazer muitas guerras, revoluções, guerrilhas, motins, ao Norte, ao Sul, a Leste e a Oeste, em várias ilhas e também no continente.

E que perdera todas essas guerras, guerrinhas ou guerrilhas.

Teria escapado de fuzilamentos e estivera preso numa masmorra imunda numa ilha do Pacífico.

Essa prisão, de mais de três anos, agudizara sua asma e afetara sua coluna, além de intensificar uma tosse contínua, que ele acreditava ser conseqüência da umidade do cárcere.

Algumas pessoas garantiam que ele teria fugido à noite, subornando um guarda, ou que teria escapado da prisão vestido de padre.

Não, ele nunca desistia: guerreiro cansado, mas persistente. Amava o nascer do sol: "O dia sendo fundado, e que pode ser cheio de surpresas", como dizia, esfregando as mãos, celebrando a vida.

Um dia ele perguntou se eu queria ir com ele.

—"Não posso, capitão. Mamãe não tem mais ninguém no mundo. Só quando ela morrer." Mas ela era uma mulher forte e duradoura e eu não queria que ela morresse.

Mas eu também queria partir, ir embora, sonhando com vidas aventurosas, tesouros escondidos e áfricas misteriosas.

Ficava lendo relatos mágicos, que contavam a respeito de piratas que usavam perna-de-pau, tapa-olhos, com papagaios no ombro, e que bebiam muito, cuspiam e blasfemavam.

—"O capitão nunca mais foi o mesmo depois que a mulher o abandonou por um trapezista de circo", acreditava o dono da venda.

Nunca soube o nome do capitão. Nem da mulher que teria fugido.

—"Ele é um louco", criticava o coletor de impostos, que detestava o capitão e o considerava um "subversivo".

Quando me despedi dele no trapiche, ele me pareceu infinitamente velho e cansado, a barba longa mais branca, os sulcos no rosto mais evidentes, té o olhar perdera muito do seu brilho. Tudo nele parecia mais pesado e doído, mas alguma magia e sedução pareciam persistir. Seriam eternas?

Meu Deus: o capitão ficara muito velho.

Enigma? Somos tantos. Seria ele um "mistificador autêntico"?

Quem era o capitão?

No bolso do puído capote, aparecia uma pistola muito antiga, daquelas que a gente via em velhos filmes sobre piratas. Tive vontade de rir, camuflei o deboche: naquele momento, o capitão me parecera um ridículo quixote.

Ele estaria virando uma paródia de si mesmo? Um epígono de si próprio?

"Nossas virtudes parecem ter envelhecido", um dia ele comentou, numa frase que me pareceu um tanto enigmática.

Gostava muito dele e me arrependo do que senti ali: ele era meu ídolo, meu guerreiro, meu mito, mesmo que não passasse de um perdedor contumaz.

O capitão romântico não entendera os novos tempos? E esses tempos não queriam saber dele? O mundo dele já agonizara.

O que fazer num mundo que não mais o acolhia e que ele não entendia?

Vivo, seria motivo de escárnio, nos tempos da competição feroz, do individualismo brutal , num universo cínico, auto-complacente, em que ninguém parecia acreditar em mais ninguém ou em qualquer valor, onde pareciam querer a fama e se darem bem a qualquer custo, pisando em qualquer escrúpulo.

Velho, um dia eu escrevi no meu diário: "Talvez ingênuo, até puro, tolo para alguns. Mas nunca um farsante."

Ele já ofegava ao falar. Um ser fora de moda? Sem dúvida.

Numa das últimas vezes em que o vi, desviei os olhos de sua barriga: queria conservar o mito, o herói grave com jeito de "príncipe de subúrbio".

Quando penso no capitão, lembro dos versos de Fernando Pessoa, em "Mensagem":

"Firme em minha tristeza, tal vivi.

Cumpri contra o destino o meu dever.

Inutilmente? Não, porque o cumpri."

Nunca fiquei sabendo de sua última guerra ou revolução. Não ganhou qualquer batalha.

De vez em quando, ele me escrevia. Trechos de um carta: "Macedônio: agora estou indo para o Norte. Há um tesouro escondido. Quero achá-lo. Contratarei homens corajosos para a empreitada. Creio que desta vez vai dar certo."

Ninguém acreditaria. Mas eu sim.

Contou que contactara com um guerrilheiro que estivera com Che Guevara no Congo. Revelou que adquirira armas de um traficante chinês. Inventava? Um dia, à noitinha na venda, apareceu um forasteiro vindo do continente. Contara ter visto um homem que dissera ser natural de nossa ilha. Pela sua descrição, era o capitão.

Segundo este relato, ele estava muito bêbado no cais de um grande porto, contemplando bandeiras em navios de várias partes do mundo. Abordava, "com jeito alucinado e perturbado", marinheiros de muitas terras, convidando-os para grandes feitos, aventuras e promessas de muito dinheiro. Mas ele já não conseguia impor respeito, apesar do seu tamanho e de alguns vestígios da imponência passada. Os homens riam dele, apalpavam sua barba, empurravam, chegavam a dar alguns cascudos e comentavam, sob gargalhadas: "É um velho louco."

Outros diziam tratar-se apenas de "um velho bêbado."

O forasteiro, depois de tomar um gole de cana, revelou que ele dizia frases desconexas, mas que escutou uma inteira, não fragmentada: "Agora nada mais tem importância. A aventura acabou no mundo."

Na última correspondência que recebi dele, anunciou:

—"Macedônio, estou formando uma grande milícia. Ela será vencedora."

Não, não foi.

Hoje, muito velho, nesta mesma ilha de onde nunca saí (mamãe morreu logo depois da partida do capitão), espero ainda navios que não chegam, cartas que não vêm.

Cogito que o capitão não conseguiu viver num mundo que não tinha mais aventura, que o hostilizava, um mundo cínico e dessacralizado, no qual acabou o encanto e a magia.

O forasteiro foi embora mas, anos depois, chegou uma carta de um homem que contratara marinheiros para empreitadas,
selecionando trabalhadores em Santos para uma longa viagem à África.

Ele vira o capitão tentando subir numa escada de madeira, num prédio mal-cheiroso perto do cais. A escada era em caracol: levara um tombo e, com traumatismo craniano, agonizara ali mesmo. Não houve tempo para levá-lo a qualquer hospital.

Apalparam o bolso do capote e descobriram uma carta nunca enviada e incompleta. Era para mim: "Para Macedônio, o amigo que nunca quis ser marinheiro. Estou longe. Reuni homens e desta vez vou ganhar a guerra."

Segundo o relato contido na correspondência, ele morrera às 6 em ponto da tarde e, como não tinha qualquer documento, e ninguém reclamara o corpo, foi enterrado na cidade do grande porto. Como indigente.

De onde vinha a alcunha de capitão?

Acho que desde sempre. Para mim, ele sempre fora capitão. Não posso esquecer de histórias cheias de aventuras de "herói" (perdedor? Não importa), ou supostas aventuras—o mar sempre presente—,vivências que transgrediam a rotina dos homens comuns, que rompiam a crosta dos dias iguais.

Verdade? Mentira? Quem saberá?

LONGA VIDA, CAPITÃO!

Ele me falava de tesouros escondidos nos sete-mares, moedas de mil anos, contando com emoção, nas noites de vento sul da minha ilha, as aventuras de "A Ilha do tesouro", onde o encanto e a magia sempre venciam o cinzento dos dias de rotina e a ruindade dos homens que só pensavam em pecúnia e cobiça.

Em alguma época, de um navio qualquer, quem sabe, apareça um outro visionário.

Adeus, capitão.

The title of this short story was "Longa Vida, Capitão" ("História de Mares") and was originally published in the book Tremores, published by Editora Códice, Brasília, 1993.
 


Love at 20

I and Julia at Miramar. Total silence. Julia looking at me. The long
path of this look, as a tunnel. Indescribable the silence, like the last
sun rays in the ocean's afternoon, a rainbow. She sitting, I standing.
No, hers wasn't a hateful or tender look. From a female who
doesn't talk, but understands and goes deep as a scalpel.

Emanuel Medeiro Vieira

 

Foi quando li o anúncio em A Gazeta:

"Vende-se uma escuna. Para contacto: 'Miramar'.

E lá fui, final de tarde, em pleno pôr-do-sol da minha Desterro.

Eu era pobre, mas sonhava com uma embarcação. Morava num quarto úmido e amarelo, numa pensão nos altos da Conselheiro Mafra, e vendia passagens rodoviárias numa subagência que funcionava na entrada do "Dormitório Globo", no continente. O "Miramar" adentrava em direção o mar, como um trapiche, tinha um pórtico amarelo, nas suas bordas já havia muito limo. As ondas batiam sempre, era o mais belo bar que conheci na vida. Entrei. Numa das mesas de canto, uma jovem mulher segurava uma criança no colo. Essa mãe olhava o mar fixamente.

Não, não tinha condições de comprar nada, mas, voluntarioso, sempre emotivo, fazia um arranjo mental: "Se tanto quero uma embarcação, vou tê-la." Eu olhei o mar, ela não me vira, também continuava contemplando-o, segurando a criança, protegida por um pequeno cobertor. Era forte o vento sul.

Mostrei o recorte do jornal para o caixa, pano de louça sujo na barriga, ponta de cigarro numa orelha, na outra uma caneta. Ele apontou o dedo para a moça: "É o noivo dela, o Macedônio, que quer vender. Ele faz pesca submarina." Dirigi-me a Júlia:

—É sobre o barco.

Ele vem mais tarde, disse, referindo-se ao noivo, muito rápida

e desinteressadamente, absorta. E olhei a criança. Nunca antes tivera um presságio tão doloroso. Como uma sina, revelação antecipada, sinal. Nos olhos claros do bebê, eu vi a morte estampada. Ele cedo ia morrer, não tão rápido, não agora, teria infância e adolescência e partiria na casa dos 20 anos, logo após ter servido ao Exército Nacional. Ali, era apenas um recém-nascido, mais um ser no mundo. Assim, nada poderia saber de si, sua vida, seu curto futuro, não ciente daquele acidente de carro em Coqueiros, numa curva do Praia Clube, 19 anos e nove meses depois da minha visão.

Na minha ilha natal, com 20 anos também, me sentia naufragando, soçobrando em impossibilidades, sem saber o porquê daquela agonia, querendo algo que não sabia definir, e caminhava todas as noites pelo trapiche da Praia de Fora, comendo amendoim, olhando o oceano, o que fazer da vida? A vida, o que ela queria de mim? Ficava contemplando o cais Frederico Rolla, perambulando pela Rita Maria, esperando a chegada dos Navios do Hoepecke, andando sem destino pela Ponte Hercílio Luz, os navios desamarrados davam lições de partir. Tomava cuba-libre e saía com as putas da "Palmira" e "da Barbosa" —bordéis do continente—, curando gonorréias com Tetrex, e "chato" com Neocid. Goteiras caíam no meu quarto alugado, enquanto lia A Ilha do Tesouro, de Robert L. Stevenson. Guri, gostava das coisas mercantilmente inúteis, argentariamente desvaliosas para a sociedade industrial, sonhando com piratas de perna de pau, heróis que não morriam e tesouros misteriosos.

Júlia ia todos os dias ao Miramar, à espera do seu noivo, vendedor de escunas, pescados de águas profundas, ele tinha mais de 30 anos, um ar sempre distante, sorumbático, semblante preocupado e severo, nunca ria, parecendo carregar um grande peso. Na época, ele me pareceu muito velho para ela. Repito, porque ainda hoje, quase cinqüenta anos após o acontecido, sinto um calafrio: foi na primeira vez que vi Júlia, com a criança no colo, que senti a cavernosa vertigem, enxergando um cadáver naquele rosto de bebê.

Camus diz que o melhor local para se escrever é um quarto de hotel. É o que faço agora, recuperando imagens, nunca a sensação mesma: é a sina da escrita. Ela só se consuma, porque no ato mesmo de escrever não estamos vivendo. Descrevemos, não existimos.

Ainda hoje vejo Júlia como uma estrela retardatária. Ou um farol, como o de Naufragados, o nome, a ilha, naufragar (o verbo).

Um dia criei coragem e disse:

"Eu queria casar contigo".

(Um gesto insano, não, não a conhecia, mas com meus presságios achava que ela fosse a minha derradeira chance afetiva.)

"Eu já sou comprometida". E mostrou a aliança, que não era de ouro, folheada, amarela, simulacro, mas também bela. Mostrou a argola no anular. Foram-se ela, o filho, o "Miramar", a juventude, a pensão em que eu morava, não comprei a escuna, mas exorcizo a autocomplacência e a autopiedade. Sou só, eu, num quarto de hotel, mas risonho estou. É vero o calafrio que ainda sinto, quando me lembro da primeira vez que vi Júlia e o menino.

E o humor? O menino, em cujo rosto eu adivinhei a morte, também se foi aos 20 anos. Avalio esta escrita: a história parece não ter começo, meio ou fim. Ou sim? Tem, mas não necessariamente nessa ordem. Escrevo num caderno que intitulei "Diário do Crepúsculo", sobre Júlia: "Estóica, rainha seca e álgida, geleira afetiva, a que só sofre por dentro". Vingo-me pelo verbo, pela palavra que Deus me deu, por ela não ter ficado comigo. Era um amor louco, dolorosamente unilateral: só meu. No fundo, ela não deve ter me levado a sério. Lá dentro, ela soube do meu amor? Mas seria uma história de amor, aquela que é feita de um ente e não comunga com o outro?

No "Roda Bar", tomei um porre de batida de maracujá, atravessei a Praça XV, Júlia estava sem o seu filho, mas na mesma mesa, o vento agora era leste, mãos na cabeça, boininha amarela, meias brancas de normalista (não, ela não era normalista). Para onde tanto ela olhava? Eu sei, para o oceano, ao longe. Mas que "oceano"? Saia plissada, pele clara, blusa de crochê, e eu queria saber tudo de sua vida, e ela, a rainha descarnada e prussiana, nada dizia. Gestos contidos, silenciosos, anti-açoriana.

—"Estás bêbado".

Não, ela não disse isso, era apenas meu promotor interno que me cutucava.

Indesignável este olhar de Júlia. Seios pequenos, boa carnuda vermelhíssima. Um garçom manco me disse que ela morava com a mãe—que cuidava de seu filho de "outro homem", não do vendedor de escunas—, num bangalô azul e branco no Saco dos Limões. Um varandão e um pé de limão.

Queria convidá-la—o carnaval estava perto—para assistir comigo ao desfile dos carros alegóricos e de mutação da Sociedade "Granadeiros da Ilha".

Ela era comprometida (soube mais tarde, que ela também não casara com o vendedor de barcos, morando com a mãe, ficando "encalhada", segundo o garçom manco e de língua afiada).

Como amar alguém que não se conhece ou se viu pela primeira vez? Passei na venda do Quidoca, na esquina da Avenida Rio Branco com a Nereu Ramos e, num gole, tomei uma branquinha, a sentinela tocava corneta num guarita do quartel da Polícia.

Eu e Júlia no "Miramar". Só silêncio. O olhar de Júlia para mim. O longo percurso deste olhar, como um túnel. Indescritível o silêncio, como os últimos raios de sol na tarde do oceano, um arco-íris. Ela sentada, eu em pé. Não, não era de ódio nem de ternura o seu olhar. Também não era algo mineral, mas de gente. De fêmea, que não diz, mas compreende, e vai fundo como um bisturi. Não, não era algo neutro, mas poço ambivalente, mistério, algo tão múltiplo, e solar. O que ela achava de mim? Para ela, eu seria algo neutro? Essa dúvida me aterrorizava, ela me olhando como um poço sem fundo. Não, não a conheci, não conhecemos ninguém.

Como amar num rompante, o portador dos maus presságios, anti-herói desembarcado a contragosto no continente? O coração parecia estar sendo arrancado do corpo, suor, mãos frias. A criança no colo, sem ciência do seu destino. Novamente, olhei os reflexos do sol no mar. Esse sol, no território do meu nascimento e dos meus afetos. Ela me disse, não me olhando, quem sabe querendo enxergar "Naufragados" ou o "Cambirela": "Eu amo esse mar."

Agora, lembro-me do texto de Jorge Luis Borges, "Exame da obra de Herbert Quain", em "Ficções", onde o narrador afirma que "das diversas felicidades que pode ministrar a literatura, a mais alta era a invenção. Já que nem todos são capazes dessa felicidade, muitos terão de contentar-se com simulacros". O garçom falador, agora está quieto, o smoking manchado e a gravata-borboleta dão-lhe um ar solene, camisa branca com nódoas amarelas. A sombra infinita de Júlia me acompanha sempre, nos sete-mares, em todos os cantos da terra. Ela se foi quarentona, mas ainda bela, de esclerose múltipla, numa cadeira de rodas, num quarto do "Hospital de Caridade", de frente para a baía sul. Esclerose Múltipla? Acho que morreu de tudo. Sobreviveu ao seu filho durante 24 anos. Estóica, carvalho, pedra. Ela quereria ter ido com ele, o filho único Mas ficou, como memória. Como eu, depositário da memória da tribo e do "Miramar". Memória de um amor tosco, áspero, delirante, amor ainda assim. Amor? Ao capitão do navio, cabe a conservação do "Diário de Bordo", de todos os sonhos da tripulação, ele é o ultimo a pular da embarcação, depois dos ratos. Júlia virou pó. Para mim, estrela. E farol. É de amor, sim, essa história. Seu olhar era triste, mas astuto, como de águia ou de gavião. Nariz arrebitado, lábios grossos. Sim, insisto, batom tão rouge. Amor? Como, se não a tive? Só eu senti. Lembro novamente de Borges, um poema falando de Baruch Spinoza, em "A Moeda de Ferro": "O mais pródigo amor lhe foi outorgado: o amor que não espera ser amado."

Não houve retorno, reciprocidade, uma via de mão única, sem a vivência dos dias, sol e chuva, ventre crescendo, criança no bangalô, estações. Recordo de dois versos de W. H. Auden, que coloquei como epígrafes do meu "Diário do Crepúsculo": "Nós, que devemos morrer, exigimos um milagre" E: "Nada do que é possível pode salvar-nos."

Queria ter vivido com ela na casinha serena do Saco dos Limões. Escrevendo com vagar, sem estilhaços ou fragmentos, colhendo uvas em janeiro, colocando seu menino na escola pública, sem maus presságios, sem mortes anunciadas, um mundo docemente imóvel, fazendo histórias em cadernos comprados numa vendinha da esquina, contemplando o mar se pondo no mar, preparando um romance sobre navegadores vitoriosos.

 

Published originally in Antologia do Conto Brasiliense, under the title "Amor aos Vinte Anos" ("Desterro: Anos Cinqüenta")

Emanuel Medeiros Vieira was born in Florianópolis, state of Santa Catarina, in 1945, but has lived in Brasília for the last 25 years. He is a lawyer, journalist and as an author was awarded several literary prizes, including the 1986 Prêmio Brasília de Literatura. Vieira has published 16 books, including A Expiação de Jeruza (short stories, 1972); Teu Coração Despedaçado em Folhetins (short stories, Editora Ática 1978); Metônia (novel, 1992); Meus Mortos Caminham Comigo nos Domingos de Verão (short stories, 1995). He can be contacted at metonia55@hotmail.com





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