Brazil - Brasil - BRAZZIL - News from Brazil - O Caleidoscopio Quebrado by Luciene Pinheiro - Brazilian Literature - Portuguese Language - August 2003



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Brazzil - Literature - July 2003
 

Broken Kaleidoscope

The first Ana opened the swollen eyes. It was a new day. She
opened her arms in an attempt not to bring to mind so much
absence, filled up all the space on the mattress and for a moment
felt a sense of wholeness. The door opened. She close her eyes
while her heart pounded strongly as she pretended to be sleeping.

Luciene Pinheiro

 

O CALEIDOSCÓPIO QUEBRADO
OS DEZ FRAGMENTOS

PRIMEIRO

O Fogueteiro

Para Januário, o fogueteiro, a grande festa junina de Mato Seco era sempre uma emoção, também pudera era fogueteiro desde de sempre. Para Marcos, o repórter, cobrir essa festa era um castigo. Questão de sobrevivência. O jornal mandava, ele ia. Entrevistando toda aquela gente, que ao seu ver, parecia-se com tantas outras por esse Brasil a fora, Marcos acabou descobrindo a maior atração da festa: o fogueteiro...um fogueteiro cego. Foi ao seu encontro. Uma pequena multidão assistia a explosão colorida no céu com tanta reverência como a um ritual sagrado. As cores desmanchavam-se na escuridão alta e novamente o fogueteiro fazia seu milagre e acendia o céu com muitas cores.

Marcos cumprimentou o fogueteiro Januário. Virando-se para o repórter, Januário sorriu com seus poucos dentes e com seus olhos vazados.

—Então o senhor é o famoso fogueteiro?

Januário dá a sua gargalhada tão famosa quanto a sua história.

—A fama não vem de sê fugueteru não, mas de sê fugueteru cegu, cegu por sê desdi mininu fugueteru.

Januário ergue a cabeça para o alto. Por uns instantes, Marcos tem a impressão que aqueles olhos mortos podiam ver a beleza de um show pirotécnico. Riu de si mesmo e sem entender muito bem a resposta do fogueteiro, riu como Januário, olhando os fogos, agora espetáculo de outro fogueteiro que se encontrava mais distante.

—Então o senhor perdeu a visão soltando fogos? E continuou sendo fogueteiro? Não tem medo de outro acidente?

Januário ri da confusão do repórter, que com outra visão do mundo, estava cego para o seu. Não era para ele grande novidade, os estudados nunca tinham pensamento para sua própria ignorância.

—Fazê o quê? Eu só sei sê fugueteru, issu ne nada não, a buniteza e di mais valia que um ôio bão.

Marcos perplexo, refletiu sobre o que dizia o velho fogueteiro.

—Mas como apreciar o belo, se o senhor não enxerga?

Mais gargalhadas, mas explosões coloridas no ar. Januário, depois de muito sacudir-se de tanto rir, dirigiu seu olhar para o céu e tateando seus fogos de artifícios, soltou um após outro. Fazendo inveja a Deus de tanta beleza.

—Eu só cunsigu vê buniteza, essa buniteza dus crarão dus fogu, que alumia meus ôio e também o céu.

A festa chegava ao final. Um Januário feliz despediu-se de um Marcos deprimido por enxergar, pela primeira vez, o tamanho de sua cegueira.

SEGUNDO

Zum...de Zumbi

Maria acordou encharcada. Lá fora uma tempestade invadia o barraco. Ainda sonada, tateou na escuridão, a possível goteira sobre a cama, quando percebeu de onde vinha tanta água. A bolsa havia estourado. Logo as contrações começaram. Assim nasceu Beto: num barraco alagado, numa noite orquestrada por raios e trovões. Beto chorou alto quando chegou nessa vida, arrepiando Maria que ainda sem fôlego, permitiu a invasão de um pensamento pessimista.

Talvez a criança pressentisse o mundo-cão que a aguardava. Maria fez o sinal da cruz, arrependida do pensamento, e o abençoou: "Meu filho vai tê a força de Iansã."

Beto se criou no morro e no asfalto. Nos dias de semana, ele estudava no colégio, onde Maria era faxineira. Beto detestava. Não lhe era mais insuportável porque tinha um amigo com o mesmo apelido, só que os outros meninos chamavam-no de BB (Beto Branco). Logicamente, ele era BP (Beto Preto). BB não suportava as implicâncias com Beto, o instigava a reagir, mas o menino só chorava diante da crueldade das outras crianças. Sabia muito bem quais seriam as conseqüências se reagisse. A mãe poderia até perder o emprego. Esta submissão durou até o dia em que a professora falou em Zumbi. Beto então se descobriu. No mesmo dia, ele o único negro da classe, ganhou novo apelido: Zum...de Zumbi. Beto ficaria orgulhoso se não fosse mais uma chacota.

Um dia BB ficou doente. Beto sozinho num canto do pátio, comia seu lanche sossegado, quando alguns meninos começaram a implicar. Beto calado, não conteve as lágrimas. Isso só fez sua situação piorar.

Quando se deu conta, seu lanche estava no chão e os meninos, além dos empurrões, beliscavam e lhe davam chutes. A professora nada viu até então, mas quando Beto ouviu a palavra Zumbi dentro da sua cabeça e resolveu revidar, a professora logo prestou atenção e correu para apartar os meninos. Mas era o dia da revanche. Beto bateu em todos até não poder mais. Precisou de mais duas professoras para levá-lo à diretoria.

Beto aos oito anos ganhou a primeira e única suspensão de sua vida escolar. Porque a partir daí, ele era Zum. Zum....de Zumbi.

TERCEIRO

Memórias de um Quase Inexistente

Quando eu me lembro de toda a história, me pego olhando para o céu. Meu pensamento nesse instante é sempre o mesmo: Por que eu tinha que estar ali naquele momento? Cinco minutos antes ou depois, teria feito muita diferença. Tinha que ser eu? Eu, nos meus dez anos? Nem sabia o que via direito... entendi apenas que algo de muito errado acontecia. Eu vi, mas ninguém me reparou. Quando contei, foi um pouco por susto e também para aparecer. Apareci. Logo depois, contra a minha vontade, sumi.

Dez anos se passaram e eu continuo por aí, sumido. Sem saber a grande resposta: por que eu? Lembro dos homens, do sangue, das crianças gritando... aliás, foi o que mais marcou. Nem os zunidos das balas, nem a maldade e covardia dos homens, nem o apelo das mulheres me chocaram tanto, quanto o desespero das criancinhas. Pois é, os meus dez anos fizeram com que revelasse, exatamente, para a última pessoa que podia saber. Como eu ia adivinhar? Logo um policial... naquela época, a polícia para mim era proteção. Minha única oportunidade desperdicei, o silêncio. Eu, criança, queria contar, excitado, temeroso, tudo o que havia presenciado. Deu no que deu! Dez anos de peruca, óculos escuros, enchimentos, documentos falsos... um andarilho, sem nome, sem lugar, sem raízes. Anos sem ficar uma semana no mesmo lugar. Ninguém me conhece, tão pouco sou amigo de alguém.

Nos primeiros tempos, mal dormia. Me protegia entre os mendigos, até desconfiar. Então veio o desassossego. Apaguei o meu passado e nunca mais partilhei minha vida com ninguém. Vivo às escondidas. Melhorou um pouco a paranóia depois que atravessei a fronteira, mas será mais perigoso? Eles fazem e eu pago. Triste desconfiar de tudo. Abuso, não haver proteção, não ter segurança. Só por estar na hora e no lugar errado...fora ter contado...não me conformo, um policial! Agora que saí do país, eu não vou parar até encontrar um lugar que possa viver. Aprendi a ter uma cara tão igual a de todo mundo, que eu posso ser qualquer um. Menos eu. Vivo na multidão, isolado, continuo presa fácil. E pensar que a última notícia que vi na TV, foi a corja toda no governo. Arrotando condutas morais, morando em mansões, viajando o mundo inteiro às custas de impotentes como eu. Muita gente suspeita, mas só eu sei. Tive sorte de não contar sobre a foto. Ainda hoje não sei. Talvez, independente do meu ceticismo, tenha sido coisa do meu anjo da guarda. Sou testemunha ocular. Podia ser herói, mas sou fugitivo. Podia ser respeitado se existisse. Vivo invisível. Talvez morto valesse mais a pena. Um dossiê, um jornal importante, é isso que eu preciso. Assim resolvi me libertar. Encontrei o jornal, fiz o dossiê. A cambada do governo caiu.. A foto foi vista pelo mundo inteiro. Virei herói sem nome, nem rosto. Tinha proteção, dinheiro e muito mais medo. A solidão continuava. Cansei. Fui à televisão e me expus. Apareci, para logo depois sumir para sempre. A nação comovida, chorou por mim. Ao menos agora tenho um nome, um rosto, uma história.

QUARTO

Paz Demais

Quando não bebe ele é um amor. Me trata feito rainha. Adora fazer agrados: é uma florzinha aqui; uma cervejinha só para mim; um quilo de carne de rico e até aqueles docinhos cor de rosa da padaria do seu Zé. Mas quando está possuido pela branquinha, é ela que manda. Manda nele, que manda em mim. Mas como eu não presto, dei de botar remédio de dormir na pinga dele. Foi Juvêncio da farmácia que me arrumou. Agora em vez de ficar bravo, ele dorme.

Não tem mais tempo de ficar briguento. Três goles e cai roncando em qualquer lugar. É uma paz. Às vezes me dá um tantinho de remorso, mas compensa. Ele está cada dia melhor: bebe menos, bate menos...eu estou muito feliz, só quase não vejo o meu marido...uma pena, agora que ele está tão bom! Igual um anjo de quermesse. Uma vida calma, essa minha. Não tem mais grito, nem pancadaria. A casa está sempre arrumada e ele não fede à bebida. Aliás, hoje em dia ele não cheira e nem fede. Só dorme. E eu aqui nessa paz, nessa felicidade...sem nenhum arranhãozinho. Tudo culpa de Juvêncio.

QUINTO

Além da Chuva

Faltava pouco, não sabia quanto, os relógios rodopiavam sem cessar e nada acontecia. Eu de qualquer maneira pressentia, faltava pouco, muito pouco. A angústia provocava uma ponta de prazer. Enquanto este era como todos são, aflitivos, só solucionados mediante a descarga desta emoção vibrante, porém contida. O prazer sonha com seu ápice e só se revela inerte, quando já não o é mais. Badaladas. Ponteiros gigantescos não paravam um só minuto. Olhava o céu, quem sabe não era coisa de lá. Em volta suspeitava de todos, a cada nova cara que irrompia na esquina, meu coração subia e descia, desde que começou com isso, mais parecia um elevador e eu que sempre fui acostumado a ter os pés no chão, tinha agora um coração ora elevado, ora submerso no meu próprio sangue, me provocando enjôos. O que restava era a espera com sabor de tragédia e divertida como o avanço do carrinho na montanha russa. A sensação aumentava. Demoraria horas ou apenas minutos? Na verdade não tinha importância, a eterna espera de quem aguarda o conhecido já é suficiente sem fim, imagina para alguém, como eu, que não sabe. Será um acontecimento, uma pessoa, o quê? Giravam os relógios, invertiam as ampulhetas e o meu corpo entorpecido só sentia o vai e vem do coração; quando chegava à boca eu instintivamente a abria, talvez com intenção de me livrar daquele saltitante. Vontade de dizer quando descia: térreo. O sol apagando e os brilhos noturnos acordando e as sombras dos meus presságios me envolvendo. Seria mais uma noite de espera. Não tinha olhos para dormir, nem imaginação para sonhar. Talvez isto fosse um sonho, o da espera, o vital, reconhecível para quem sabe que independente de tudo algo vai acontecer. Não sairia dali, não voltaria para casa enquanto tudo não estivesse terminado. Vários transeuntes passaram, sentaram ao meu lado e foram embora com a vida. Uns me viram, outros nem me notaram... e daí? só tinha concentração para o que viria. Nem massagem no peito, nem o sorriso lindo da mulher que me olhou, nem o tombo da velhinha, que eu não ajudei a levantar, nem o nariz escorrendo da criança maltrapilha, nada, nada disso me desorientou, fazendo com que eu me esquecesse que algo eminente estava preste a acontecer. Então um homem qualquer sentou do meu lado e começou a me encarar. Num estado normal isso me irritaria, contudo a necessidade de não me entreter com mais nada, a não ser com a sensação do estar por vir, me fazia anestesiado de tal provocação. Nada, nem ninguém me despejaria do meu lugar, onde a visão do grande relógio não era interrompida por prédios e out-doors. A vista era limpa, clara e eu só sabia que precisava estar ali. Mais horas e o tal homem nada de ir embora, De rabo de olho reparei que também ele tinha um coração-elevador. Podia até ouvir a sineta toda vez que sua boca abria. Seria pelo mesmo motivo? Alguém mais tinha consciência de que algo estava para acontecer? Então me dei conta que seu olhar para mim era por suspeitar de que eu também estava suspenso. Alívio! Podia novamente me ausentar e me dedicar exclusivamente à espera. Senti seu corpo ao meu lado, relaxar. Olhei nos ponteiros da minha mente, olhei os grãozinhos de areia escorregarem pelos meus olhos alertas e vermelhos, conseqüência das longas horas de vigília. O sentimento da emergência do que não podia supor, agora era galopante. Sentia-me como uma bomba ou um foguete, pronto para disparar. Reparei numa mulher mal ajambrada, sentada no meio fio, alheia aos demais, fitando o relógio... era agora, era chegada a hora. Meu companheiro de banco tremia, o que me deu certeza que era exatamente o momento. Pressenti olhos furtivos encarando o relógio. Um pequeno grupo se formou na praça, hipnotizados pelos grandes ponteiros. Minha cabeça estourava de tanto dizer silenciosamente: é agora, é agora. O dia virou uma noite mais escura do que de costume e o relógio atingido por um raio e a árvore que me protegeu do sol, foi arrancada do solo. Eu sabia que estava ocorrendo. Não era aquela tempestade... no meio dos pingos grossos, dos trovões e relâmpagos, algo maior acontecia, mas a chuva me impedia a visão. Senti o meu coração parar com o vai-vem, minhas pupilas cansadas de se arregalar, penderem e uma grande calma reinar em mim. Sabia que tinha acontecido, o pressentimento saciado escorreu junto com a chuva. Insatisfeito, mas conformado fui andando para casa sem me dar ao trabalho de imaginar o que foi. Só sei dizer que foi extraordinário.

SEXTO

Sob a Ponte

Os amantes debaixo da ponte sorriam bêbados de suas condições. Riam sem dentes. Gargalhadas interrompidas por fluxos de tosse. O foguinho na lata iluminava os fantasmas-dançarinos nos pilares. Um filme ocasional de sombras e luzes que tal como na penumbra do cinema colorem e desbotam os rostos na platéia. Ali sob a ponte, eram eles os espectadores. Um público de dois apreciadores do lúdico acende-apaga no concreto da ponte. De mãos dadas assistiam aos seus próprios delírios, esquecidos do frio e de suas roupas rotas; da dureza do asfalto e dos corações de expressão repugnada. Protegidos pela ponte, se alienavam da ilusória segurança dos ignorantes. Ali existia vida e não apenas um mundo. Suas vidas não se contentavam com apenas essa realidade. Mexiam as mãos alterando o roteiro dos contrastes. Inventavam formas de risos com seus próprios corpos. Quando a chama se extinguia, o embrulho de almas apertava-se explodindo o amor, agarravam-se um ao outro sem ar ou fôlego para tanto desejo. Emendavam num sono de sonhos cinzentos, diferente da vigília colorida sob a ponte. A manhã os flagrava e de novo aquele mundo sem vida... nem sombras, nem luzes. Para os amantes só há escuridão sobre a ponte.

SÉTIMO

Uma Questão de Vida e Morte

Foram seis as vezes. Deveriam ser apenas duas, mas acabou sendo seis. Ele mesmo falou: vou perguntar só uma vez, Eu não respondi, então ele insistiu, é a última vez que pergunto... quem é você? Senti uma pena danada dele.

Como poderia responder tal pergunta? Enfim, veio a terceira, a quarta, a quinta e a sexta. Finalmente indaguei: você não disse que a segunda era a última? O homem bufou, suou de pingar o chão. Esbofeteou o meu rosto, chutou a cadeira e foi embora batendo a porta. Me deu um acesso de riso. Os outros homens ao meu redor, indignados, me socaram impedindo as minhas gargalhadas incontidas. Desistiram. Fiquei todo ensangüentado. Intimamente admiti: era uma excelente pergunta, a questão de toda uma vida. Fazer o quê? Eu não sabia a resposta.

Passei dias jogado no chão, sem enxergar. devido ao inchaço dos olhos. Intercalei crises existenciais com ataques de riso. No fundo a situação era irônica. Procurei por toda parte, durante um bom tempo, a resposta e quando me dei por vencido, apareceu essa gente me perguntando o que já tinha desistido de saber. Estava ciente da impossibilidade de uma resposta única, concreta. Sempre pensei que a questão era indiferente para outras pessoas. Por que se importariam com quem eu sou? Por isso eu ria. Pela primeira vez não me senti só.

Tempos depois apareceu alguém e me levou para um grande pátio. Lembro que os raios de sol machucaram os meus olhos. No pátio, outros homens e me aguardavam. Um deles insistiu: quem e você? E eu pensei: que gente maluca, será que enquanto eu estava com o nariz enfiado nos livros, não ter concluído quem sou eu, virou crime? Nova-

mente: quem é você? De qualquer forma a pergunta me encheu de emoção. Ataram minhas mãos, vendaram meus olhos. Nada disso me importou, o que me feriu foi a voz estridente de um terceiro homem: quem é você? qual o seu nome? E antes do clicar dos ferros, pensei: eles não se importam, nunca se importaram, era só catilinária. Gritei o meu nome. Uma voz ordenou o cancelamento da ação. Tarde demais, um zunido atravessou minha cabeça, meu corpo desabou e minhas últimas palavras foram: era só meu nome, apenas um nome...Uma só lágrima secou no meu olho inexpressivo.

OITAVO

Os Santos

—SÓ SEI MOÇO QUE FOI A MAIOR VERGONHEIRA DA VIDA. DA MINHA VIDA ! IMAGINE EU MURCHA, TODA A VIDA SECA... EMBUCHADA ! Num consigui nem olhá pru dotô...parecia sem vergonhice... UMA VELHA COMO EU, DE BUCHO CHEIO. Até porque quando a gente quis, eu e o meu Zé, uma doutora falou que A GENTE ERA HISTÉRICO...

—Histérico não, minha senhora estéril.

—É ISSU MESMO ! Estéri...

(Talvez ela tenha razão... pelo menos no momento ela está histérica e certamente jamais foi estéril. O Zé dela, sem dúvida ).

—... issu mesmo,.ESTÉRIU. Então o Zé morreu, coitado do meu Zé... eu viúva há mais de sete anos...sem hômi, EMBUCHADA !

( Nem Santa Isabel ).

—A senhora tem certeza?

—O dotô passou tudo na televisão. Eu mesma vi UMA MANCHA SE MEXENDO DENTRO DE MIM. PENSEI QUE FOSSE ATÉ DOENÇA.

—Minha senhora ninguém engravida sozinha.

—Mas moço, DEPOIS DO MEU ZÉ EU NUM TIVE MAIS HÔMI.

( Nem Santa Isabel ).

—Psiu. Filho não se faz sozinha, minha senhora.

—Hum... tevê seu Joaquim. Lá da padaria. VELHO SAFADO...

—Psiu! Minha senhora por favor...

—Tá certo moço, mas que ele é, ele é! ROUBOU UM BEIJO DE MIM. Me levô pra vê o forno novo, no fundo da padaria e me roubou um beijo. BEM FEITO! LEVÔ COM UM PÃOZINHO NA CARA. Beijo não embucha. Embucha?

( Nem Santa Isabel ).

—Não, a senhora sabe disso.

—Não foi o que aconteceu com Maria Madalena?

—Não minha senhora. Com ISABEL, Santa Isabel !

( Coitada da santa, ser confundida com a outra. Perdoa Meu Deus..."Não julgueis para não ser julgado").

—Tudo é possível. O mais certo é que a senhora esteja esquecendo de alguma coisa...

—Issu é... Ando esquecida... memória ruinzinha, ruinzinha. Já devê de sê a idade. Que eu me alembro... Ai meu Santo Antônio, não me alembro... SANTO ANTÔNIO! É ISSO. ÊTA SANTINHO DANADO!

—Psssiu! Minha senhora, por favor...o que é que o Santo tem a ver com isso?

—Dispois da quermesse de Santo Antônio, se alembra moço? Tava cheio de gente... eu conheci um sinhô muito distinto... era primo da minha prima Marcelina. MARCELINA! ELA ME PAGA. TUDO CULPA DE MARCELINA E DE SANTO ANTÔNIO!

—Minha senhora!

—Disculpa. Dispois da quermesse, Marcelina inventô de fazê quentão lá em casa. Marcelina sempre foi assanhada.

( E eu não sei ).

—Ela tava de olho no amigo de seu Nicolau, é esse o nome do tal sinhô. Nicolau num é nome de santo?

—É São Nicolau, o santo...

—Então, começamos a bebê quentão. Conversa vai, quentão vem, e o coitado do seu Nicolau que num tinha uma saúde boa, era muito fraco pra bebida,caiu no sono pesado bem no meu sofá. Marcelina e o outro resolveu voltá pra quermesse, o forró ia começá... ME LARGÔ AQUELE HÔMI DISTRUIDO RONCANDO NO MEU SOFÁ. EU JÁ NUM ME AGUENTAVA. As pratelera estavam bamba. E QUANDO AS PRATELERA COMEÇA A MEXÊ, TÁ NA HORA DE DORMIR, foi o meu Zé que mim ensinô. ALÉM DISSU EU TAVA POR CONTA COM MARCELINA QUE NUM TINHA NADA QUE DEIXÁ O POBRE VELHO DESAMPARADO, NA MINHA CASA. Eu falei assim: MARCELINA, EU SOU VIÚVA DIREITA, MOÇA, NUM QUERO FICÁ FALADA. Marcelina riu e disse que ele era BROCHA.

—MINHA SENHOORA.

—TÁ, TÁ NUM PRECISA FICÁ NERVOSO. Então... onde eu estava? AH SIM, o moço está me atrapalhando! Esse meu esquecimento... é que eu tenho nervu, É sistema nervosu... FIQUEI PIÔ DISPOIS DA EMBUCHADA. Então, AH! Caiu aquele aguacero. Me contaro dispois que Marcelina e o talzinho ficô dançando forró... IMAGINE, NAQUELE AGUACERO E SEM MÚSICA. MARCELINA SUA DESAVERGONHADA!

—Minha senhora mais respeito!

—É que eu num tô acostumada. É muita coisa só, pruma cabeça fraca como a minha. Então no meio da noite, por causa dessa minha cabeça, eu esqueci a janela aberta e acordei toda molhada e dei de cara com quem? SÃO NICOLAU DORMINDO DO MEU LADO.

—SÃO NICOLAU NÃO. Seu Nicolau.

—Me embaralhô, NESSA HISTÓRIA TEM MUITO SANTO! São Nicolau, Santo Antônio, Santa Isa...

—Continua minha senhora e por favor deixa os santos em PAZ!

—O moço divia tomá um chazinho, tô achando que o moço também tem sistema nervosu...

—Todo mundo tem minha senhora.

—É POR ISSU QUE SÓ TEM DESGRACEIRA. Então, seu Nicolau tava lá roncando do meu lado e eu toda encharcada. Minha cama fica embaixo da janela. Eu deixei O VELHO SAFADO...

—Minha senhora...

—... DISPOIS DE TUDU O MOÇO NUM QUÉ QUEU XINGUE O VELHO? Então fui pru banheiro me secá e tirá a ropa, na hora não reparei, eu ainda tava zonza de quentão, mas agora tô me alembrando... tinha um troço meio grudento...

—Minha senhora, evite os detalhes.

—É PRA EU CONTÁ TUDO OU NÃO? Então troquei de ropa e fui pru sofá. No dia seguinte não tinha seu Nicolau e nem o talzinho, só Marcelina roncando na minha cama...AH, AGORA Tô me alembrando... eu sonhei com o meu Zé fazendo sem vergonhice comigo...NUM ERA O ZÉ. ERA SEU NICOLAU! BROCHA QUE NADA, TREMENDO SAFADÃO...

—MINHA SENHORA, MINHA SENHORA TENHA RESPEITO.

—É que eu nunca fiz isso antes... pensava que era pra falá tudu, tudinhu ! Marcelina disse que eu podia...MARCELINA AQUELA VA...DESTRAMBELHADA. O QUE VAI SÊ DE MIM? NUM SEI DAQUELE SAFA... tá bão, tá bão...

—Peça conselho para o Senhor...

—... já num disse que eu nunca mais vi o seu Nicolau?

—Minha senhora não é desse senhor que eu estou falando, é de Deus.

—AH...

—Reze, reze muito que Ele iluminará o seu caminho.

—Então Marcelina, o moço disse que podia sê milagre de Santa Isabel, se Santo Antônio e São Nicolau não tivesse se metido.

NONO

Anas

A primeira Ana abriu os olhos inchados. Era mais um dia. Abriu bem os braços na tentativa de não evocar a lembrança de tanta ausência, preencheu todo o espaço do colchão, sentiu-se momentaneamente completa. A porta abriu. Ela rapidamente fechou os olhos, o coração batia forte enquanto fingia ressonar. O cheiro de bebida invadiu o quarto e ele caiu pesado e roncando. Ana com a alma enxuta queria pelo menos chorar. Levantou-se sem a preocupação de não fazer barulho. Olhou aquele estranho de boca aberta, babando e pensou que era isso que lhe restava: a baba da bebida apodrecendo a sua vida.

A segunda Ana acordou mas seus olhos insistiam em não abrir, talvez fosse o inchaço.

Suas pálpebras coladas imobilizavam também o seu corpo. Hoje ela não queria vê-lo, mas a porta abriu trazendo um odor ocre. Ela imóvel, ria secretamente por desprezo e tristeza. O consolo era saber de sua inexistência para o outro. Sem se dignar lhe dirigir um olhar, desabou na cama de sapatos e gravata. Seus roncos lembravam os de um urso hibernado.

Ana decidiu. Ana decidiu.

Pensavam as duas, cada uma de um lado da cidade: chega dessa vida esquecida, das noites insones e das lágrimas ressequidas nos cantos dos olhos. Chega de roncos, do cheiro de bebida, da espera infinita e dos amanheceres agourentos. Chega. Chega.

A primeira fez as trouxas. Pegou a imagem de São Jorge e a foto do filho morto e foi embora a pé. A segunda arrumou suas roupas Armani dentro da suas malas Versace e com o seu passaporte sempre em dia, rumou para aeroporto em seu Mercedes.

Ana chorou. Ana chorou. Chorou molhando o volante do carro. Chorou com a cara colada na janela ensebada do ônibus. Não agüentaram. Ana largou Mercedes, Versace e Armani. Sufocada, mergulhou na multidão.

Ana impulsivamente, desceu do ônibus, deixando para traz, sua trouxa, São Jorge e a foto do filho. Arremessou-se contra a multidão. As ruas sempre iguais acabaram por fundir-se e as Anas se esbarraram. Corpo a corpo. A Ana da mansão, do Mercedes, consumidora de Versace, e Armani chorava sem ver as lágrimas da outra. Pensou: para essas pessoas é mais fácil, estão acostumadas ao sofrimento. A Ana do barraco, de São Jorge, do filho morto, com seus olhos embaçados pelas lágrimas não reparou que a outra também chorava, mas notou suas roupas caras e pensou: essa, a vida não abandona, não sabe o que é solidão, não tem marido bêbado babando em seus travesseiros de linho.

Ana se enganou. Ana se enganou.

DÉCIMO

Banquete de Flores

—Sai! —Não saio! —Sai daqui... —Já disse que não saio! Todos os dias o inferno instala-se, deflagrando a mesma discussão. Eu a expulsava mas ela continuava rodopiando pela cozinha. Onde eu ia lá vinha ela atrás. Para onde olhava me deparava com o mesmo olhar pidão. Os inevitáveis esbarrões floresciam meus nervos. Eu me silenciava, seu peito estufava, as veias do pescoço tremiam, então era ela que gritava: —Eu quero aprender! Teimosa, teimosa e só tinha sete anos. Não conseguia nem alcançar as panelas! —Vai brincar menina! —Nããão! —Faz de conta...

—De faz de conta eu não quero; minha boneca não quer comer coisa de plástico e nem aquela porcaria de misturinha de mentira... ela quer lasanha, macarrão, arroz, bife, bata... —Sai não me amole menina, olha que o chinelo voa!

De tanto insistir, aporrinhar, acabei ensinando. Ela aprendeu. Enquanto as panelas entediavam-me, ela aos nove anos tateava apaixonada perfumes e sabores. Nascera com o Dom. Saltitava entre as panelas, perita, mas pequena ao meu ver para entregar-se perdidamente ao forno e o fogão.

Retornando de mais um dia de trabalho, impregnada de problemas e buzinas, flagrei um banquete. Meia dúzia de mendigos fartavam-se com iguarias feitas por ela. Uma ladra, de onze anos, assaltando a despensa da própria casa para brindar vagabundos. O meu sangue ferveu cozinhando o meu cérebro. Meu sapato voador desviou-se dela, acertando um dos coitados. Minha bolsa rota, desgastada pela insistente fricção à procura da última moeda, sinalizava: aquela obsessão culinária tinha chegado ao meu limite. Dei fim à festa derrubando pratos e trazendo-a pela orelha para a dura realidade dos fundos das bolsas e despensas vazias. Ao invés de trancafiá-la entre bonecas, condenei todos os armários, distribuindo cadeados por toda a casa. Gritei para o mundo ouvir; —Quando você tiver a sua casa, seu dinheiro, você pode dar um banquete por dia. Eu me matando para pôr comida dentro de casa e você regalando essa corja. Ela nada disse, parecia não se importar com o vexame.

Dormi mal naquela noite. Um pesadelo sobre um anjo assando-me numa grande fogueira, enquanto ela e seus amigos mendigos riam e aplaudiam a minha sina, despertou-me com fome de perdão. A culpa atordoava-me. O que ela fazia era bonito. Bonito nos livros, na novela das oito... tudo tem limite. O remorso desarticulava a leveza da cabeça, do coração pesado. Insuportável! Em resolução íntima decidi: reconheceria a beleza do seu gesto, o seu talento, porém ponderaria os limites impostos não por mim, mas pela realidade.

O quarto vazio picou minha confiança. O medo invadiu minha alma disrritimando meu peito:

Fugiu, me abandonou, virou mendiga, nunca mais hei de vê-la. Era o cutelo do meu pensamento fendendo minha crença de dias melhores.

Desatinada, saí sem ao menos me trocar, gritando desesperada por ela. Ao abrir a porta, vi uma mesa improvisada. Uma faixa erguida sobre a mesa, agradecia a minha existência. Ela radiante entre os seus amigos mendigos ofertava-me um banquete de flores. A emoção me fez deslizar pelos degraus da entrada da casa. Amoleci, tombando no chão. Estragando irremediavelmente mais um banquete oferecido por ela.

Pode ser que o caleidoscópio um dia possa ser consertado, enquanto isso são os seus fragmentos a vida de cada anônimo.

Luciene Pinheiro is psychologist and writes short stories, some of which were published in anthologies. She also writes movie scripts. Her email for contact: lupinheiro_lu@hotmail.com





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